Gringo na Seleção: nova proposta tática, velho desfecho
Conceito de Ancelotti não se materializa em campo, culminando em uma eliminação que expôe a distância entre o discurso e a prática
A aposta da CBF em Carlo Ancelotti como técnico da Seleção Brasileira foi cercada de expectativa, mas na prática pouco alterou o destino da equipe em Copas do Mundo. O discurso de mudança existiu, mas ficou apenas fora de campo. Afinal, os resultados seguiram o mesmo padrão de eliminações precoces diante de seleções europeias.
Pela sexta vez consecutiva, o Brasil venceu um mata-mata contra um país não europeu e sucumbiu no primeiro confronto frente a um europeu, repetindo, assim, o roteiro que já havia marcado as campanhas anteriores.
Fernando Diniz, Dorival Júnior e Ancelotti representaram três visões distintas sobre o que seria a identidade do futebol brasileiro. Diniz defendia a liberdade criativa, o improviso e a coragem de jogar, acreditando que o papel do técnico era apenas potencializar a inventividade dos atletas.
Dorival, por sua vez, falava menos de estilo e mais de resultados. Para ele, vestir a camisa da Seleção significava assumir a obrigação de vencer, e sua proposta era de um jogo mais direto, com intensidade e postura emocional.
Já Ancelotti, contratado há pouco mais de um ano, recusou-se a definir uma identidade clara. Partiu do princípio de que o talento brasileiro já estava dado e que sua função seria organizar e equilibrar a equipe, priorizando solidez defensiva e adaptação ao adversário.
Seleção e a inversão de prioridades
Na prática, os números mostram diferenças de abordagem, mas sem grandes avanços. Com Diniz, o Brasil teve média de 64% de posse de bola, mas pouca eficiência ofensiva. Dorival reduziu a posse para 59%, aumentou o número de finalizações, mas também expôs a defesa. Ancelotti, por fim, levou a Seleção a uma média de 53% de posse, com 14,8 finalizações por jogo, mas protagonizou o recorde negativo de apenas 34% de posse contra a Noruega, justamente no jogo da eliminação.
Sua decisão de recolocar Casemiro como peça-chave no meio-campo simbolizou a preferência por um modelo mais voltado à segurança defensiva. Mesmo diante da notória perda de velocidade do volante, o treinador apostou na experiência e na capacidade de liderança que já havia testemunhado nos tempos de Real Madrid.
A Seleção, desse modo, foi conduzida por um esquema que refletia a inversão de prioridades proposta pelo italiano: menos dinamismo e mobilidade, mais solidez e disciplina tática, capitaneada por seu homem de confiança. A desconstrução falou mais alto.
O que mudou realmente, portanto, foi o discurso: cada treinador trouxe uma narrativa própria sobre identidade e estilo. Mas o resultado final foi semelhante. Diniz caiu após derrota para a Argentina no Maracanã, Dorival após uma goleada também para os hermanos, e Ancelotti após falhar na leitura contra a Noruega.
A promessa de revolução com um técnico estrangeiro revelou-se mais um movimento político da CBF do que uma transformação tática. No fim, o Brasil seguiu acumulando frustrações, sem conseguir romper o ciclo de eliminações diante de europeus.
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