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'Estamos aqui por causa dele, Tjale': conheça a história do corredor que desafiou o apartheid

Como a maratona de Comrades se tornou a corrida que é hoje e está ligada à vida de outros corredores negros

7 set 2022 - 10h11
(atualizado às 12h42)
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Em uma amena manhã de domingo no final de agosto, Kgadimonyane Hoseah Tjale estava dentro de um estádio cheio de torcedores, na linha de chegada da ultramaratona Comrades, segurando uma buzina. Ele já estivera ali antes. Na década de 1980 e início de 1990, Tjale acumulou quatro pódios na Comrades, uma corrida de 90 quilômetros entre as cidades sul-africanas de Pietermaritzburg e Durban. Hoje é a maior ultramaratona do mundo, atraindo até 20 mil corredores, multidões de espectadores e milhões de telespectadores ao vivo.

A história de como a Comrades se tornou a corrida que é hoje está ligada à vida de Tjale e de outros corredores negros de sua geração. Nos últimos dias do regime do Apartheid da África do Sul, eles ajudaram a transformar um evento amador em uma corrida enorme que se parece muito com o país ao seu redor. Eles fizeram isso dentro de uma das sociedades mais desiguais do mundo moderno.

De volta à corrida pela primeira vez em 29 anos, Tjale ficou maravilhado quando os primeiros colocados passaram correndo por ele. Em seus dias, quase todos os melhores corredores eram brancos. Agora, todos os principais atletas eram negros, vestindo as camisas de grandes clubes corporativos de corrida que pagavam para que eles participassem de programas de treinamento. O vencedor da corrida masculina de 2022, um segurança universitário chamado Tete Dijana, ganhou cerca de US$ 42.000 em prêmios, equivalente a cerca de uma década de seu salário.

Kgadimonyane Hoseah Tjale conquistou quatro pódios na maratona anual de Comrades, entre 1980 e 1990. Foto: Rogan Ward/The New York Times

"Não tinha nada disso na nossa época", disse Tjale, motorista aposentado que morava em um barraco ao norte de Joannesburgo quando fez sua última Comrades em 1993, quando a corrida não oferecia prêmio em dinheiro.

Tjale havia sido convidado pelos organizadores da Comrades para tocar uma buzina marcando o ponto de corte para uma medalha especial, dada aos corredores que terminassem o trajeto em menos de seis horas. Dois dias antes, no carro que fora buscá-lo no aeroporto, Tjale perguntou por que o haviam convidado. Afinal, ele nunca ganhou a corrida.

Mas, para os corredores da Comrades, a razão era óbvia. "Estamos aqui por causa dele", disse Freddie Wilson, corredor de Joannesburgo, enquanto esperava para tirar uma foto com Tjale. Sua voz tremia de emoção.

Assim como muitos sul-africanos negros, Wilson cresceu assistindo Tjale na TV. Sua família não tinha televisão, mas no Domingo da Comrades eles se aglomeravam com outras pessoas do bairro na sala de uma família que tinha e passavam o dia inteiro assistindo à corrida.

Usando chapéu de pescador e correndo com uma marcha peculiar e meio torta, Tjale era uma revelação no pelotão da frente. Em um país cujo governo fora construído propositadamente para sufocar as ambições dos negros, ali estava um negro fazendo algo audaciosamente ambicioso, para o país inteiro ver. "Ele foi o nosso grande", disse Sello Mokone, que correu a Comrades dezoito vezes. "No momento em que vimos um negro fazendo isso, soubemos que poderíamos fazer também".

No seu auge, Tjale conseguia correr 90 quilômetros a um ritmo de pouco menos de 4 minutos por quilômetro. Ele acumulou dezenas de vitórias em ultramaratonas, incluindo na outra corrida famosa da África do Sul, a Two Oceans, de 56 quilômetros. Por duas vezes, ele quase derrotou o herói do povo branco na Comrades, um loiro de cabelos soltos chamado Bruce Fordyce, que venceu a corrida nove vezes entre 1981 e 1990.

Mas enquanto Fordyce se concentrava em tempo integral na Comrades, vivendo do dinheiro de palestras e patrocínios corporativos, Tjale trabalhava como motorista e corria os 24 quilômetros do albergue lotado onde morava até o trabalho. Nos fins de semana, ele corria todas as corridas locais que encontrava, de 10 quilômetros a 100 quilômetros, em troca de prêmios em dinheiro para complementar a renda. "Ele teve sorte", disse Tjale sobre sua rivalidade.

Tjale cresceu na década de 1960 em uma área rural perto da cidade de Polokwane, anteriormente conhecida como Pietersburg. Ele abandonou a escola na oitava série. Alguns anos depois, mudou-se para Joannesburgo para trabalhar como jardineiro na casa de uma família branca. Cortava cercas vivas durante o dia e lavava a louça da família depois do jantar. Sempre que dava, saía para correr.

No final da década de 1970, sua corrida chamou a atenção de seu empregador, que o ajudou a comprar um par de tênis e ingressar em um clube de corrida. Ele começou a entrar em corridas - e a ganhá-las.

Foi um momento auspicioso para começar a correr longas distâncias. Na época, a África do Sul estava sujeita a boicotes esportivos internacionais generalizados, que mantinham o país fora da maioria dos grandes eventos. A nação estava desesperada para voltar e, em meados da década de 1970, o governo do Apartheid anunciou que reverteria a segregação em um esporte menor, a corrida.

Em meio a um boom global, as inscrições em corridas como a Comrades começaram a aumentar. E a única estação de TV estatal da África do Sul começou a transmitir a Comrades ao vivo no início dos anos 1980. Milhões assistiam a corredores negros como Tjale e competidores brancos como Fordyce compartilhando garrafas de água e jogando os braços uns sobre os outros na linha de chegada. "Na Comrades, todo mundo precisava de ajuda em algum momento, e as pessoas sempre davam", disse Poobie Naidoo, outro corredor de elite da década de 1980, que é de origem indiana.

Mas, no momento em que corredores como Tjale e Naidoo saíam da pista, eles retornavam à realidade do apartheid. Em 1979, não muito depois de suas primeiras Comrades, Tjale foi preso a caminho do trabalho por não portar documentos que comprovassem que ele tinha permissão para estar em uma parte branca da cidade. Passou uma noite na cadeia. "A pista era o único lugar em que às vezes eu sentia que o Apartheid não existia", disse Tjale.

Em 1989, Tjale e Fordyce participaram de um campeonato mundial de 100 quilômetros. Por causa do calendário, Fordyce ficou de fora da Comrades e Tjale correu com as pernas cansadas. Outro corredor, Sam Tshabalala, tornou-se o primeiro campeão negro da corrida. Tjale correu sua últimá Comrades em 1993, terminando discretamente em 51º.

Em 2016, Tjale, homem reservado e de riso fácil, aposentou-se em uma fazenda de 8 hectares que ele comprou perto de Polokwane. Foi uma das primeiras vezes desde que ele se casara na década de 1970 que ele e sua esposa puderam viver juntos, passando noites tranquilas no sofá contando piadas e assistindo novelas.

Tete Dijana vence a maratona de Comrades em 2022. Foto: Rogan Ward/The New York Times

Ele não pensava muito mais na Comrades, além de recusar convites ocasionais para eventos que a corrida sediava. "Para mim, tinha acabado", disse ele. Mas, este ano, um membro do conselho da Associação Comrades chamado Isaac Ngwenya ligou com um apelo. Tjale poderia vir para ser homenageado? Ele concordou e no fim de semana passado embarcou em um avião para Durban.

Tjale chegou à linha de chegada no Estádio Moses Mabhida de Durban para tocar a buzina das seis horas. Esperando em uma sala VIP, encontrou Jetman Msuthu-Siyephu, vencedor da corrida de 1992. Eles passaram a manhã trocando recordações.

Enquanto o dia avançava, os dois viram corredores salpicados de sal chegarem aos milhares, dissolvendo-se em alegria e exaustão e tropeçando na linha de chegada. Tjale não conseguia parar de sorrir. "Quando partirmos", disse ele a Msuthu-Siyephu, "teremos deixado algo para este mundo". Este artigo foi originalmente publicado no The New York Times. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Estadão
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