The Boys: Trigger Warning traz o caos da série ao PSVR2, mas esbarra em repetição
Adaptação em realidade virtual captura o humor ácido e a brutalidade da série, mas tropeça na repetição das mecânicas ao longo da campanha
Desde sua estreia, a série de The Boys se destacou por desconstruir a figura tradicional dos super-heróis, trocando o heroísmo clássico por uma combinação de violência extrema, humor ácido e crítica social. Adaptar esse universo para a realidade virtual parecia uma tarefa complicada, mas foi exatamente esse desafio que o estúdio brasileiro ARVORE decidiu encarar com The Boys: Trigger Warning, lançado originalmente em março para os headsets Meta Quest.
Agora, alguns meses depois, o jogo desembarca no PlayStation VR2 com a promessa de aproveitar os recursos do headset da Sony para tornar essa experiência ainda mais imersiva. A questão é saber se a transição para o PS5 consegue transformar o jogador em parte desse mundo caótico ou se a adaptação acaba ficando aquém do potencial da franquia.
Confira a seguir aqui no Terra Game On o que achamos da experiência.
Uma vingança com gosto de Composto V
Em Trigger Warning, não controlamos nenhum membro fixo do grupo e nem um dos "Supers" intocáveis da Vought. Assumimos a pele de Lucas Costa, um civil comum que vê sua vida ser estraçalhada pela família Armstrong — um grupo de super-humanos decadentes e cruéis, em uma versão distorcida do Quarteto Fantástico da Marvel.
À beira da morte, Lucas é resgatado por Butcher (ou Billy Bruto, na tradução em português) e Mother's Milk (Leitinho), que o injetam com o Composto V temporário. A partir daí, Lucas é recrutado para o grupo e o jogo se transforma em uma clássica jornada de vingança física e psicológica.
O roteiro funciona bem como um "spin-off" que se encaixa na cronologia da série. A atmosfera pesada e o humor ácido estão lá. Contamos com o retorno de atores originais como Laz Alonso (Leitinho), Colby Minifie (Ashley) e aparições hilárias de Jensen Ackles (Soldier Boy). A dublagem entrega o nível que os fãs esperam, regada a muitos palavrões e a crueza típica desse universo.
Cabeças explodem, corpos são despedaçados e o jogo não faz qualquer esforço para suavizar o tom característico da franquia. Em realidade virtual, tudo isso ganha uma intensidade adicional que dificilmente seria reproduzida em uma tela tradicional.
A sensação de poder também funciona muito bem nos momentos iniciais. O jogador recebe habilidades sobre-humanas como telecinese, visão de calor e lâminas retráteis capazes de transformar inimigos em pedaços.
Há um prazer quase infantil em experimentar essas habilidades pela primeira vez, seja arremessando adversários contra paredes como um Jedi ou reduzindo grupos inteiros a cinzas com um simples olhar - é incrivelmente satisfatório. Os recursos do PSVR2 ajudam a reforçar essa imersão, utilizando gatilhos adaptáveis, feedback tátil e rastreamento ocular para tornar as ações mais convincentes.
O outro lado da moeda
Infelizmente, nem tudo são flores na corporação Vought. Apesar da premissa caótica, The Boys: Trigger Warning se apoia demais em mecânicas rígidas de furtividade e progressão linear.
Se você espera sair quebrando paredes desde o início igual ao Homelander (ou Capitão Pátria, se preferir), tire o cavalinho da chuva. O ritmo inicial do jogo é lento e repetitivo. Você vai passar uma quantidade massiva de tempo rastejando por dutos de ventilação para desviar de guardas e coletar cartões de acesso.
Embora ofereça diferentes poderes ao longo da partida, o jogo raramente exige criatividade do jogador. Os confrontos acabam se repetindo com frequência, seguindo uma estrutura previsível em que basta utilizar as mesmas habilidades para eliminar ondas de inimigos pouco variados. Até mesmo algumas batalhas contra chefes carecem da inventividade que o conceito prometia.
O calcanhar de Aquiles está no level design e nas mecânicas repetitivas. Em vez de cenários grandiosos, o que vemos é uma sucessão de corredores genéricos da Torre Vought, laboratórios e hospitais vazios que parecem compartilhar os mesmos assets reciclados.
Para piorar, a inteligência artificial dos inimigos é sabotada por uma burrice extrema, falhando em notar o jogador em situações escancaradas e minando qualquer senso de urgência ou perigo. Até as interações de hacking, que aparecem a todo momento, viram piada: a atividade se resume a assistir passivamente a uma animação repetitiva do seu personagem esmurrando o teclado, sem nenhum tipo de minigame ou desafio tátil.
Outro ponto que quebra a imersão e deve dividir opiniões é a escolha da direção de arte. Para uma franquia que se consolidou no imaginário pop pelo seu visual visceral, sujo e realista, a opção por modelos de personagens estilizados e caricatos, que flertam perigosamente com um traço de desenho animado, destoa completamente da proposta.
Para o público brasileiro, o balde de água fria é ainda maior devido à total ausência de localização para o nosso idioma. Lançar um título de peso baseado em uma das séries mais assistidas do país sem, no mínimo, legendas em português brasileiro é um descuido injustificável, que afasta grande parte dos jogadores locais e limita o alcance de um jogo que já exige o investimento pesado de um headset VR.
Considerações
The Boys: Trigger Warning é uma experiência curta, durando entre 3 e 5 horas de campanha. Ele acerta em alguns momentos ao capturar a essência da franquia e ao oferecer momentos genuinamente empolgantes de fantasia de poder em realidade virtual. Mas, por outro lado, falha em entregar a escala e a liberdade de ação que o fã de The Boys realmente gostaria de experimentar, caindo em um ciclo de jogo de furtividade mediano e de cenários repetitivos.
Se você é um fã da série da Amazon e quer interagir com o Billy Bruto e sentir o pavor de ficar cara a cara com o Homelander, o título diverte e entrega momentos marcantes. Mas, para quem procura um dos grandes títulos do PSVR2, talvez seja melhor ajustar as expectativas e esperar por uma boa promoção na PlayStation Store.
The Boys: Trigger Warning está disponível para Meta Quest e PSVR2.
Esta análise foi feita no PlayStation 5, com uma cópia do jogo gentilmente cedida pela Sony Pictures Virtual Reality.
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