Treinador brasileiro relata casos de xenofobia nos EUA
O paulista Daniel Musatti, 36 anos, se projetou como técnico dos times de base do Corinthians. Em 2009, não cedeu a pressões para escalar alguns atletas da equipe paulista, no sub-15, e acabou demitido. Foi tentar a vida nos Estados Unidos e hoje treina o Southern California SC, clube da 4ª Divisão nacional. Sua experiência de oito anos trabalhando no futebol daquele país, no entanto, parece se aproximar do fim. E a razão disso é bem grave – ele se diz vítima de xenofobia e do silêncio das autoridades esportivas dos EUA diante de discriminações e de erros suspeitos das arbitragens.
Inconformado com o que tem visto e ouvido dentro e fora de campo, Musatti pretende ir à Corte Arbitral do Esporte, na Suíça, para denunciar os casos de xenofobia e também de racismo que presenciou nos Estados Unidos, sem que nenhuma providência fosse tomada.
Nesta entrevista ao Terra, ele relatou alguns dos episódios recentes em jogos da NPSL (National Premier Soccer League), envolvendo o Southern California. São situações claras de discriminação e outras que levantam suspeitas sobre manipulação de resultados
Há quatro semanas, em partida contra o Orange County, seu time vencia por 3 a 0 e, após o intervalo, o adversário reagiu e chegou ao empate por 3 a 3. De acordo com Musatti, isso só foi possível devido a uma atuação dirigida do árbitro. “Por que isso aconteceu? Porque o técnico do Orange, Paul Caligiuri (ex-jogador e técnico da seleção dos EUA), é também diretor da Liga e a arbitragem faz o que ele quer.”
Antes, num amistoso contra o mesmo Orange, no início do ano, o técnico brasileiro já começou a sentir a hostilidade dos ‘colegas’ de outro clubes. Partiu, segundo ele, do próprio Paul Caligiuri a ‘ordem’ para o árbitro expulsá-lo depois de um princípio de confusão envolvendo os dois times.
Musatti desfruta de licença A da Fifa e B da Uefa para treinar equipes. Durante outra partida do Southern California, contra o Albion, de San Diego, disputada no final de abril, ele rechaçou o técnico adversário quando ouviu dele uma referência preconceituosa contra o atacante colombiano Rooni Moreno, do Southern.
“Ele o chamou de gorila. Eu retruquei, pedi respeito e tudo isso foi na frente do quarto árbitro, que nada fez. Diante das minhas reclamações, o técnico do Albion disse em voz alta: ‘treinador do Brasil aqui não vale bosta nenhuma’. Ele me disse outras coisas, não publicáveis, denegrindo a mim e também ao meu país.”
O jogo estava empatado (1 a 1) e aos 45 do segundo tempo o árbitro marcou um pênalti para o Albion. Quando o gol foi marcado, de acordo com Musatti, houve mais provocações.
“Ele começou a me ofender e a xingar o Brasil. Isso tudo presenciado pela arbitragem. Horas depois, saía a súmula da partida e não havia nenhuma referência a essas agressões. Apenas que houve um incidente entre os dois treinadores. Os dirigentes do meu clube questionaram o árbitro e ele disse que não teria havido nada de relevante para ser registrado. Acabei recebendo uma advertência da justiça esportiva local e ficou por isso."
Em outra situação, no último sábado, contra o Arizona, o volante mexicano Brian Orta, do Southern, levou um soco no rosto, segundo Musatti, na frente do árbitro e nada foi feito. “No segundo tempo, nosso zagueiro Dani Lopez, também mexicano, recebeu uma cusparada no rosto e mais uma vez houve a omissão da arbitragem.”
O técnico brasileiro contou que por causa desses incidentes houve uma discussão envolvendo os dois bancos de reservas. Foi quando ouviu do treinador do Arizona. “Seus p. do Brasil, vão à m., aqui não tem lugar pra vocês.”
Indagado pela reportagem do Terra se considerava essas reações contra atletas latinos e contra si próprio como xenofobia, Musatti não hesitou. “Isso está muito claro pra mim. Por isso, estou até abrindo mão de receber meu ‘green card’. Não dá para conviver num ambiente assim, sem nenhum respeito e com a conivência de quem deveria agir.”
Musatti tem dois mestrados nos EUA – em Psicologia do Esporte e em Gestão Internacional do Esporte. Ele mora na cidade de Redlands, no Estado da Califórnia, com a mulher e o filho, de 3 anos. Por causa do que tem passado no futebol dos EUA, está decidido a deixar o país.
“O salário de um técnico brasileiro aqui, mesmo com licença A da Fifa, é a metade do que ganha um treinador americano portador de uma licença C, por exemplo. E eu já cansei de ser humilhado, de ouvir ofensas racistas; e de não ver nenhuma punição.”