Idrettsglede, 'a alegria do esporte': a filosofia norueguesa de esporte infantil que moldou Haaland
Especialistas divergem sobre caminhos da formação após vitória da Noruega contra o Brasil na Copa do Mundo
Desde 2013, a Noruega forma talentos esportivos pela metodologia da Landslagsskolen (Escola de Seleções Nacionais, em norueguês), que conta com um sistema integrado nacionalmente com o objetivo de identificar, estimular e lapidar os principais atletas do país entre 12 e 16 anos de idade. Além do atacante Erling Haaland, herói da vitória por 2 a 1 que eliminou a seleção brasileira na Copa do Mundo, Martin Ødegaard e Antonio Nusa também fizeram parte do programa durante a adolescência.
Para Finn Aagaard, head de comunicação da Confederação de Esportes e Comitê Olímpico e Paralímpico Norueguês (NIF) — entidade máxima responsável por ditar as regras dos esportes no país europeu —, a vitória norueguesa contra o Brasil não deve ser explicada apenas pela Escola, que possui regras extremamente rígidas para competições infantis: "O sucesso norueguês é o resultado da união de vários elementos: clubes esportivos locais fortes, voluntários dedicados, treinadores qualificados, um alto nível de participação, sistemas de desenvolvimento de talentos de qualidade e ambientes de esporte de elite de classe mundial."
A filosofia por trás desse funcionamento rígido é denominada Idrettsglede, que se traduz como "a alegria do esporte". Aagaard explica ao Estadão, resumidamente, que "a abordagem da Noruega para o esporte infantil baseia-se em um princípio simples: o esporte deve ser, antes de tudo, uma experiência positiva e inclusiva para as crianças." Para tal, as regulamentações federais norueguesas proíbem competições esportivas com rankings públicos para qualquer criança até a idade de 11 anos. A ideia do modelo nórdico é que o bem-estar e o prazer pelo jogo venham em primeiro lugar, para só depois a alta competitividade entrar em campo.
O país coleciona hoje mais de 600 medalhas olímpicas em sua história, consolidando-se como a maior potência de todos os tempos em esportes de inverno, tendo ultrapassado a marca histórica de 440 medalhas apenas em Jogos Olímpicos de Inverno em 2026, superando qualquer outra nação no planeta. "Muitos dos atletas mais bem-sucedidos da Noruega não foram prodígios na infância. Eles se desenvolveram ao longo do tempo em ambientes que os permitiram participar de diferentes atividades, aprender no seu próprio ritmo e desfrutar do esporte sem pressão excessiva", explica Aagard.
Comparativamente, no Brasil, a formação de atletas de futebol nas categorias de base é regulamentada principalmente pela Lei Geral do Esporte, que substituiu a antiga Lei Pelé, e pelas diretrizes da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Até os 14 anos, é terminantemente proibido qualquer tipo de contrato de trabalho ou vínculo empregatício. Clubes que mantêm crianças nessa faixa etária devem fazê-lo estritamente sob o formato de atividades de contraturno escolar, recreação ou iniciação esportiva, sem obrigações profissionais.
Para o Coordenador Geral das Categorias de Base da Sociedade Esportiva Palmeiras, João Paulo Sampaio, a busca por talentos jovens e a necessidade de lapidá-los ainda cedo é cultural no Brasil, mas não necessariamente ruim, uma vez que muitos jovens realmente começam cedo a carreira em grandes ligas: "Foi devido a essa pressão desde os 12 anos. Faz parte, é cultural do País."
Uma diferença palpável entre os dois países é que a CBF e as federações estaduais permitem e organizam campeonatos oficiais com tabelas, placares e rankings a partir das categorias sub-11 e sub-13 (como o Campeonato Paulista Sub-11). "Muitos diretores de bases, principalmente treinadores, estão preocupados com o resultado, então vão buscar esse jogador mais comprometido com o jogo e com o ganhar da vitória, ao invés do jogar (em si). É uma cadeia que vem lá de cima e chega nas escolinhas", explica Sampaio.
Segundo o coordenador do Palmeiras, falta um guia claro institucional: "Os maiores culpados são os clubes, os diretores de base e a CBF por não ter um direcionamento. Principalmente os treinadores que não recebem direcionamento dos comandantes e querem ganhar a todo custo." No entanto, ele acredita que a comparação direta com países europeus esbarra em desigualdades estruturais: "Lá é focado na saúde porque eles têm acesso. A gente não tem acesso aqui quando precisa, imagine através do futebol."
Para a psicologia esportiva, o Brasil já foi o país do futebol
Kátia Abreu, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), afirma que o tema divide opiniões entre os especialistas da área no Brasil. "Existe uma vertente dentro da ciência do esporte que acredita que é possível detectar talentos aplicando testes de inúmeras formas, desde genéticos a psicológicos. Mas há uma outra linha, um pouco mais social, que defende uma questão chamada 'meio' como o grande diferencial", explica.
Para a especialista, a principal diferença cultural entre o modelo brasileiro e o norueguês está no imediatismo. "Na Noruega, há um dispositivo de construção de futuro, e o Haaland já é fruto dessa disposição. Mais do que simplesmente explorar um talento que, nesse momento, ainda está verde, eles preferem esperar que a maturidade aconteça", analisa.
A possibilidade de adotar um modelo parecido no ambiente esportivo do Brasil parece uma realidade culturalmente distante para a docente: "É uma questão cultural e educacional. É preciso rever o esporte no Brasil e, principalmente, a formação de quem forma para o esporte. O Brasil está defasado em relação a algumas escolas mundiais."
Abreu classifica como "mito" o jargão de que o Brasil segue ocupando o posto de país do futebol. "Esta Copa do Mundo, mais do que nunca, está mostrando que o Brasil foi o país do futebol. Os gringos aprenderam muito com a gente, mas hoje eles desenvolvem muito mais estratégias do que o Brasil", alfineta.
O sonho do filho craque
"Se considerarmos todas as crianças que começam e aquelas que conseguem chegar a um contrato internacional, a probabilidade é quase zero", reforça a especialista da USP. Apesar das chances minúsculas, muitas famílias ainda depositam nos ombros dos jovens atletas o fardo com a remota possibilidade do estrelato. "Os treinos, por si só, já são um fardo para essas crianças. Entre o sonho de ser e a realidade de ser existe um abismo imenso."
"Os pais são os reflexos da sociedade. É uma fábrica de ilusões", concorda Sampaio. O coordenador do Palmeiras destaca que apenas de 4% a 5% dos jogadores profissionais ganham bem no Brasil, enquanto a maioria absoluta recebe, no máximo, até dois salários mínimos.
No entanto, ele reforça que o comportamento brasileiro padrão é o de procurar um culpado logo após as derrotas. "A gente sempre vai procurar um culpado, igual agora com a Suíça e o Equador. Nós temos de saber qual é o nosso caminho, e hoje não sabemos. Se não identificarmos isso, a gente não vai passar nem da segunda fase", adverte Sampaio.
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