Ídolos & Épocas traz biografia de craques do passado e destaca personagens da era amadora do futebol
Livro contextualiza o Brasil do início do século 20 sob a ótica da modalidade e resgata histórias peculiares de antigos jogadores
Você sabia que o atacante Preguinho, autor do primeiro gol do Brasil em Copas do Mundo, também se destacava em provas de atletismo e natação pelo Fluminense? E que apesar da campanha ruim da nossa seleção no Mundial de 30, o volante Fausto dos Santos e o goleiro Jaguaré se destacaram a ponto de jogarem no Barcelona da Espanha? Ou ainda que Arthur Friedenreich, o Pelé da fase amadora daqueles tempos, foi um ex-combatente na Revolução Constitucionalista de 1932? A obra Ídolos & Épocas: O amadorismo no futebol brasileiro, do jornalista e pesquisador carioca André Felipe de Lima, esmiuçou e descobriu essas e outras histórias saborosas que fazem parte do DNA do futebol tupiniquim.
A proposta da pesquisa, que teve início há quase 20 anos, resgata um período que pouco se sabe e que muito tem a revelar. "É uma era muito pouco conhecida do torcedor. Uma fase importante onde tudo começou. Ali o espírito do nosso futebol teve o seu despertar. E personagens não faltam: as jogadas maravilhosas de Friedenreich, os gols de Feitiço, a imponência de um Fausto dos Santos, a Maravilha Negra, a versatilidade de um Preguinho", disse o autor.
Para o jornalista, descobrir a história desses ídolos do passado é muito importante. E um dos fatos de relevância citados no livro é a conquista do Sul-Americano de 1919, primeiro título da seleção brasileira. "Ali nasceu a pátria de chuteiras de Nelson Rodrigues e começou a surgir a identidade do futebol com o povo brasileiro", afirmou André Felipe de Lima ao Estadão.
A trajetória destes e de muitos outros ídolos e craques de um passado remoto está registrada no primeiro volume (em formato e-book) da enciclopédia Ídolos & Épocas — O amadorismo no futebol brasileiro (1900 a 1933), de A a F, lançado pela Approach Editora, com o selo Museu da Pelada. Os dois volumes restantes, que contemplam ídolos de "G a O" e de "P a Z", já estão em reta final de edição e, em breve, também serão apresentados ao leitor que ama futebol e história.
"Listei os maiores nomes de clubes de Norte a Sul do País. Desde o Fortaleza até o Internacional de Porto Alegre. Do Oiapoque ao Chuí, há ídolos do futebol em todas as épocas, de 1900 aos nossos dias. Uns, decerto, mais que outros. Mas eles existem ou existiram. Ditam ou ditaram comportamentos culturais", comentou o escritor.
Personagens fadados ao esquecimento têm neste livro a oportunidade de se perpetuar na memória dos amantes do futebol. O goleiro Amado, que defendeu o Flamengo de 1923 a 1934, é um deles. Jogador de estilo imponente e que fazia sucesso com o público feminino, ele tinha o costume de escrever "versinhos assanhados" que eram publicados pelo jornalista Mário Filho no jornal Crítica.
Já o médio-direito Abatte, integrante do Paulistano na célebre excursão que encantou a Europa em 1925, quase teve sua vida abreviada por causa de uma graúda espinha de bacalhau. O incidente aconteceu enquanto ele estava a bordo do navio Zeelandia com destino ao Velho Continente. Uma oportuna pancada nas costas, dada pelo companheiro de time Caetano, livrou Abatte de uma causa-mortis inusitada.
E o que dizer ainda da identificação de Abelardo De Lamare com o Botafogo? Em 1910, o atacante foi suspenso por um ano após se atracar com Gabriel de Carvalho, do América-RJ, ainda no campo de jogo. Em protesto contra a punição, o time alvinegro se retirou do campeonato sob o risco de perder seus atletas para os clubes rivais. A equipe da estrela solitária rompeu com a Liga e fundou a Associação de Futebol do Rio de Janeiro (AFRJ), também conhecida como "Liga Barbante" por ser um torneio com equipes mais fracas tecnicamente.
Com histórias dos mais variados tipos envolvendo os jogadores do início do século passado, André Felipe conta que esse mergulho em tempos remotos é fundamental para entender o que está acontecendo atualmente. "O brasileiro precisa conhecer mais as suas origens e se identificar com o que aconteceu para obter respostas mais precisas para o presente. Estamos perdendo a identidade com o futebol. Não somos mais o país do futebol e nem a pátria de chuteiras. As novas gerações ignoram quem tenha sido um Friedenreich. Isso é um problema que vem se agravando nas últimas três, quatro décadas e se acentuou desde a ditadura militar. É um esvaziamento de identidade no país, em todos os aspectos", comentou o jornalista que tem 52 anos, torce para o Vasco e é morador do bairro da Tijuca.
Para contar a história do futebol brasileiro sob a ótica dos personagens, o escritor dividiu o trabalho em etapas. Após a fase amadora, ele aborda a "Era no ar do futebol", que parte do início do profissionalismo, em 1933, e termina com o "Maracanazzo" em 1950. Em seguida, o recorte vai até a Copa de 1970, o que o autor denomina como a "Era de ouro do futebol brasileiro". O período seguinte corresponde ao tempo que leva até a conquista do tetra e, por fim, de 1994 até os dias atuais.
Pesquisa, dedicação e uma busca incomum para descobrir pessoas ou documentos que pudessem trazer à tona personagens já esquecidos nortearam o trabalho do jornalista nesta obra. "Essa pesquisa exigiu um empenho muito grande, às vezes até virando madrugada. Montei uma biblioteca enorme com muita literatura daqui e de fora, acervos de jornais, contatos com vários clubes também do exterior. Foram muitas entrevistas com parentes de jogadores e outros pesquisadores. Fui enveredando por uma corrente de informação guardada a sete chaves. Dessa maneira pude ter um acesso preciso a esses personagens", afirmou André Felipe.
Uma triste coincidência une a realidade atual ao período retratado nesta obra, que vai entre 1900 e 1933. Em meio à grave crise sanitária atual provocada pelo novo coronavírus, o Brasil também sofreu com a alta letalidade da gripe espanhola entre os anos de 1918 e 1919. E o futebol também teve as suas baixas. "Neste primeiro volume temos o Archibald French, por exemplo. Começou no Bangu, depois foi para o Fluminense e quando a carreira dele ia decolar, veio a gripe espanhola e ele não resistiu."
Mas teve gente que sobreviveu àquela pandemia e teve, inclusive, papel importante no título do Campeonato Sul-Americano de 1919. "O Píndaro de Carvalho foi um dos fundadores do Flamengo e era o zagueiro da seleção brasileira naquele torneio. Um pouco antes da competição, ele estava muito doente e tinha até abandonado a carreira. Mas a pedido da antiga CBD, Píndaro foi convocado e ajudou o Brasil a levantar aquela taça. Infelizmente agora estamos vivenciando a partida de alguns ex-jogadores vítimas da covid-19", conta André Felipe.