Saiba tudo do brasileiro que tem "superpoderes" e domina Portugal
- Dassler Marques
Givanildo Vieira de Souza era um menino de apenas três anos, no bairro José Pinheiro da paraibana Campina Grande, e tinha um programa que não lhe fazia sair de frente da televisão. Já com um porte físico incomum para as crianças de sua idade, ele imitava o personagem que ficava verde de raiva para destruir tudo o que aparecia. Os pais do pequeno guri, dona Socorro e seu Djovan, não tiveram dúvidas: já que a cena se repetia tantas vezes, Givanildo agora também seria chamado de Hulk. E assim tem sido há mais de duas décadas.
Socorro e Djovan provavelmente não esperavam que, um dia, o pequeno Givanildo, o único homem entre os sete filhos, se transformaria em um dos principais atacantes da Europa neste momento. Em 32 jogos até aqui, os torcedores do Porto já gritaram 27 gols de Hulk, que só marcou menos que Messi em 2011 e também é o terceiro maior goleador na somatória de toda a temporada europeia.
"Acho que evoluí bastante. Tenho trabalhado muito e, no dia a dia, você vai colhendo os frutos. A gente procura aprender com o que acontece de errado e também com as coisas boas para melhorar", conta Hulk, 24 anos, em entrevista exclusiva concedida ao Terra.
Da mesma forma que escapava do assédio dos pais, para que ajudasse a família em sua barraca de carnes nas feiras livres de Campina Grande, o maior nome do Porto na atualidade vem driblando os defensores.
No momento em que os brasileiros se ressentem de um compatriota que decida jogos na Europa, Hulk e a infalível perna esquerda despontam como um grande alento. Convocado por Mano Menezes para o próximo amistoso com a França, no início de fevereiro, o atacante que só fez dois jogos como profissional no futebol brasileiro vai atrás do sucesso também com a camisa amarela.
"Quero muito e tenho o sonho de brilhar com a Seleção. Se eu jogar bem pelo Brasil, serei reconhecido e essa é a preocupação que tenho", explica Hulk. Apesar de ser pouco conhecido no País onde nasceu, o matador do Porto diz não ligar. "Não ligo para a mídia, em ser reconhecido. Quero é fazer meu trabalho", acrescenta.Hulk, ignorado por Corinthians e São Paulo, e a rara trajetória
Mesmo antes de ser profissional, Hulk já trilhava um caminho totalmente diferente ao da grande maioria dos jogadores. Quem conta é Zé do Egito, reconhecido pelo próprio atacante como seu descobridor.
"Foi há 13 anos e eu era diretor do Campinense. O Francisquinho, primo dele, me chamou para vê-lo treinar. Jogava muito futsal naquela época e o indiquei ao Corinthians. Ele ficou lá dois meses e não foi aproveitado", explica o empresário.
Se você imaginou que Hulk partiu para tentar a sorte em outro time grande, ledo engano. Zé do Egito lhe deixou quase um ano nas categorias de base do Vilanovense, de Portugal.
"Um empresário amigo meu era o presidente, mas não tinha condição de ficar por lá", recorda. "Levei no São Paulo para o Cilinho (ex-treinador e ex-responsável pela base são-paulina). Ficou um ano com ele, foi artilheiro do Paulista Juvenil, mas o acordo era que pagassem R$ 45 mil para ficar com ele. Como não pagaram, tirei do clube".
Então, Hulk assinaria o primeiro contrato profissional com o Vitória. "Me lembro dele, chegou ao clube em um sábado pelas mãos de Zé do Egito, seu descobridor. Era um bom jogador", conta Paulo Carneiro, presidente do clube baiano à época.
Por lá, o atacante permaneceu até se profissionalizar: discretamente, enfrentou Fluminense e Internacional no Campeonato Brasileiro de 2005, e acabou sendo cedido ao futebol japonês.
"De certa forma, ele não tinha muito prestígio na base do Vitória. Por isso foi emprestado. Um empresário japonês cedia dinheiro para o clube e pegava direitos econômicos de alguns jogadores. Mas quando foi embora eu já não estava mais por lá", recorda Paulo Carneiro. Até chegar aos juvenis, porém, ele era lateral esquerdo e chamado de Givanildo.
No Japão e em Portugal, um fenômeno dos gols
Em um momento em que os grandes jogadores já não viam o futebol japonês como um bom caminho, Hulk fez seu próprio cartaz. Depois de seis meses no Kawasaky Frontale, foi cedido ao Consadole Sapporo. Foi a virada na carreira: fez 25 gols em 38 jogos e acabou como vice-artilheiro da segunda divisão. Manteve a média no Tokyo Verdy, um dos mais populares do País, e foi parar no Porto. Nessa altura, já estava nas mãos de Juan Figger, um dos empresários mais influentes do futebol mundial.
Dona Socorro, que lhe amamentou até os três anos, acredita que vem daí a força do filho que atropela defensores adversários com uma combinação de força, habilidade e velocidade.
Em Portugal, a fama já é reconhecida de forma impressionante: na eleição mensal em que votam os treinadores lusos, Hulk ganhou nos meses de agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro e também janeiro. Um sinal claro de que o país já está pequeno para ele.