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Copa do Mundo

Zagueiro americano supera perda parcial da visão por Copa

3 mai 2010 - 20h06
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Jere Longman

Jay DeMerit estava sentado no consultório de seu oftalmologista enquanto uma máquina mapeava a topografia de sua córnea direita, a superfície cônica que recobre a íris e a pupila e ajuda a dar foco à vista. Uma imagem digital impressa se assemelhava a um mapa meteorológico, com vórtices amarelos e verdes, e traços tênues de vermelho.

"Meu radar Doppler pessoal", brincou DeMerit, zagueiro central da seleção de futebol dos Estados Unidos, com uma risada.

Na metade de setembro, surgiu uma infecção bacteriana no olho direito de DeMerit, como uma tempestade repentina. Passadas 24 horas, 70% do tecido da córnea havia essencialmente derretido. Ele mal conseguia ver os dedos diante de seu rosto. Estava preocupado com a possibilidade de não jogar a Copa do Mundo. Ou talvez se ver forçado a abandonar o futebol.

"Eu estava surtando", diz DeMerit, capitão do Watford, uma equipe de segunda divisão no futebol da Inglaterra. "Percebi que não poderia jogar sem resolver esses problema. Não há como jogar com um olho só".

Felizmente para ele, DeMerit é um atleta profissional do esporte mais popular da Inglaterra, e não demorou a encontrar tratamento em um dos principais hospitais oftalmológicos do mundo, em Londres: ele recebeu um transplante de córnea em outubro, em operação realizada por um cirurgião renomado e com a mais avançada tecnologia de laser.

"Sei que tenho muita sorte", disse DeMerit, 30 anos, na quinta-feira. "Se minha profissão fosse outra, eu jamais teria podido consultar aquele médico".

"Um transplante mais convencional de córnea poderia tê-lo mantido afastado dos gramados por entre 18 e 30 meses", disse o Dr. Julian Stevens, responsável pela cirurgia. Mesmo uma cirurgia a laser convencional poderia tê-lo afastado por quatro a seis meses, o que não lhe daria tempo suficiente para se condicionar para a Copa do Mundo. Mas em lugar disso DeMerit pôde voltar a jogar em apenas um mês e meio.

"A posição de Jay é a de que existem dois tipos de sujeito - os astronautas e os astrônomos que os observam", diz Stevens. "Ele prefere ser astronauta. Quer jogar a Copa do Mundo, e não assisti-la com um olho só".

Mesmo assim, o jogador esteve bem perto de ficar fora da competição, diz o médico.

DeMerit espera ocupar sua posição no centro da zaga americana quando o time dos Estados Unidos fizerem sua partida de abertura na Copa do Mundo da África do Sul, diante da Inglaterra, em 12 de junho, e quer curar uma lesão de músculo abdominal antes mesmo da data de apresentação da seleção americana, em 15 de maio.

"Foi uma coincidência", diz Stevens. "A tecnologia estava disponível. Estar presente no momento oportuno é tudo em uma situação como essa".

Em 14 de setembro de 2009, tudo parecia estar acontecendo no momento errado para DeMerit. Em uma viagem de ônibus do Watford para uma partida em Plymouth, ele sentiu o olho direito irritado. Sua primeira impressão foi a de que um grão de poeira estava alojado sob sua lente de contato. Na manhã seguinte, o olho estava inchado e vermelho.

DeMerit foi ao médico e recebeu um colírio antibiótico, mas não pôde jogar em 15 de setembro. Ficou no banco devido ao desconforto. Quando a partida terminou, ele mal conseguia enxergar devido aos refletores do estádio, e tinha de proteger os olhos com as mãos. Quando o time voltou a Londres, ele ficou na casa de um colega em Plymouth. Seu olho estava completamente fechado e lacrimejava, e ele não conseguia dirigir.

"A dor era muito forte, como se alguém estivesse apertando meu olho com um dedo", diz DeMerit.

Na manhã seguinte, sua pupila estava coberta por uma nódoa branca. "Parecia que eu havia sido mordido por um zumbi", ele diz. A cor de sua íris havia até mudado, de azul para um tom esverdeado.

Ele ficou preocupado e consultou um segundo médico, que diagnosticou a infecção bacteriana. DeMerit foi instruído a pingar um colírio antibiótico a cada hora, pelas próximas 48 a 72 horas. Ele diz que passou três dias sem dormir. Sua visão estava reduzida a 20%, no olho direito. O olho parecia morto, ele conta, como se recoberto de vidro fosco.

Uma semana depois, ele foi encaminhado a Stevens, no Moorfields Eye Hospital, um renomado centro oftalmológico. O problema na córnea havia sido causado por uma variante da bactéria Pseudomonas, que "basicamente se alimenta de carne", diz Stevens. Mesmo ao morrer, ela explode e libera enzimas que dissolvem os tecidos.

"Não há como recuperar o tecido perdido", disse o médico. "Só se pode substitui-lo".

O North Carolina Eye Bank encontrou uma córnea adequada, e ela foi transplantada para DeMerit em 19 de outubro. Bob Bradley, técnico da seleção americana de futebol, disse que inicialmente estava preocupado, "porque isso não é algo que tenhamos de enfrentar de maneira regular".

Um implante tradicional, ou transplante pleno de córnea, provavelmente teria impedido que DeMerit voltasse ao futebol, diz Stevens. "O método causa uma fraqueza permanente; basta que alguma coisa roce o olho para provocar desastre", disse.

Mas o oftalmologista optou por um método menos invasivo, conhecido como transplante lamelar. É uma cirurgia de extrema precisão, porque DeMerit precisava recuperar com grande rapidez acuidade visual suficiente para voltar ao futebol. A incisão tinha a profundidade de apenas 70 mícrons, ou o equivalente à espessura de oito células.

"Não se pode ir mais fundo que isso, ou a córnea seria perfurada", diz Stevens, "Se perfurada em qualquer ponto, isso daria fim à carreira de Jay nos gramados. Ele precisaria de um implante pleno, nesse caso".

O implante tem a forma de uma cartola, encaixada como uma trava estrutural de madeira, para reduzir os riscos de deslocamento. O médico fixou o implante no local com pontos cirúrgicos que traçavam um padrão de estrela em torno da córnea de DeMerit.

Em novembro, para corrigir a miopia de seu olho esquerdo, que não foi afetado, DeMerit passou por uma cirurgia Lasek, que aplica energia laser diretamente à superfície do olho, em lugar de recortar uma fina fatia, como na cirurgia Lasik. No futuro, ele passará por intervenção semelhante no olho direito.

Enquanto se recuperava, DeMerit realizava exercícios para recondicionar sua visão, apanhando uma bola de borracha arremessada contra a parede e jogando videogames, às vezes com seu olho bom recoberto. Ele voltou a jogar pelo Watford em 5 de dezembro, e no começo protegia o olho ao saltar para as cabeçadas. Mas logo retomou seu habitual estilo destemido na zaga.

A visão de seu olho direito tem 80% da precisão que ele tinha anteriormente. Mesmo assim, ele precisa compensar por uma ligeira distorção na percepção de profundidade ¿ um fenômeno de sinalização de retina conhecido como efeito Pulfrich -, mais perceptível nos jogos noturnos e em dias de neve. "Se recebo um passe a 15 metros de distância, não percebo o lance tão bem como no passado", diz DeMerit. "Mas posso fazer meu trabalho com 100% de eficiência? Sim".

Os pontos já foram removidos, e, na semana passada, Stevens usou um bisturi de diamante para realizar uma pequena incisão que reduz ainda mais o astigmatismo do olho lesionado. A visão de DeMerit deve em breve melhorar para 90%, disse Stevens, e brincou que podia estar se colocando em uma enrascada.

"Se Jay tirar a Inglaterra da Copa do Mundo, provavelmente vou ter de viver na clandestinidade", disse.

Tradução de Paulo Migliacci

Jay DeMerit se recupera de um problema no olho e espera disputar a Copa de 2010
Jay DeMerit se recupera de um problema no olho e espera disputar a Copa de 2010
Foto: The New York Times
The New York Times
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