EUA podem perder a Copa do Mundo e a Olimpíada após ataques ao Irã? Entenda
Especialistas explicam possíveis consequências esportivas ao governo Trump após nova ação no Oriente Médio
A ação militar organizada pelos Estados Unidos, com apoio de Israel, e que resultou na morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, no último sábado, 28, voltou a levantar dúvidas sobre o futuro do país norte-americano como sede dos maiores eventos esportivos do planeta, como a Copa do Mundo de 2026 e os Jogos Olímpicos de 2028.
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O assunto veio à tona pela primeira vez ainda no início de janeiro passado, após a operação militar norte-americana na Venezuela, que terminou com a prisão de Nicolas Maduro. À época, especialistas ouvidos pelo Terra apontaram que a operação deveria resultar em poucas ou até mesmo nenhuma consequência ao governo Trump, especialmente no que diz respeito ao Mundial da Fifa e à Olimpíada.
É importante frisar que a Carta das Nações Unidas proíbe, por exemplo, ações armadas contra a integridade territorial ou a independência política de outro Estado.
Neste contexto de conflitos internacionais armados, se destaca o caso da Rússia que, após a invasão ao território da Ucrânia em fevereiro de 2022, acabou suspensa de grandes competições esportivas: nos Jogos de Paris, em 2024, os russos puderam competir apenas como Atletas Neutros Independentes (ANI) após uma triagem rigorosa, e sem o uso de bandeiras e do hino.
Outra semelhança entre a guerra entre Rússia e Ucrânia e a operação no Irã é a quebra da Trégua Olímpica: em 2022, o Comitê Olímpico Internacional (COI) recomendou a suspensão da delegação russa à federações, o que foi acatado, tendo a invasão ao território ucraniano e o rompimento da trégua como justificativa.
Desta vez, com o rompimento da trégua entre os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno, o COI não se manifestou sobre a atuação militar dos EUA no Oriente Médio.
Com origem na Grécia Antiga, a Trégua Olímpica foi atualizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e prevê um período de cessar-fogo de 52 dias, que começa uma semana antes dos Jogos Olímpicos e se encerra uma semana após os Jogos Paralímpicos. Em 2024, por ocasião dos Jogos de Paris, Israel também foi acusado de romper a trégua por ataques contra a Faixa de Gaza.
Especialistas avaliam possíveis consequências a Trump por ações militares
Segundo Maristela Basso, advogada e professora de Direito Internacional da Universidade de São Paulo (USP), o contexto da invasão da Ucrânia e a diferença não só entre o poderio militar, mas também econômico e estratégico entre Rússia e Estados Unidos deve ser suficiente para inibir possíveis consequências esportivas ao país governado por Trump.
"Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, houve uma unanimidade não só por parte dos chefes de Estado, mas também da comunidade internacional, no sentido de que a Rússia havia ferido princípios importantes do Direito Internacional, anexando territórios e matando pessoas", explica Maristela.
A especialista também questiona qual país ou entidade seria responsável por levantar possíveis punições contra os Estados Unidos que, por sua vez, não integram o Tribunal Penal Internacional. "Que país faria denúncia? De fato, os EUA violaram princípios do Direito Internacional, não respeitou território estrangeiro, se incluíram nos assuntos internos. Mas responderão perante a quem? Dessa forma, parece que o Direito Internacional perde efetividade", pondera.
Para Vera Kanas, advogada e especialista em comércio internacional, as punições no âmbito esportivo, como as aplicadas à Rússia em 2022, são medidas que os países impõem contra aqueles que 'não se comportam como gostariam que se comportassem'.
"As sanções à Rússia não são normas internacionais, são normas americanas e europeias. No final das contas, elas são impostas contra os países aos quais é possível se impor. Os EUA são muito mais poderosos do que a Rússia, que tem um poder militar muito grande, mas econômico muito pequeno. Dificilmente os países vão se insurgir contra os Estados Unidos", compara.
Vera aponta, também, o papel dos EUA como um dos principais financiadores das organizações mundiais, como as Nações Unidas, como impeditivo a uma possível reação da comunidade internacional.
"Além disso, os EUA são membros permanentes do Conselho de Segurança e têm poder de veto. Então, se há alguma sanção que outros queiram impor de forma colegiada, eles têm esse poder vetar, proibir que se coloque. E mesmo as organizações esportivas dificilmente vão impedir os EUA de participar por essa questão do poder econômico", argumenta a advogada.
"Claro que tudo pode acontecer amanhã ou depois, mas não vejo acontecendo uma sanção da Fifa, uma proibição em qualquer torneio. Alguma ação mais localizada talvez, mas eu não vejo, nesses eventos mais globais, nenhuma sanção sendo imposta contra os Estados Unidos", detalha.
Junto ao Canadá e ao México, os Estados Unidos sediarão a Copa do Mundo de 2026 com a participação recorde de países: 48. Na cerimônia que decidiu o sorteio do Mundial, Trump chegou a ser homenageado com o Prêmio da Paz da Fifa e foi elogiado por Gianni Infantino, presidente da entidade máxima do futebol.
"Nós queremos viver em um espaço seguro, por isso que nós estamos aqui. Você definitivamente merece o primeiro Prêmio de Paz da Fifa pelo que você conseguiu atingir, da sua forma", disse o italiano.

