"E se elas ganharem e eu não?": a dúvida de Hortência que quase a deixou sem medalha olímpica
Hortência Marcari revelou que uma conversa decisiva a fez retornar às quadras cinco meses após ser mãe e conquistar a primeira medalha olímpica do basquete feminino do Brasil.
Cinco meses. Esse foi o tempo entre o nascimento de João Victor Oliva, em 2 de fevereiro de 1996, e a final olímpica de Atlanta que rendeu ao Brasil a primeira medalha no basquete feminino. Hortência Marcari, a Rainha do Basquete, esteve nos dois momentos e revelou, em entrevista ao quadro "Abre Aspas", do ge, que uma conversa com seu padrinho de casamento foi determinante para que ela não ficasse em casa.
O padrinho em questão era Pelé. Hortência, que já havia encerrado a carreira antes de engravidar, vivia uma dúvida que definiria sua história no esporte. Com um recém-nascido nos braços e o time da seleção "bem pronto", a Rainha hesitou. Então buscou o Rei.
— Eu comecei a pensar: não tenho medalha olímpica, o time está bem pronto. Já sou mãe. E se elas ganharem uma medalha e eu não? Não vou me perdoar. Quero estar lá. O Pelé foi meu padrinho de casamento. Eu o encontrei na época, falei sobre a minha dúvida, e ele disse: vai, menina. Vai lá, vai ser feliz. Ele me ajudou muito a tomar a decisão.
A decisão tomada abriu caminho para uma das histórias mais marcantes do esporte olímpico brasileiro. Hortência embarcou para os Estados Unidos levando o filho João Victor consigo. O ex-marido, José Victor Oliva, ficou no hotel com o bebê enquanto ela permanecia na Vila Olímpica, focada na competição.
'Hoje, talvez, eu seria cancelada'
A volta aos treinos com um bebê de apenas um mês de vida rendeu críticas que, segundo Hortência, hoje seriam ainda mais duras. Ela tirou o filho do peito precocemente para conseguir treinar e admite que o julgamento das redes sociais teria outro peso nos dias atuais.
— Nunca tive culpa. Hoje, talvez, eu seria cancelada, porque tirei o João Victor do peito com um mês de vida. Não podia treinar com o peito cheio de leite. É tomar a decisão e olhar para frente, não para trás. Não pode se preocupar com o que os outros vão falar, porque é a sua vida. O meu medo era não conseguir jogar direito. Não fiquei 100% em forma, cheguei a uns 80%. Mas eu estava lá e ajudei minha equipe a ganhar uma medalha.
O resultado chegou em julho de 1996: prata olímpica, inédita para o basquete feminino do Brasil. Para Hortência, foi a mais difícil das três medalhas que classifica em sua carreira, ao lado do ouro pan-americano em Havana 1991, o mais emocionante, e do título mundial em 1994 na Austrália, o mais importante. A de Atlanta, disse ela, foi "muito dolorida e desgastante".
A amizade com Pelé e o relógio de Senna
A proximidade com o Rei do Futebol não era de hoje. Hortência e Pelé se conheceram no clube privado "Gallery", do então marido da atleta, frequentado por figuras como Ayrton Senna e Hebe Camargo. As famílias chegaram a dividir fins de semana na praia, com os filhos brincando juntos.
Naquele mesmo círculo surgiu outro encontro marcante. Numa jantar, Hortência comentou que havia procurado, sem sucesso, um relógio de edição limitada que estava no pulso de Senna. O piloto arrancou o relógio e o entregou na hora. Hortência guardou a peça por mais de 30 anos e nunca a usou.
— Eu disse: não, está louco? Não quero. Ele falou que tinha outro e me deu. Guardo esse relógio há 30 e poucos anos. Nunca usei. O meu filho Antônio é doido para usar, e eu só deixei uma vez. Tenho muito medo que alguém roube.
O retorno olímpico de Hortência, selado pelo incentivo de Pelé e coroado com prata em Atlanta, encerrou um ciclo que ela própria definiu como o mais difícil da carreira. Depois dos Jogos, engravidou do segundo filho, Antônio, e se afastou definitivamente das quadras, desta vez, sem dúvidas e sem precisar consultar ninguém.
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