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Áudios sugerem "encomenda" de operador para aliado de Andrés

Gravações com André Negão indicam entregas de dinheiro que seriam para o caixa 2 de campanha política como contrapartida do estádio

10 mai 2019
04h41
atualizado às 07h46
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Gravações telefônicas entregues à Polícia Federal (PF) por um doleiro colaborador da Operação Lava Jato registram o diretor administrativo do Corinthians, André Luiz de Oliveira, conversando com um operador sobre o que seriam duas entregas de dinheiro da Odebrecht em seu apartamento no Tatuapé, zona leste de São Paulo, em 2014.

André Negão, como é conhecido, foi apontado por delatores da empreiteira como intermediário dos repasses de R$ 3 milhões de caixa 2 destinados ao ex-deputado federal pelo PT e presidente corintiano Andrés Sanchez, identificado na planilha da Odebrecht pelo codinome "Timão". Andrés foi eleito deputado em outubro daquele ano.

Presidente Andrés Sanches do Corinthians, durante treino no CT Joaquim Grava, Zona Leste da Capital (25/03/2019)
Presidente Andrés Sanches do Corinthians, durante treino no CT Joaquim Grava, Zona Leste da Capital (25/03/2019)
Foto: RODRIGO GAZZANEL/AGÊNCIA O DIA / Estadão Conteúdo

Ambos são investigados em um inquérito que tramita sob segredo de Justiça no Tribunal Regional Federal da 3.ª Região (TRF-3). Arquivos da empreiteira apreendidos pela PF mostram que os supostos pagamentos a Andrés foram providenciados por Antonio Roberto Gavioli, que foi diretor de contrato na Odebrecht Infraestrutura, vinculada à obra da Arena Corinthians.

O documento atrelava os pagamentos ilícitos à construção do estádio corintiano, erguido pela Odebrecht ao custo de R$ 1,1 bilhão e inaugurado em maio de 2014 para receber o jogo de abertura da Copa no Brasil.

Os dois áudios, obtidos com exclusividade pelo Estado, foram gravados em agosto e outubro de 2014 pela equipe do doleiro Álvaro José Novis, responsável por coordenar os pagamentos ilícitos da Odebrecht em São Paulo e no Rio, de acordo com as investigações da PF.

Novis fechou acordo de delação premiada com a Lava Jato após ser preso em 2017 e entregou aos investigadores todas as gravações feitas automaticamente por sua corretora de valores e câmbio desde 2010. Os arquivos, que ainda estão sob sigilo, são considerados pelos investigadores as provas mais fortes que complementam as delações da Odebrecht.

Nos dois áudios, André Negão, que é homem de confiança e ex-assessor parlamentar de Andrés, conversa com Márcio Amaral, funcionário do doleiro encarregado de agendar as entregas de dinheiro a partir do cronograma definido pelo Departamento de Operações Estruturadas da empreiteira, o setor que cuidava das propinas.

FILHA

Na primeira chamada, às 10h38 do dia 18 de agosto de 2014, Amaral liga no celular de André Negão e diz: "Deixa eu te explicar, tem um restante de uma encomenda que eu te entreguei na sexta-feira (15 de agosto) que nós marcamos hoje de 10h às 12h lá no mesmo local, meu pessoal tá lá".

O braço direito de Andrés diz que não havia sido avisado sobre a entrega e que estava longe do ponto de encontro. O dirigente corintiano pede então para que a "encomenda" seja entregue à filha Gabriela. "Então você vai fazer o seguinte: a minha filha tá lá, eu vou pedir para entregar na mão dela, vou pedir pra ela descer lá", diz André Negão. "Tá. Eu vou pedir para o meu pessoal então entregar à Gabriela", finaliza o funcionário do doleiro.

Registros de conversas via Skype entre funcionários da Transnacional, a transportadora de valores que executava as entregas nos imóveis, apontam uma entrega de R$ 1 milhão para "André Oliveira" em um apartamento na Rua Emílio Mallet, no dia 15 de agosto de 2014. O endereço indicado é a residência oficial de André Negão.

O caso foi revelado pelo Estado em setembro do ano passado. A data, o valor de R$ 1 milhão e a senha "planador" que aparecem na mensagem do Skype são os mesmos contidos na planilha da Odebrecht vinculados ao codinome "Timão", atribuído a Andrés e atrelado à construção da Arena Corinthians.

As mensagens de Skype mostram ainda que R$ 250 mil do pagamento no dia 15 de agosto ficaram "pendentes" e foram entregues, segundo as conversas registradas pela transportadora, três dias depois, na mesma data da ligação do funcionário do doleiro para André Negão.

À época da publicação, o advogado João dos Santos Gomes Filho, que defende Andrés Sanchez, afirmou que os agentes da transportadora "não reconheceram" André Negão por foto como sendo o receptor da suposta entrega de dinheiro. "É lamentável que uma prova de conhecimento negativa seja obnubilada por uma tentativa de fixar um endereço", disse na ocasião.

Em um segundo áudio, gravado no dia 22 de outubro de 2014, após a eleição de Andrés como deputado federal, Amaral liga para André Negão às 14h28 dizendo que havia tido um atraso na entrega. "Meu amigo, houve um atraso hoje, eu sei que marcaram aí com você hoje de 10h às 12h, né. Já chegaram?", pergunta. "Tão chegando", confirma André Negão.

Uma planilha feita pelo ex-gerente da Transnacional, Edgard Venâncio, e obtida pelo Estado, mostra uma entrega de R$ 500 mil feita no dia 22 de outubro de 2014 no apartamento de André Negão com a senha "alface". No arquivo aparece o número de telefone usado até hoje pelo dirigente corintiano.

O inquérito que investiga Andrés Sanchez e André Negão foi encaminhado para o TRF-3 pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A expectativa é de que a investigação seja enviada para a Justiça Eleitoral de São Paulo, a exemplo de outros casos em que os pagamentos da Odebrecht seriam referentes a caixa 2 de campanha política.

Segundo planilha feita por Benedicto Júnior, ex-executivo da Odebrecht, o presidente do Corinthians recebeu quatro repasses da empreiteira por meio de André Negão: dois no valor de R$ 1 milhão e outros dois de R$ 500 mil. Os envolvidos sempre negaram tal recebimento e as investigações ainda estão em curso.

Em março de 2016, quando ocupava a vice-presidência do clube, André Negão chegou a ser preso em flagrante pela PF em seu apartamento por posse ilegal de arma. Ele estava com duas pistolas. Depois de autuado, pagou fiança de R$ 5 mil e foi solto.

VOZ

A reportagem encaminhou os áudios para os advogados de defesa de Andrés e André Negão. Ambos reconheceram a voz do dirigente corintiano nas gravações, mas disseram desconhecer o contexto, vinculado a pagamentos ilícitos da Odebrecht. "Conversei com meu cliente e ele desconhece totalmente as circunstâncias do áudio. Ele recebe entregas diversas, todo dia, como nós em nosso escritório. Não tem a menor noção do que seja", afirmou Júlio Clímaco, advogado de André Negão. "Ele reconhece a voz dele, mas não neste contexto. Não recebeu (dinheiro da Odebrecht) de maneira nenhuma e tem tranquilidade com relação a isso", completou.

Já o advogado de Andrés Sanchez afirma que "não há uma única menção" ao nome do presidente do Corinthians nas gravações e reitera que o petista "não pediu nem recebeu dinheiro da Odebrecht".

"Nesses dois áudios não vejo o nome do Andrés, eu ouço a voz do André. O contexto, embora você esteja relacionando uma coisa (gravação) com outra (planilha), eu não posso fazer isso. É absolutamente esparso. O que posso dizer é que o Andrés nunca autorizou ninguém a pedir ou receber nada da Odebrecht em nome dele. E o André Negão que nunca pediu e nunca recebeu nada", afirmou o advogado João Gomes. Ele disse que vai submeter os áudios a uma perícia. "Pelo que vi é mais do mesmo, a mesma matéria requentada", disse.

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Estadão
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