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Jogo (ou jogos) dos 7 erros de Pia Sundhage

A treinadora sueca se equivocou muito no ciclo e na Copa Feminina; seleção brasileira foi mal convocada e escalada

2 ago 2023 - 11h40
(atualizado às 11h53)
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Pia Sundhage fortaleceu o sistema defensivo da seleção feminina, mas parece ainda não compreender a essência do futebol brasileiro
Pia Sundhage fortaleceu o sistema defensivo da seleção feminina, mas parece ainda não compreender a essência do futebol brasileiro
Foto: Hannah Mckay / Reuters

Um jogo tenso. A treinadora Pia Sundhage, mais uma vez, escolheu o caminho errado. No comando da seleção, a técnica conseguiu dar apenas uma característica mais defensiva e sem criatividade para a equipe. Pia forçou a barra com algumas ideias equivocadas. Por exemplo, Antônia é zagueira de muita técnica e velocidade. Como lateral, apesar das qualidades citadas, tem dificuldades no apoio. Kerolin é atacante de origem. Sundhage sempre escalou a jogadora ‘tik toker’ como segunda mulher de meio-de-campo.

Na trágica partida contra a Jamaica, o Brasil conseguiu se tornar o 7º time com mais cruzamentos errados em uma única partida da Copa Feminina, com 28. Como isso se explica dentro de campo? Na segunda etapa, Pia colocou de forma correta Bia Zaneratto, mas a artilheira acabou jogando na ponta-esquerda cruzando bola para as baixinhas Marta e Debinha.

Quero deixar claro que sou entusiasta do futebol feminino brasileiro. Assisto aos jogos da National Women’s Soccer League na plataforma Twitch, do Brasileiro e do Paulista no SporTV e na Globo, do Campeonato Inglês no StarPlus etc.etc. Amo futebol feminino. Creio que a evolução da seleção brasileira tatica e fisicamente se deve muito mais às transferências das jogadoras do país para ligas mais fortes, como as dos EUA e da Europa, do que por causa das estratégias de Pia Sundhage. Senti falta de muitas atletas na convocação, como Yasmim, Gabi Portilho, Aline Gomes, essa última, então, uma hiper revelação da Ferroviária…

Enfim, a renovação virá, mas a comissão técnica atual esqueceu um pouco disso.

A seguir, uma lista de 7 erros de Pia Sundhage (ao lado de toda a comissão técnica, pois ninguém erra ou acerta sozinho) na preparação para a Copa Feminina e durante essa competição.

Erro 1

Convocação – Yasmim, a melhor lateral-esquerda do país, foi ignorada por Pia. Tamires jogou nas últimas temporadas como meio-campo do Corinthians. O técnico do time de Tamires, Arthur Elias, tentou ajudar taticamente a camisa 6, e a escalou novamente em sua posição de origem em 2023. Altruísta, Elias prejudicou taticamente a melhor equipe do país para apoiar as decisões erradas de Pia.

Cadê a Gabi Portilho? Faltaram outras do melhor time da América do Sul, o Corinthians!

Das revelações, Aline Gomes, da Ferroviária, foi chamada apenas como suplente, e teve de retornar precocemente. Jovem atleta de muita técnica e que é o modelo da renovação do futebol brasileiro.

Das jogadoras experientes, Cristiane, do Santos, se encontra em um nível técnico melhor do que a própria Marta.

Erro 2

Seleção defensiva e sem criatividade – Pia Sundhage sempre pareceu preocupada apenas com a defesa. O 4-4-2 escolhido passa longe do futebol moderno atual. Pia colocou três zagueiras, com Antônia aberta pela direita, Kathellen (ou Lauren) como zagueira destra mais centralizada e Rafaelle na esquerda, e uma lateral improvisada muito ofensiva como Tamires.

Na linha de quatro do meio-de-campo não existe uma meia de criação. Ary e Adriana ficavam muito abertas. Luana ficava sobrecarregada com uma dupla função: marcava e criava. Kerolin sacrificada como volante número 2.

No ataque, com duas jogadoras, faltou definir o que Debinha poderia ser: uma 10 mais ofensiva, posição dela no Kansas City, falsa camisa 9 ou ponta? Quem seria a companheira de Debinha? Ninguém sabe.

Erro 3

ATENÇÃO - IMPRUDÊNCIA DE PIA - Aliás, não se pode esquecer do trágico jogo-treino contra garotos australianos de 14 e 15 anos (isso mesmo) às vésperas da Copa Feminina. Nele, Nicoly, que era quase sempre titular, se lesionou feio, teve uma entorse no tornozelo esquerdo após disputa de bola, e precisou ser cortada.

Por que jogar contra uma seleção local, a de Queensland, de pré-adolescentes/adolescentes?

Erro 4

Improvisações demais. Antônia é excelente zagueira. Tem velocidade e técnica, é uma ótima marcadora. Apesar de bons lances ofensivos em algumas partidas importantes, tem dificuldades no apoio. Fato.

Pia tirou Kerolin do ataque, sua posição de origem, e a colocou no meio-campo. A jogadora ajuda com vigor e boas coberturas. É veloz. No entanto, ataca muito e, às vezes, deixa buracos no setor defensivo. Não seria melhor como ponta?

Tamires jogou nos últimos anos como meio-campo. Ela é craque de bola, mas as dificuldades na cobertura pela esquerda. A seleção da França aproveitou muito as falhas pelo setor, inclusive na bola aérea. O primeiro gol da França saiu dessa forma. Bola aérea em cima da camisa 6 brasileira, de apenas 1,61m.

Erro 5

Equívocos em várias escolhas desde o primeiro jogo (ou em todo o ciclo). Kerolin e Adriana não renderam muito nas funções que Pia escolheu para elas. Adriana jogava mais centralizada no Corinthians. A camisa 11 da seleção se transferiu com justiça para o Orlando Pride pelo que fez no Timão. Kerolin, como escrevi várias vezes, é atacante de origem. Pia prejudicou a qualidade técnica de Kerolin, como volante número 2, e de Luana, sobrecarregada na defesa com os avanços da companheira de setor defensivo. Em coletiva antes da partida contra a França, Luana até brincou com essa característica super ofensiva de Kerolin.

Artilheira das Copas, com 17 gols, Marta passou em branco nessa edição, e Brasil, mesmo com revelações e potencial, já está eliminado
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Foto: Thais Magalhães/CBF / Jogada10

Erro 6

O Brasil levou o segundo gol da França da maneira mais previsível. Gol da gigante Renard. Quem estava marcando a super zagueira antes da cobrança mortal de escanteio? Geyse. Quem Pia tirou do jogo antes desse escanteio? Geyse. Outra questão. Sobrou para a meio-campista Andressa Alves, de 1,68m, marcar a francesa de 1,87m. Tinha alguma coisa errada. Lauren era a zagueira brasileira com estatura mais parecida: 1,77m. Em nenhum momento, Pia Sundhage deu essa importante função para Lauren. 

Erro 7

Pia se equivocou em vários momentos contra a Jamaica. A escalação de Marta não foi a correta. A dupla Debinha-Marta, talvez, tenha sido a pior escolha para enfrentar a defesa da Jamaica com estatura e força física.

Ary Borges sempre foi a meio-campista que entrava na área como 9. Era a única do meio-campo para frente que não deveria sair. Pia poderia escolher Kerolin, Adriana, Marta ou até Debinha. Ary não!

Na segunda etapa, Pia colocou Bia Zaneratto. No entanto, o posicionamento dessa atacante se mostrou totalmente errado. Bia é uma artilheira, que tem força física para jogar dentro da área. Pia colocou Zaneratto, como em todo o ciclo, buscando o jogo no meio-de-campo ou como ponta-esquerda. Continuou com o ataque das baixinhas Marta e Debinha sem resultados.

Pia demorou muito para fazer as substituições necessárias no jogo contra a Jamaica. Antônia tinha dificuldades no apoio pela direita. Por que não colocar Bruninha? Uma lateral ofensiva que já mostrou qualidades com a camisa da seleção, inclusive contra os EUA na SheBelieves Cup, e no futebol dos EUA, atuando pelo Gotham FC na National Women’s Soccer League.

Repito: Antônia é ótima zagueira, com muitos recursos, mas como lateral tem dificuldades no apoio.

Por que tirar Ary Borges? Ary só não teve mais oportunidades porque Marta errou nas decisões dentro de campo. A Rainha não viu Ary sozinha na área por duas vezes e tentou, sem sucesso, jogadas individuais.

Sundhage demorou ao não colocar Gabi Nunes no segundo tempo.

As lágrimas já incomodam para enxergar a tela do computador. Quem escreve é um homem que acompanha muito o futebol feminino e que não quer magoar as mulheres, mas os erros, que são muitos, precisam ser apontados.

A modalidade tem talentos precoces, como Aline Gomes e Duda Sampaio. As competições, como o Brasileiro, precisam evoluir. Mais divisões intermediárias precisam ser criadas. Que os campeões no país e na América do Sul, pois o Brasil crescendo fará o continente também evoluir, possam jogar torneios contra forças da América do Norte e da Europa em competições como os ainda fictícios Desafio das Américas ou/e Mundial Interclubes.

No entanto, o principal é acabar com o preconceito contra as mulheres que jogam futebol. As meninas precisam se divertir e conviver com a modalidade desde os três ou quatro anos de idade sem olhares de reprovação. A partir do convívio desde muito cedo com o futebol é que uma geração de atletas pode crescer sem erros técnicos tão importantes para o sucesso no ESPORTE DE ALTO RENDIMENTO.

Abraços boleiros.

Fonte: PV Ferreira PV Ferreira é editor e jornalista esportivo com experiência em coberturas do futebol brasileiro, sul-americano e europeu, além das modalidades olímpicas e paralímpicas. As visões do colunista não representam a visão do Terra.
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