Antes de Pokémon, a Game Freak criou um jogo impressionante no Mega Drive
Lançado em 1994, Pulseman mostrou o talento do estúdio anos antes do fenômeno Pokémon nascer
Antes de Pokémon se tornar um fenômeno mundial no Game Boy em 1996, a Game Freak ainda era um pequeno estúdio tentando conquistar seu espaço na indústria. Em uma época em que poucos imaginavam que Satoshi Tajiri e Ken Sugimori criariam uma das franquias mais lucrativas da história dos videogames, a dupla colocava em prática ideias ousadas em um projeto exclusivo para o Mega Drive: Pulseman.
Lançado há 32 anos, em julho de 1994 no Japão, o jogo chegou em um momento em que o console da Sega já disputava espaço com a nova geração de videogames. Mesmo assim, a Game Freak decidiu explorar ao máximo o hardware de 16 bits, entregando uma aventura de plataforma veloz, visualmente impressionante e repleta de efeitos que rivalizavam com os melhores títulos da época.
Um herói nascido da era digital
A história de Pulseman acompanha um protagonista bastante diferente dos heróis tradicionais dos anos 1990. Filho da união entre um cientista humano e uma inteligência artificial (pois é!), Pulseman é um ser capaz de manipular eletricidade e viajar entre o mundo real e o universo digital para enfrentar a organização Galaxy Gang, liderada pelo vilão Doc Waruyama.
A premissa pode soar curiosa hoje, mas refletia perfeitamente o fascínio da época pelo crescimento da informática e pela popularização da internet. Em vez de castelos medievais ou mundos de fantasia, Pulseman levava os jogadores para laboratórios, redes de computadores e ambientes virtuais repletos de efeitos luminosos.
O grande diferencial da jogabilidade está nos poderes elétricos de Pulseman. Ao ganhar velocidade, o personagem pode executar o famoso Volteccer, um golpe que transforma seu corpo em pura eletricidade para atravessar inimigos e alcançar áreas normalmente inacessíveis.
A mecânica não apenas torna a movimentação extremamente dinâmica, como também adiciona um componente estratégico às fases. Em vez de simplesmente correr e pular, o jogador precisa aproveitar o cenário para carregar energia e utilizar o ataque nos momentos certos.
Uma vitrine do talento da Game Freak
Embora Pokémon ainda estivesse a alguns anos de distância, muitos elementos que mais tarde marcariam a identidade da Game Freak já podiam ser percebidos em Pulseman.
Ken Sugimori (o lendário ilustrador responsável pelo visual original dos monstrinhos de bolso) assinou o design dos personagens, enquanto Satoshi Tajiri (o criador de Pokémon) participou da direção do projeto, mostrando que a dupla já buscava criar universos com forte identidade visual e mecânicas criativas.
O protagonista, com seu "cabelo" espetado, roupas coloridas e poderes elétricos, transmite aquele estilo marcante que se tornaria uma característica dos trabalhos do estúdio. Não é difícil imaginar Pulseman como um "primo distante" de alguns personagens que viriam a surgir nos jogos de Pokémon.
Um dos jogos mais bonitos do Mega Drive
Se existe um aspecto que faz Pulseman continuar impressionando mais de três décadas depois, esse aspecto é sua apresentação.
Pulseman usa truques de programação brilhantes para simular uma paleta de cores muito maior do que a limitação padrão do console, entregando cenários dinâmicos com luzes neon e efeitos de transparência incríveis. Em diversos momentos, é difícil acreditar que o jogo roda no mesmo hardware que recebeu títulos lançados apenas alguns anos antes.
As fases também apresentam grande variedade de temas, passando por cidades futuristas, laboratórios tecnológicos, ambientes digitais e até sequências que simulam viagens dentro de circuitos eletrônicos.
Tudo isso acompanhado por uma trilha sonora eletrônica bastante inspirada, assinada por Junichi Masuda, que mais tarde entregaria as músicas icônicas de Pokémon, e que combina perfeitamente com a temática cibernética.
Um clássico que quase ninguém jogou
Apesar da sua enorme qualidade técnica, Pulseman permaneceu praticamente desconhecido do público durante muitos anos.
O jogo nunca recebeu um lançamento físico oficial fora do Japão. Nos Estados Unidos, sua única aparição aconteceu através do Sega Channel, serviço que permitia baixar jogos diretamente pelo cabo de TV, tornando o acesso extremamente limitado.
Como consequência, muitos jogadores sequer souberam da existência do título durante a era do Mega Drive. Apenas com o crescimento da emulação e, posteriormente, graças ao seu relançamento no Wii Virtual Console, Nintendo Switch Online e em coletâneas digitais, Pulseman passou a ser descoberto por uma nova geração de fãs.
Uma pérola que merece ser redescoberta
Dois anos depois do lançamento de Pulseman, a Game Freak apresentaria ao mundo Pokémon Red & Green para Game Boy. O restante da história todo mundo conhece.
O sucesso gigantesco da franquia acabou deixando trabalhos anteriores do estúdio em segundo plano, mas revisitar Pulseman hoje é enxergar um retrato bastante claro da criatividade que já existia dentro da equipe. Muito antes de capturar monstrinhos de bolso, a Game Freak já experimentava ideias ousadas, explorava ao máximo as limitações do hardware e demonstrava um cuidado impressionante com design, jogabilidade e direção artística.
Talvez Pulseman nunca tenha alcançado a fama que merecia, mas permanece como uma das maiores joias escondidas do Mega Drive e uma lembrança de que, antes de mudar a história dos videogames, a Game Freak já era capaz de produzir experiências memoráveis.
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