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Suspeita de fraude leva eleição do Corinthians à Justiça

Perícias apontam falha de segurança no sistema de votação do pleito que elegeu Andrés Sanchez

23 jul 2018
05h11
atualizado às 08h18
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Enquanto o técnico Osmar Loss está pressionado no Corinthians após perder o clássico para o São Paulo, os bastidores do clube fervem. A suspeita de que houve irregularidade na eleição para presidente aumentou após três auditorias constatarem falhas de segurança na votação e o Ministério Público de São Paulo deixar claro que não é possível assegurar a integridade do pleito, que recolocou Andrés Sanchez no poder.

A fraude ainda não foi confirmada. De concreto, apenas que ocorreram falhas de segurança no sistema de votação, que foi feito pela empresa contratada Telemeeting Brasil. Diante disso, na semana passada, o MP se manifestou dizendo que "ficou demonstrada a absoluta violação da confiabilidade e seriedade do pleito e o desvirtuamento do processo eleitoral de um dos maiores clubes do Brasil, vez que o presidente e chapas não foram eleitos dentro de um processo democrático íntegro, seguro, confiável e hígido."

O presidente do Corinthians, Andrés Sanchez
O presidente do Corinthians, Andrés Sanchez
Foto: Fábio Motta / Estadão

As falhas na eleição foram encontradas pela Dynamics Perícias, contratada por Paulo Garcia, candidato que ficou em segundo lugar, Perícias Informática, paga pela Comissão Eleitoral do Corinthians, e o Instituto de Criminalística, órgão da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.

Quem apontou dados que mais levantaram dúvidas da idoneidade da eleição foi a Dynamics. Ela detectou diferença de 25 votos entre os que foram apurados e o número de sócios que assinaram a lista de presença no dia da votação. Além disso, na véspera do pleito, foi apresentado o sistema de votação aos auditores e fiscais e, após a exibição, o computador foi lacrado e gerou um código. O número, porém, apareceu diferente quando as máquinas foram checadas ao fim da votação.

Não bastasse, os votos foram registrados através de uma rede Wi-Fi considerada vulnerável, pois não havia criptografia, o que facilita um acesso de terceiros aos dados eleitorais.

A Perícias Informática constatou que houve a divergência no código do computador, mas que isso ocorreu por falha de um funcionário da Telemeeting e que o problema não pôde ser corrigido após a eleição por causa da confusão generalizada no Parque São Jorge com o anúncio da vitória de Andrés Sanchez. A perícia também destaca a fragilidade da rede Wi-Fi.

O Instituto de Criminalística aponta que a alteração dos códigos se deu antes da eleição e que o sistema de votação se comportou de forma legal e esperada.

Em fevereiro, pouco tempo após a eleição, Paulo Garcia entrou com ação criminal alegando suspeita de fraude. A Polícia Civil instaurou inquérito para investigar o caso e determinou a apreensão de computadores.

Prisão

A Justiça marcou audiência para 27 de agosto. Quer ouvir os funcionários da Telemeeting. Se alguma fraude for constatada, ainda será preciso que alguém (possivelmente, membros da oposição de Andrés) entre com ação na Justiça Civil e no Conselho Deliberativo do clube para impugnar o resultado da urna, anular a eleição e realizar um novo pleito.

Enquanto isso, Andrés administra o Corinthians como presidente eleito. Atestando irregularidades, os responsáveis pela Telemeeting podem ser enquadrados no artigo 66 do Código de Defesa do Consumidor, que prevê pena de três meses a um ano de prisão e multa. Outros envolvidos podem ser punidos.

Andrés Sanchez, presidente eleito

Eleito presidente do Corinthians com 1.235 votos (33,9%), Andrés Sanchez inicialmente não queria comentar o assunto, mas depois resolveu falar e se eximiu de qualquer envolvimento na suspeita de fraude nas eleições do clube, em fevereiro. "Fui candidato. Fico triste com tudo isso, mas precisa perguntar para quem era o presidente do Conselho na época e quem era da Comissão Eleitoral. Não tem nada e ficam fazendo carnaval com isso, mas o Corinthians é assim mesmo. Tudo tem virado uma política muito grande", disse.

Paulo Garcia, segundo colocado

Segundo colocado nas urnas, com 832 votos (22,8%), Paulo Garcia preferiu não se manifestar publicamente, mas designou seus advogados para falar em seu nome e eles reforçaram a preocupação com a idoneidade da votação.

"O promotor de Justiça (Paulo Castilho) pediu a instauração do processo para apurar um crime contra o consumidor. Teriam sido lesados o Corinthians, os candidatos e a própria coletividade, uma vez que todo o processo eleitoral envolve um interesse público", comentou o advogado Eduardo Silveira Melo Rodrigues.

Antônio Roque Citadini, terceiro colocado

Candidato que ficou em terceiro lugar na eleição, com 803 votos (22%), Antônio Roque Citadini disse que ainda precisa estudar um pouco mais o caso para opinar. "Soube o que saiu pela imprensa, então ainda não sei profundamente o que aconteceu. Opinar nessa situação é algo complicado. Vou ver o que ocorreu e me manifesto em outro momento", disse.

O presidente do Conselho Deliberativo do clube na época, Guilherme Strenger, preferiu não se manifestar sobre o caso e diz aguardar pela definição da justiça para comentar sobre o assunto

Felipe Ezabella, quarto colocado

Quarto colocado na eleição corintiana, com 461 votos (12,6%), Felipe Ezabella lembrou que essa não é a primeira polêmica envolvendo o pleito do Corinthians. "É mais um triste capítulo das eleições alvinegras. Confusões com anistias irregulares, denúncia de compra de votos, guerra de liminares na Justiça, empresários arcando com pagamento de mensalidades com depósitos a título de empréstimos na conta do clube, quebra-quebra na apuração... Vamos acompanhar o desfecho da ação criminal e continuar cobrando transparência", afirmou.

Romeu Tuma Júnior, quinto colocado

Último colocado no pleito, com 278 votos (7%), Romeu Tuma Júnior acredita que a gravidade das denúncias faz com que seja necessário uma atenção redobrada no caso. Ele espera que os envolvidos não permitam o fim da história sem que os responsáveis sejam punidos. "O que posso dizer é que considero lamentável tudo isso e mais uma vez, o maior prejudicado é o Corinthians. Aparentemente, participamos de um pleito maculado. Os sócios, torcedores que não votaram, imprensa, todos nós fomos enganados e causaram danos irreparáveis. É preciso investigação séria para não deixar isso acabar sem punição."

Empresa critica promotoria

A Telemeeting Brasil, empresa responsável pelo sistema de segurança e votação da eleição do Corinthians, se manifestou através de seu advogado e deixou clara a irritação com a postura da promotoria pública, que teria "tomado partido" no caso.

"Estou achando estranho o promotor (Paulo Castilho) tomar partido. Ele tem falado de falta de idoneidade, baseando-se em um laudo realizado a pedido do Paulo Garcia, que foi candidato. A Telemeeting não colocou perito no caso e tanto o Conselho do Corinthians quanto o instituto de criminalista fizeram um laudo e ambos deram negativo", diz o advogado da empresa, Denis Ricardo Rodrigues.

No dia 27 de agosto está prevista uma audiência para o Ministério Público ouvir funcionários da Telemeeting Brasil. Oficialmente, a empresa nega qualquer interesse em fazer acordo por entender que não houve nada que apontasse uma fraude.

O advogado minimiza também as declarações da promotoria de que a suspeita de fraude pode ser algo que cause danos para a população, já que envolve um dos maiores clubes do Brasil. "Estamos falando de uma eleição em que votaram sócios de um clube. Foram alguns milhares de votantes e não uma nação. É um exagero dizer que é algo que envolva o País."

Outra questão alegada pela empresa é que a confusão generalizada ao fim da eleição, quando torcedores invadiram o local onde estavam as urnas e ocorreu a votação, no ginásio do Parque São Jorge, fez com que alguns papéis com a senha que comprovava o voto fossem perdidos na bagunça. "Já fizemos eleição em vários outros clubes e temos um histórico nessa área. Estamos conscientes de que tudo foi feito dentro da lei, por isso estamos tranquilos no caso da eleição no Corinthians", atesta o advogado.

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Estadão
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