Dinheiro, brasileiros e ousadia explicam sucesso do Shakhtar
- Dassler Marques
Rinat Akhmetov é o homem mais rico da Ucrânia e sabe como seduzir jogadores brasileiros. Seu ritual de iniciação inclui visitas aos lugares mais luxuosos de Donetsk, passeios em limousines e voos com seu jatinho particular em que até as torneiras são banhadas a ouro. Jadson, Fernandinho, Willian, Marcelo Moreno, Eduardo da Silva, Alex Teixeira e Bruno Renan já conhecem esse roteiro muito bem: formam a legião que saiu do futebol do Brasil e carrega o Shakhtar Donetsk, presidido justamente pelo megalomaníaco Akhmetov, até seu maior feito internacional em 75 anos de vida.
Entre os oito finalistas da Liga dos Campeões, o Shakhtar joga em Barcelona contra a equipe de Lionel Messi, nesta quarta-feira, às 15h45 (de Brasília), abrindo o mata-mata que vale vaga na semifinal europeia. Dono da melhor campanha da competição até aqui, o clube ucraniano terá o direito de definir o confronto em seus domínios, onde ostenta uma invencibilidade de 59 jogos - mais de 2 anos e cinco meses.
A grandeza do Shakhtar, que tinha apenas vencido seis copas nacionais até o início da década, é mais recente. Coincide com a chegada de Akhmetov à presidência. "Ganhamos a Copa da Uefa em 2009, mas o presidente é muito ambicioso. Pensa alto e já colocou na nossa cabeça que precisávamos passar de fase. Já fizemos história", acredita Jadson, o brasileiro mais antigo do elenco junto de Fernandinho, em entrevista exclusiva ao Terra.
Abaixo, o Terra lista sete razões para o sucesso do Shakhtar:
1 - Os brasileiros
O primeiro brasileiro do Shakhtar foi Brandão, que desembarcou na Ucrânia em 2002 e abriu as portas para nomes que formaram a primeira geração, como Matuzalém, Leonardo, Elano, Ilsinho, Jadson e Fernandinho - os dois últimos permanecem. Hoje, têm ainda a companhia de Douglas Costa, Luiz Adriano, Alex Teixeira, Bruno Renan (no time B) e os quase brasileiros Eduardo da Silva e Marcelo Moreno.
"O que mais me influenciou para rapidamente ter boa adaptação foi o fato de encontrar muitos compatriotas. É difícil porque saí muito novo, a língua é muito diferente, tem o frio. Mas quando você sai do país, precisa ir atrás do melhor. E foi o que eu fiz", define Douglas Costa, que chegou à Ucrânia em 2010 e rapidamente se tornou titular e um dos destaques da equipe.
Investir em jogadores provenientes do Brasil é desejo pessoal do presidente Akhmetov, mas a direção teve praticamente 100% de aproveitamento nas contratações ao reunir vários brasileiros. Salvo o zagueiro Leonardo, revelado pelo Santos, todos também jogam do meio para a frente. É opção estratégica do clube, que avalia que os jogadores europeus, sobretudo os ucranianos, são mais talhados para atuar na defesa.
2 - A captação aguçada e a mão de ferro nas transferências
Oleksiy Cherednyk é o responsável pelo processo de captação de jogadores sul-americanos para o Shakhtar. Em sua agenda, diz ter mais de 1200 atletas que observa com frequência. Em entrevista ao jornal
Salon Dona i Bosa
, cita nomes como os santistas Danilo, Alex Sandro e Alan Patrick. É um dos nomes que explicam a contratação de tantos reforços brasileiros, mas sempre muito jovens.
É o caso de Douglas Costa, por exemplo, que era monitorado por muito tempo pelo Manchester United, em que chegou a ser apontado pela imprensa inglesa como o sucessor de Cristiano Ronaldo, mas acabou no Shakhtar. Alex Teixeira, ex-Vasco, foi visto de perto no Mundial Sub-20 do Egito, em 2009, e foi comprado no ano seguinte.
Atualmente, além de buscar profissionais ainda muito jovens, o clube busca adolescentes brasileiros para suas categorias de base. William e Ítalo, de 15 anos, saíram do Corinthians de Alagoas para a Ucrânia. "No Brasil, se cultivam jogadores e vendem. É assim que funciona", define Oleksiy.
Com muito dinheiro em caixa, o Shakhtar também se dá ao luxo de praticamente recusar a negociação de seus jogadores. Para ter Chygrynskiy, o Barcelona teve de desembolsar 25 milhões de euros. Empréstimos por brasileiros são quase sempre recusados. "Eles seguram mesmo para negociar os jogadores, às vezes complicam. Existe uma conversa boa, mas se chegar proposta alta tem tudo para dar certo. Quero jogar num centro maior", conta o meia William, ex-Corinthians. Desde 2007 na Ucrânia, costuma ser procurado constantemente por equipes do Brasil.
3 - A infraestrutura
Não foi só o time do Shakhtar que ficou forte na última década. Ao assumir a presidência, o bilionário Akhmetov também deu início à construção da moderníssima Donbass Arena, inaugurada em agosto de 2009. O estádio é um dos únicos dois no Leste Europeu a receber a alcunha de cinco estrelas, oferecida pela Uefa. Já está assegurado na próxima Eurocopa.
Além disso, a infraestrutura do Shakhtar em geral é considerada exemplar na comparação com os times do Leste. "São quatro campos. A gente vive concentrado, parece um hotel cinco estrelas", conta Willian. Douglas Costa concorda com o companheiro: "foi a melhor estrutura que já vi. Te dá todas as possibilidades de se recuperar após o jogo. O estádio é sacanagem, sempre está lotado. E tem uma atmosfera que nunca vi".
Jadson, o mais antigo dos brasileiros, destaca a evolução do clube ucraniano em termos estruturais. "Eu nem conhecia o Shakhtar. Na época em que cheguei, a estrutura não era muito boa e faltava organização. Mas o presidente sempre foi qualificando. Fez o estádio, que é um dos melhores da Europa. Temos o centro de treinamento, tudo em termos médicos e de fisioterapia. Temos tudo. É por isso que tem tudo para ser um grande europeu por muitos anos".
4 - O treinador mágico
Há sete anos no Shakhtar, o treinador romeno Mircea Lucescu é completamente ajustado à filosofia de trabalho do clube. Repete, na Ucrânia, o sucesso que já fez à frente do Galatasaray na Turquia. Adepto do futebol ofensivo, Lucescu é entusiasta da ideia de contratar vários brasileiros, sempre que atuem do meio à frente. E fala até português.
"Ele é tranquilo, cobra bastante do jogador. Está sempre lembrando do que falou", define Willian. Para Douglas Costa, a relação com o treinador foi essencial para que chegasse à Europa tão jovem e se adaptasse rapidamente. "Ele deixa à vontade, dá liberdade. Toca nessa tecla de ajudar a marcar, mas sabe da nossa qualidade. E por falar português, isso é importantíssimo para nós. Tudo o que ele fala, entendemos. Não é fluente, mas ajuda bastante", conta o ex-gremista.
Com sete anos de convivência com Mircea Lucescu, Jadson também é só elogios. "Ele mudou minha realidade de jogo. Antes eu só atacava, e ele me ajudou a ser um jogador europeu. Ele tem os jogadores na mão, todos correm por ele. E com sete brasileiros, foi pegando o português mais fácil".
5 - A força como mandante
Na Donbass Arena, inaugurada em 2009, o Shakhtar nunca perdeu um jogo oficial. Mas sua invencibilidade vai além: desde 22 de outubro de 2008, quando perdeu por 1 a 0 para o Sporting de Portugal, o clube ucraniano não perde em seus domínios. São 59 partidas em sequência sem derrota - sendo ainda 24 vitórias consecutivas. O jogo de número 60 é contra o Barcelona e pode colocar os ucranianos na semifinal europeia.
6 - Os líderes do time
O romeno Razvan Rat e o croata Darijo Srna chegaram em 2003 ao Shakhtar e são os mais experientes da equipe. Srna, o capitão, atua na lateral direita, enquanto Rat joga pela esquerda. Ambos estão totalmente adequados ao estilo de jogo ofensivo da equipe e são líderes de vestiário. Outro nome fundamental é o zagueiro Dmytro Chygrynskiy, profissionalizado em 2004. Vendido ao Barcelona, só ficou uma temporada longe da Ucrânia, e retornou como o vice-capitão.
7 - O presidente bilionário
É o principal personagem do processo que levou o Shakhtar ao atual status no futebol europeu. A chegada de Rinat Akhmetov à presidência coincide totalmente com a ascensão da equipe ucraniana. Ao assumir o clube em 1996, o homem mais rico da Ucrânia mudou o posicionamento da equipe de Donetsk, também sua cidade natal.
Episódios obscuros marcam a chegada de Akhmetov à presidência. A má explicada morte do então mandatário Akhhat Bragin, dentro do próprio estádio do Shakhtar, deu sequência à ascensão do atual presidente. Ambos têm os nomes ligados às organizações criminosas do país. De desconhecido, o clube ucraniano virou uma potência, capaz por exemplo de pagar US$ 19 milhões ao Corinthians, em 2007, pelo meia Willian.
"Ele é o cara mais rico que já vi na vida", define Douglas Costa. "É tranquilo, não tenho tanto contato. Mas ele sempre vai ao treino, vai no vestiário incentivar e vê o lado do jogador. Ele gosta dos jogadores", acredita Willian. "O presidente ama o Shakhtar. É fanático. E cumpre os contratos com os jogadores. Em sete anos, meu salário nunca atrasou", acrescenta Jadson.
Akhmetov é visto como um homem excêntrico e de alguns luxos, como o seu famoso jato que ficou famoso após entrevistas de Ilsinho, ex-Shakhtar. "É tudo banhado a ouro. A gente fica impressionado com algumas coisas assim. Ainda mais um menino de 18 anos saindo do Brasil", conta Douglas Costa. "É muito bom esse avião. Andamos uma vez para viajar até Hamburgo. Tem de tudo que você imaginar", conta Jadson.
A revista Forbes em 2009 estimava a fortuna de Akhmetov em US$ 1,8 bilhões. Apenas um ano depois, o valor atingiu US$ 5,2 bilhões, o que coloca o presidente do Shakhtar entre os 50 homens mais ricos do planeta.