Subversive Memories constrói uma investigação cheia de segredos
Inspirado pelos clássicos do PlayStation, o jogo transforma um dos períodos mais sombrios do Brasil em uma investigação cheia de mistérios
Os jogos de terror costumam buscar inspiração em lendas urbanas, experimentos científicos ou criaturas sobrenaturais. Subversive Memories segue um caminho diferente ao usar um capítulo real da história brasileira como base para construir sua narrativa. Em vez de apenas utilizar a ditadura militar como pano de fundo, o jogo faz desse período uma peça importante dos mistérios que cercam sua protagonista e a base militar que ela decide explorar.
Ao mesmo tempo, a Southward Studio demonstra claramente suas influências nos clássicos do gênero. A exploração, os quebra-cabeças e até algumas escolhas visuais remetem diretamente aos grandes nomes do survival horror dos anos 90, criando uma experiência que tenta equilibrar referências conhecidas com uma temática pouco explorada pelos videogames nacionais.
Uma investigação sem respostas fáceis
A trama de Subversive Memories se passa durante a ditadura militar. Nele, controlamos Renata, uma jovem que está passando por uma fase difícil da vida, carregando um vazio que nem ela mesma consegue explicar. Até que, certo dia, sofre um acidente de trânsito em frente a uma base militar. Sem lembranças de como ou por que foi parar ali, Renata decide investigar o local e descobre que ele guarda segredos obscuros.
Boa parte da história se desenrola dentro da base, mas em alguns momentos temos flashbacks que aprofundam ainda mais o passado de Renata, funcionando como ótimas quebras no ritmo da narrativa. Outro ponto que o jogo não evita abordar é justamente a ditadura militar. Nada é mostrado de forma explícita, mas também não fica apenas nas entrelinhas. É bastante claro que naquela base ocorreram as torturas que marcaram esse período da história do Brasil, e essa atmosfera acaba se conectando diretamente com a trama conforme descobrimos mais sobre Renata e sobre os acontecimentos daquele lugar.
Por mais que Subversive Memories tenha fortes inspirações em clássicos do PlayStation 1, como Alone in the Dark e Resident Evil, ele acaba se aproximando mais de Signalis quando observamos o estilo visual adotado. O jogo recria a estética desses clássicos, mas em vez de utilizar cenários pré-renderizados, aposta em modelos tridimensionais com visual simplificado para remeter aos títulos que ajudaram a definir o gênero de terror.
O próprio inventário e a forma como o mapa vai sendo preenchido em azul lembram bastante Resident Evil. No entanto, o título segue um caminho diferente quando olhamos para o combate. A lanterna é praticamente o único meio de defesa disponível dentro da base militar, já que os inimigos que encontramos são espíritos, ou sombras que surgem para atormentar Renata.
Esses encontros são relativamente pontuais. Até dá para entender essa escolha, já que o foco principal está muito mais na narrativa do que na ação. Quando os confrontos acontecem, cabe ao jogador decidir se vale a pena enfrentar as criaturas ou simplesmente fugir, já que a bateria da lanterna possui uso limitado. Ainda assim, os inimigos acabam sendo fáceis de lidar e dificilmente representam uma ameaça real. É um sistema que funciona dentro da proposta, mas que poderia até ser menos frequente sem causar grandes impactos na experiência.
Fora dos combates, o verdadeiro coração de Subversive Memories está na exploração e na quantidade de quebra-cabeças espalhados ao longo das cerca de três horas de duração. Os puzzles são facilmente um dos pontos mais fortes do jogo. Existe o clássico backtracking, a necessidade de analisar documentos para avançar e uma progressão que recompensa a observação do ambiente. Mesmo sendo uma experiência curta, em nenhum momento surge aquela sensação de excesso no vai e vem pelos cenários.
Considerações
Subversive Memories encontra seus melhores momentos quando aposta na investigação e na construção de atmosfera. A combinação entre os segredos da base militar, os flashbacks de Renata e os quebra-cabeças faz com que a curta duração da campanha seja aproveitada de forma eficiente, mantendo a curiosidade do início ao fim.
Os confrontos contra os inimigos não possuem o mesmo peso do restante da experiência e dificilmente geram a tensão que o jogo parece buscar. Ainda assim, a boa utilização de seu contexto histórico e a qualidade dos puzzles ajudam o título a construir uma identidade própria dentro do cenário independente brasileiro. Para quem gosta de explorar ambientes, reunir pistas e desvendar mistérios, há mais acertos do que erros nessa jornada.
Subversive Memories está disponível para PC.
Esta análise foi feita no PC, com uma cópia do jogo gentilmente cedida pela Southward Studio.
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