Técnico deixou base do Corinthians por não ceder a pressões
Treinador do Southern California, dos Estados Unidos, o brasileiro Daniel Musatti começou sua carreira no Corinthians em 2005 como observador do futebol de base. Aos poucos, passou a ocupar o cargo de auxiliar das equipes amadoras do clube e logo se tornou treinador. Quando dirigia a equipe sub-15 do Corinthians, em 2009, sentiu o peso das interferências extracampo para escalar o time. Na final do torneio Brasil-Japão, em Atibaia, contra o São Paulo, ele recebeu ‘recados’ de que deveria barrar o zagueiro Marquinhos e incluir quatro jogadores entre os titulares.
Pressionado e sem saber a quem recorrer, decidiu não ferir sua consciência. A relação dos atletas para aquela partida somava 22. Ele tinha de inscrever 18. Ao entregar a lista para o quarto árbitro, minutos antes do jogo, já tinha tomado uma decisão: os quatro excluídos seriam aqueles apadrinhados.
“Dois conselheiros do clube, hoje mais fortes ainda no Corinthians, exigiam a escalação de dois ‘afilhados’. Um policial militar queria que eu botasse o filho dele em campo e um jornalista de muito prestígio me ameaçou ao telefone, dizendo que a minha carreira estaria encerrada se eu não escalasse o seu filho. Foram dias muito difíceis e tristes pra mim”, contou Musatti, em entrevista exclusiva ao Terra.
No tempo normal, Corinthians e São Paulo empataram (2 a 2). Na decisão por pênaltis, o rival ganhou o título. Mas não foi por isso que, dois dias depois do jogo, Musatti acabou demitido do clube. “O gerente da base me chamou e com os olhos em lágrimas me comunicou a decisão. Disse que se não fizesse aquilo, ele é que seria demitido e o que viesse em seu lugar me afastaria imediatamente. Eu compreendi, sou amigo dele até hoje.”
Além de manter a cabeça erguida pelo dever cumprido com profissionalismo, Musatti tem outro motivo para se orgulhar de seus atos que lhe custaram o emprego oito anos atrás. O zagueiro Marquinhos, então alvo daqueles que defendiam interesses exclusivistas, é hoje titular do PSG e da Seleção brasileira e um dos jogadores mais valorizados da Europa.
“Ele nunca soube dessa história. Agora, vai ficar sabendo. Nunca contei isso pra ele, não quis perturbá-lo, achava que poderia se impressionar. Mas, hoje, o Marquinhos já é formado, tem muita personalidade e sua carreira fala mais alto.”
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