Script = https://s1.trrsf.com/update-1786557910/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Futebol

Publicidade

Times paulistas lideram ascensão do futebol feminino e tornam São Paulo 'meca' da modalidade

Neo Química Arena, no bairro de Itaquera, recebe 10 jogos da Copa do Mundo de 2027, em mais um passo de evolução que começou no interior do Estado e se consolidou na capital

7 set 2026 - 05h41
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
São Paulo se consolidou como a principal potência do futebol feminino no Brasil, fruto de investimentos contínuos de clubes como Corinthians, Palmeiras e Ferroviária, além do apoio pioneiro da federação estadual. Por essa relevância histórica, a capital paulista será a cidade com mais partidas na Copa do Mundo Feminina de 2027. Contudo, o setor ainda busca sustentabilidade a longo prazo para superar crises financeiras e enfrenta o desafio de estruturar o acesso e as categorias de base.

O Maracanã, no Rio, foi escolhido para sediar a abertura e a final da Copa do Mundo feminina, que será disputada no Brasil entre 24 de junho e 27 de julho de 2027. São Paulo, contudo, também será protagonista do Mundial, afinal é a sede a receber mais jogos, uma forma de reconhecer a cidade e o Estado onde a modalidade mais se desenvolveu ao longo dos últimos anos no País.

A Neo Química Arena, estádio do Corinthians e palco de partidas de futebol feminino com mais de 40 mil torcedores, terá em seu gramado o total de 10 jogos ao longo do torneio da Fifa. Embora tenha como casa a Fazendinha, no Parque São Jorge, o time corintiano, empilhador de títulos há cerca de 10 anos, costuma mandar jogos decisivos e clássicos em Itaquera.

Não é só a trajetória do clube alvinegro que eleva a fama do território paulista. O projeto do Palmeiras, ao qual a presidente Leila Pereira prometeu destinar R$ 23 milhões ao longo de 2026, também vem trazendo resultados. O São Paulo ainda tenta alcançar os rivais, mas está se consolidando e vive grande temporada.

No litoral paulista, o Santos, que fora protagonista há cerca de 15 e chegou a ter Cristiane e Marta juntas no elenco, ainda luta para voltar ao lugar que já ocupou. Mais longe da capital, a Ferroviária, de Araraquara, se mantém como uma das grandes potências da modalidade.

"Tem um tipo de política pública que a gente presenciou nos anos 2000, no estado de São Paulo, que tem a ver com outros experimentos de como garantir a manutenção de clubes femininos", afirmou ao Estadão a historiadora Aira Bonfim, referência em pesquisa sobre a modalidade e autora do livro Futebol Feminino no Brasil, durante o Elas Jogam Summit, evento idealizado pela empreendedora social Gabi Sabino e realizado no Museu do Futebol para debater o legado da Copa do Mundo.

"O São José foi um caso, Araraquara foi outro caso. São tipos de parcerias que têm um envolvimento dessas prefeituras, com espaços e equipamentos que às vezes eram dos clubes, às vezes da própria cidade, com recursos oriundos não necessariamente só de patrocinadores. Um ecossistema naquela época permitiu que você tivesse processos mais longevos de investimento e continuidade", conclui.

O protagonismo consolidado dos grandes clubes da capital é mais recente, puxado pelo Corinthians, que, após encerrar a modalidade em 2009, retomou as atividades em 2016. Sob a liderança da diretora Cris Gambaré, hoje coordenadora da seleção feminina, a equipe se consolidou e, não à toa, ganhou sete dos últimos oito Campeonato Brasileiros, além de ser hexa da Libertadores.

O Corinthians já tinha um projeto sólido quando a Conmebol e a Fifa passaram exigir aos clubes que mantivessem times femininos para disputar as competições organizadas por elas, em 2018. A CBF fez o mesmo em 2019, como condição para participar da Série A do Brasileirão - mesmo assim, o Mirassol, por exemplo, disputou uma temporada na elite masculina sem gerir uma equipe feminina e só deu esse passou quando se viu sob o risco de não poder disputar a Libertadores.

"Nessa determinação, os parágrafos vão falar sobre o investimento na modalidade de mulheres, mas você olha os outros parâmetros: o tamanho do campo, segurança, iluminação. Foi um entendimento muito interessante e estratégico das entidades", comenta Bonfim.

"Ampliou o número de clubes nessa versão mais tradicional, ainda mais em São Paulo, que vai ser sempre um estado muito privilegiado na participação desses eventos internacionais ou sul-americanos. Porque a gente estava falando de Conmebol e FIFA. Então, nos últimos anos você vai operar com essa esse ressurgimento dessas camisas, o Corinthians, o Palmeiras, o São Paulo", completa.

Hoje, o futebol feminino nacional tem destaques fora de São Paulo, como o Internacional e o Flamengo, mas os projetos paulistas e paulistanos são vistos como referência para os outros estados, inclusive por quem está no topo da cadeia da organização da Copa do Mundo Feminina.

"São Paulo tem essa experiência acumulada", comenta Juliana Agatte, secretária extraordinária da Copa, vinculada ao Ministério do Esporte. "Realizar uma Copa aqui é trazer visibilidade internacional à cidade e, ao mesmo tempo, provocar outros estados para investir numa agenda como essa. Não começa do dia para a noite, requer planejamento. São Paulo tem sucesso porque investiu em base. Não é simplesmente montar um time porque há uma exigência para o masculino competir."

E o legado?

Quando o futebol feminino foi regulamentado no Brasil, em 1983 - após um período de ilegalidade que durou de 1941, instituído por decreto-leito de Getúlio Vargas, a 1979 -, uma das iniciativas pioneiras se deu no ABC Paulista. Dois anos após a regulamentação o Saad Esporte Clube, de São Caetano, foi um dos primeiros clubes a ter uma equipe para mulheres.

O caminho da profissionalização, contudo, demorou muito a ser trilhado, em meio a projetos pontuais que funcionaram e foram abandonados ao longo dos anos. Temer que isso se repita não seria exagero, basta observar a situação vivida pelas 'Brabas' do Corinthians, afetadas pela crise financeira e institucional do clube.

Jogadoras foram ao Parque São Jorge para cobrar direitos de imagem atrasados, e parte do acordo com presidente Osmar Stábile para o acerto da dívida não foi cumprido. Basta o descuido de uma gestão para a implosão de um projeto de anos.

Por cenários como esse, fala-se tanto em legado da Copa do Mundo. A discussão é pela continuidade, sem depender de um evento tão grandioso para ter visibilidade.

Idealizadora da Copa Elas Jogam, projeto paulistano cujo objetivo é dar visibilidade e incentivo a jovens jogadoras, a jornalista e empreendedora social Gabi Sabino entende que parte desse retorno do Mundial ao futebol feminino brasileiro tem estar ligado à base. Como é natural que se imagine um aumento do interesse pela modalidade, prevê a necessidade de se preparar para atender essa potencial demanda.

Copa Elas Jogam, realizada pelo Instituto Envolverde, em parceria com o Instituto Futuro em Jogo, e idealizada por Gabriela Sabino, pretende ampliar oportunidades para jovens jogadoras.
Copa Elas Jogam, realizada pelo Instituto Envolverde, em parceria com o Instituto Futuro em Jogo, e idealizada por Gabriela Sabino, pretende ampliar oportunidades para jovens jogadoras.
Foto: Divulgação/Elas Jogam / Estadão

"Temos que provocar essa conversa, se o estado vai comportar essa nova demanda, nessa grande janela de visibilidade. Qual é a estrutura que a gente vai ter? Como que as escolas vão estar preparadas? Os clubes das comunidades vão estar preparados? Se isso for uma prioridade na agenda pública, eu tenho certeza que a gente tem capacidade institucional para fazer isso acontecer", comenta.

Segundo a CBF, o número de clubes disputando competições adultas e de base no futebol feminino subiu de 58 para 79 entre 2021 e 2026. Frente a um movimento tão novo, contudo, ainda não há dados concretos para se avaliar o sucesso ou não em dar sequência à formação de jogadoras de futebol.

"Como que a gente garante uma estrutura - que, por exemplo, a Lei Pelé facilitou - de você conseguir entender essa cadeia de formação de uma atleta que constitui às vezes de um projeto social, um CDC, ou clube de várzea, que depois vai para uma escolinha mais estruturada, ou pra um projeto com mais visibilidade, e finalmente, vai acessar os clubes de futebol. Então, isso é um cenário muito desigual", pontua Aira Bonfim.

Mesmo em São Paulo, apesar da força no nível profissional, há uma grande disparidade quando se analisa a base, como as categorias sub-15 e sub-10, e a prática nos bairros e escolas, onde as meninas enfrentam severas dificuldades de acesso. Um exemplo é o projeto Guapas, que utiliza os Clubes Desportivos da Comunidade (CDCs) da cidade, os quais muitas vezes não possuem sequer banheiros femininos adequados.

"Olhando para São Paulo, principalmente quando a gente fala do grande centro, esses caminhos hoje não estão claros, não são tão mapeados, eles não estão institucionalizados dentro da Federação Paulista (FPF), por mais que exista um esforço pra mitigar isso", acrescenta Bonfm.

O esforços da FPF em relação ao futebol feminino se consolidaram em 2016, quando se tornou a primeira federação estadual a criar um departamento dedicado exclusivamente à modalidade. Tal iniciativa partiu de uma conversa de atletas com Mauro Silva, vice-presidente da entidade, e levou a ex-zagueira Aline Pellegrino, ex-Santos e São Paulo, a coordenar a divisão.

Hoje, Pellegrino é gerente de competições femininas da CBF e diretora executiva de legado e relações institucionais da Copa do Mundo. Na CBF, trabalha com Cris Gambaré e o técnico Arthur Elias, outros dois nomes forjados no cenário paulista.

A partir de 2017, a federação se concentrou em criar um arranjo de competições de base para meninas. Atualmente, conta com sub-12, sub-14, sub-15, sub-17 e sub-20.

Estadão
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra