Hotel da Seleção é o mesmo onde JK “escutou” o título de 1958
O mesmo saguão de hotel onde a Seleção Brasileira se isolou em Brasília antes de estrear na Copa das Confederações contra o Japão - o prédio recebeu forte policiamento nesta semana, e até as margens do Lago Paranoá ganharam patrulhamento da Marinha - tinha uma atmosfera completamente diferente em 1958. Foi no Brasília Palace Hotel, onde hoje o técnico Luiz Felipe Scolari, o atacante Neymar e os seus companheiros se refugiam de imprensa e torcedores, que o ex-presidente Juscelino Kubitschek comemorou o primeiro título mundial de futebol conquistado pelo Brasil.
Naquele dia 29 de junho, JK, a esposa Sarah e mais de uma dezena de amigos e seguidores se reuniram diante de um rádio para ouvir o Brasil golear a anfitriã Suécia por 5 a 2. O aparelho ficou com uma enorme antena em pé (para captar o melhor sinal possível), sobre uma mesa redonda com pastas, charutos, cigarros e bebidas. O presidente o olhava fixamente, como se assistisse à televisão, enquanto a sua mulher parecia desinteressada, de pernas cruzadas e óculos escuros."Você percebe pelas imagens da época que JK era apaixonado por futebol. Ele ficava pedindo para todo o mundo fazer silêncio, para poder ouvir o jogo", comentou Anna Christina Kubitschek Barbará Alves Pereira, neta do mentor de Brasília e presidente do Memorial JK, museu dedicado a Juscelino (um ilustre torcedor do América-MG) no Distrito Federal. Entre os dias 21 de abril e 21 de agosto deste ano, o local exibe a exposição "JK e o Brasil campeão", justamente sobre o título de 1958.
"É incrível saber que a Seleção veio se hospedar no mesmo hotel onde vovô escutou a Copa. Impressionante! A própria Seleção precisa saber que o hotel também é pé-quente!", disse, citando um apelido atribuído ao seu avô. A conversa com a Gazeta Esportiva até inspirou Anna Christina. "Vou fazer o seguinte: pegarei os folders da exposição que estamos promovendo e colocarei debaixo dos travesseiros dos jogadores do Brasil que estão aqui. Vou fazer isso agora!", prometeu.
A presidente do Memorial JK tem poder para cumprir a sua ideia. Ela é casada com Paulo Octávio Alves Pereira, ex-governador de Brasília, que comprou o Brasília Palace Hotel para reconstruí-lo ao custo de R$ 24 milhões a partir de 1997. Inaugurado pela primeira vez no final da década de 1950, concomitantemente ao Palácio do Planalto, o lugar projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer (que participou da revitalização) ficou quase 20 anos abandonado depois de ser vítima de um incêndio, em 1978. "Só havia ficado o esqueleto do prédio. Um pecado. O Paulo Octávio refez tudo", contou Anna Christina.A revitalização foi um marco. Muito ates de receber Neymar, o Brasília Palace Hotel já tinha servido de abrigo para as primeiras autoridades que conheceram Brasília e para figuras históricas como a rainha Elizabeth, Mahatma Ghandi, Che Guevara, Fidel Castro, o ex-presidente norte-americano Dwight Eisenhower e o papa Paulo VI. A ligação com Juscelino Kubitschek, no entanto, deverá ter um registro com maior destaque com a afixação de um quadro no saguão. "Estão querendo levar para lá a foto do meu avô ouvindo a final de 1958, mas estou resistente. Devo acabar cedendo", brincou a neta de JK.
Por enquanto, Anna Christina levou outros papéis para o Brasília Palace Hotel. Ao final desta entrevista, a presidente do Memorial JK recebeu o seguinte recado do gerente do local: "Pode mandar imprimir uns 500 folders, que vou espalhar por todos os quartos da nossa rede!".