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"Ideia de que jogador é meio ogro é injusta", diz repórter

6 jul 2017 - 11h41
(atualizado às 11h51)
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Primeira mulher a se tornar setorista de clube na Rádio Globo do Rio, Camila Carelli, 28 anos, supera com facilidade algumas barreiras que anos atrás seriam intransponíveis para as jornalistas que quisessem se aventurar no mundo do futebol. Hoje acompanhando o dia a dia do Vasco, ela já cobriu Fluminense e Flamengo e, em sete anos de profissão, jamais sofreu algum constrangimento na relação com jogadores, técnicos e dirigentes de futebol.

Para um País que até o início dos anos 60 obrigava a mulher casada a obter autorização do marido para poder trabalhar e que ainda sofre distorções em razão de gênero, com desigualdade de oportunidades em muitas atividades, a trajetória de Camila talvez expresse uma nova fase num universo, o do futebol, muitas vezes marcado pelo excesso de virilidade.

Camila é a primeira mulher setorista (que acompanha exclusivamente um time de futebol) da Rádio Globo do Rio
Camila é a primeira mulher setorista (que acompanha exclusivamente um time de futebol) da Rádio Globo do Rio
Foto: Arquivo pessoal/Camila Carelli

“Essa visão, essa ideia de o jogador ser meio ogro pode ser injusta. Sinto que a maioria deles tenta ser gentil, ninguém me trata com grosseria. Até mesmo quando um deles, de cabeça quente, se recusa a dar entrevista na saída do campo, mesmo diante da minha insistência.”

Nesta entrevista ao Terra, num dos intervalos de seu horário de trabalho, Camila relatou, porém, que ainda nota pequenas manifestações de preconceito – questionando a presença feminina no entorno do esporte mais popular do planeta. Surpreendentemente, esses sinais partem de outros jornalistas.

“Eu me incomodo um pouco quando inicio uma cobertura como setorista de clube e sou bombardeada com perguntas e comentários do tipo: ‘está cobrindo folga de alguém’? ‘você gosta de futebol’? ‘é estagiária na Rádio’?, ‘não tinha ninguém lá na redação pra vir’? Em situações assim, eu repito pra mim mesma: ‘será que não estão vendo que me preparei para estar aqui, que tenho condições, que sou profissional como eles, que não caí de paraquedas’? Com a sequência dos dias, e o contato mais próximo, isso fica mais tranquilo.”

Camila diz que ainda vê manifestações machistas no meio do futebol vindo de colegas de profissão. "Você está cobrindo folga de alguém?" é uma das frases que já escutou no dia a dia do jornalismo esportivo
Camila diz que ainda vê manifestações machistas no meio do futebol vindo de colegas de profissão. "Você está cobrindo folga de alguém?" é uma das frases que já escutou no dia a dia do jornalismo esportivo
Foto: Arquivo pessoal/Camila Carelli

Nascida na zona norte do Rio, solteira e muito querida pelos jornalistas esportivos, Camila conta com um sem-fim de fãs entre os ouvintes e tem um antídoto para não escutar bobagens que as arquibancadas produzem em quantidade nos dias de jogos. Em campo, próxima a uma das balizas para detalhar lances mais agudos da partida, ela não abre mão do fone de ouvido, mesmo quando a transmissão nem começou.

“Às vezes, ouço uns gritos, uns torcedores me chamando. Fico na minha. Mas se insistirem muito, dou uma olhada para trás pra ver se a pessoa sossega.”

Durante sua jornada diária, a repórter Camila Carelli entrevista figuras conhecidas no futebol brasileiro, como o presidente do Flamengo, Bandeira de Mello
Durante sua jornada diária, a repórter Camila Carelli entrevista figuras conhecidas no futebol brasileiro, como o presidente do Flamengo, Bandeira de Mello
Foto: Arquivo pessoal/Camila Carelli

A carreira como repórter de esportes consolida um sonho já alimentado desde que Camila era estudante secundarista. Não perdia uma edição do Globo Esporte, na hora do almoço, e se imaginava um dia no papel de apresentadora do programa da TV Globo. Admiradora de Fátima Bernardes, teve e tem como referência dois ícones do jornalismo esportivo – Luiz Mendes, que morreu em 2011, e Léo Batista.

Ainda que satisfeita e motivada pela função que desempenha, Camila Carelli não esconde um de seus objetivos na profissão – gostaria de ser comentarista. De certo modo, já vive essa experiência no programa ‘Convocadas’, criado recentemente pela sua emissora, no Rio. Durante uma hora, todas às terças, das 22h às 23h, ele divide uma bancada com outras quatro colegas para discutir temas relacionados ao futebol e ao esporte, em geral.

Camila tem como objetivo na carreira jornalística se tornar uma comentarista
Camila tem como objetivo na carreira jornalística se tornar uma comentarista
Foto: Arquivo pessoal/Camila Carelli

“A Fernanda Gentil é a apresentadora e o grupo é formado ainda pela Vanessa Riche, Mayra Siqueira e Ana Thais Matos. A produção, as pautas, o que vai ao ar; tudo ali é com a gente. Estou curtindo muito fazer isso.”

Com o passar dos anos, Camila vai aperfeiçoando algumas habilidades que evitam desgastes inúteis. Quando, por exemplo, está perto de um lance no qual viu uma infração (uma falta, um pênalti) e o comentarista, da cabine ou do estúdio, diz que não houve nada, ela mantém a disposição de passar a informação correta, ou que se aproxime disso. Mas, com a delicadeza que a situação exige.

“Digo mais ou menos assim: ‘é um lance polêmico, duvidoso, daqui de onde estou, eu tive a impressão de que o jogador tal foi derrubado’. Não vou bater de frente, com intransigência. Por uma questão de educação e também porque eu não tenho diante de mim o recurso do replay.”

Além do futebol, Camila acompanha competições de outras modalidades no Rio de Janeiro, como o basquete
Além do futebol, Camila acompanha competições de outras modalidades no Rio de Janeiro, como o basquete
Foto: Arquivo pessoal/Camila Carelli

Esse fair-play, que mistura prudência e elegância, já lhe rendeu elogios de todos os lados durante um incidente com o técnico Levir Culpi, então no Fluminense. Ele não gostou de uma pergunta de Camila, numa entrevista coletiva, e a retrucou com rispidez. Disse que a indagação da repórter era ridícula. Ela, porém, não acusou o golpe. Manteve-se calma e o rebateu com argumentos, sem levantar a voz.

Dias depois, o Fluminense se desculpou com Camila e a homenageou com a entrega de uma camisa do clube. “Ali não foi um mimo à Camilinha, fofinha e queridinha e sim um reconhecimento profissional. É esse o espaço que a gente quer – o de ser valorizada como jornalista, pelas matérias que produzimos, pelas perguntas, pelos furos de reportagem.”

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Fonte: Especial para Terra
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