Diante do teto, como cada equipe cuida de seus gastos na F1?
Depois da situação da Red Bull ter estourado o teto, como é que cada equipe trata os gastos para tentar mantê-los nos limites previstos
Após a discussão esta semana sobre o “estouro” do teto orçamentário pela Red Bull, levantou-se a questão de como cada equipe trata a questão dos seus gastos. Agora, não se trata somente de uma questão fiscal, meramente empresarial e econômica. Mas agora passa a ter um viés mais esportivo por conta de possíveis punições.
Desta forma, cabe listar como cada equipe tratou para poder lidar a situação fiscal e do teto orçamentário. Os dados listados aqui foram baseados nos balanços financeiros publicados pelos times e estão disponiveis no site The Companies House, do governo britânico. Ferrari e Sauber (Alfa Romeo) ficam de fora pois não tem unidades na Grã-Bretanha.
RED BULL
O caso da Red Bull foi bastante tratado com a notícia do estouro do teto. Porém, desde o início do ano se falava de como a equipe estaria tratando dos custos diante de um desenvolvimento tão acelerado na temporada.
A Red Bull tem uma estrutura empresarial bastante curiosa e que teria inclusive impactado nas negociações com a Porsche. No caso específico dos taurinos, a situação é a seguinte: A fabricante de latinhas (Red Bull GmbH) é dona de 100% da Red Bull Technology. Esta é oficialmente a empresa de engenharia do grupo. Ela é a responsável por diversos projetos, tal como o Valkirie (hipercarro da Aston Martin) e o aeroscreen da Fórmula Indy.
A equipe de F1 é uma subsidiária desta empresa. Alguns dos itens acabam por ser fabricados pela RBT. E parte dos custos são contabilizados nela, não só para a Red Bull como na AlphaTauri. Falamos nisso em junho neste artigo. Para deixar a coisa melhor ainda, foi criada a subsidiária de motores, a Powertrains.
Desta maneira, alguns custos ficam no ar: joga na equipe? lança nas contas da matriz? Eis aqui uma bela zona cinza...
MERCEDES
A equipe tem oficialmente duas unidades: a equipe de F1, a Mercedes Grand Prix, e a empresa de motores, a Mercedes High Performance Powertrains. O balanço de 2021 foi divulgado e deu algumas pistas de como ela trata a questão.
No ano passado, a equipe passou por uma reestruturação societária: a montadora alemã reduziu sua participação, Toto Wolff aumentou e a gigante petroquímica INEOS. A Mercedes parou de complementar o orçamento do time (o que era cerca de £ 60 milhões/ano) e para ajustar as atividades, reforçou uma unidade especial de engenharia, que presta assessoria para a equipe de ciclismo e no barco da INEOS que participa da America’s Cup.
Além disso, fez uma redução de seus quadros (de 1063 para 1004) e de outras despesas. Isso implicou uma queda de mais de 8% em relação aos custos de 2021 (de £324,9 milhões para £291,4 milhões). E ainda transferiu o controle das instalações de Brackley para uma terceira empresa, que se tornou uma subsidiária (aqui abre uma boa brecha...).
FERRARI
Os italianos têm umas das contas menos transparentes. As operações de competição não são detalhadas nos balanços da empresa, embora ela tenha que atender uma série de requisitos legais, já que a empresa tem ações em bolsa. Mas se estimava que o custo total ficava em US$ 500 milhões (motores inclusos).
Atendendo a pedidos, a FIA deu mais tempo para que fosse feito o ajuste aos requisitos (Mercedes e Red Bull também entraram aqui). Até onde se saiba, a Ferrari não demitiu funcionários. A preferência foi deslocar este pessoal para o programa do protótipo Le Mans e ainda montar uma “unidade especial de prestação de serviços”, que tem a Haas como única cliente até onde se saiba.
Um relatório foi específico para atender aos requisitos da FIA e, aparentemente, o teto foi cumprido. Mas não deveremos saber as minucias, pois como dissemos, a Ferrari não detalha as operações de corridas em seus balanços.
ASTON MARTIN
Esta foi uma que se especulou que teria ultrapassado o teto. No fim, acabou se constatando que houve um problema de procedimento na entrega da documentação. Mas a equipe basicamente é tocada por uma empresa, a AMR GP, que tem Lawrence Stroll e Silas Chou como diretores (eles são sócios em diversas empresas de moda e fazem parte do grupo que comprou a Force India).
Além disso, foram criadas duas outras empresas para tratar da F1: a AMR Commerce e a AMR Performance Technologies. Por enquanto, a equipe não tem problemas com o teto em 2021 (oficialmente, gastou £107,7 milhões e teve um prejuízo de £43,3 milhões). Mas já avisou que está gastando US$ 200 milhões para a construção de sua nova sede, que fica pronta em 2023. E um detalhe: a Aston Martin entra aqui como a Alfa Romeo: é uma patrocinadora do time...
ALPINE
Embora francesa, a base de operações da equipe é na Inglaterra e seus gastos são em maioria aqui. A parte de motores é sediada na França e hoje tem parte dos serviços executados pela Mecachrome. Pelo balanço de 2021, a equipe teve um custo total de £175 milhões e teve um lucro contábil de £29 milhões. Mas o mesmo balanço diz que a Renault fez empréstimos ao time no valor de £125 milhões até o fim de 2021 e que "a empresa controladora não espera pagamento deste valor no curto prazo ou reduzir sua participação".
HAAS
A Haas está longe do teto, mas tem as suas artimanhas: a sede administrativa é nos Estados Unidos, a área operacional é na Inglaterra e tem uma filial na Itália. Esta última foi criada para tratar com a Dallara e hoje também com a Ferrari apos a criação da "unidade especial". Segundo o último balanço de 2021 publicado no último dia 07, o braço inglês declarou uma receita de £87,4 milhões e um custo de £82,8 milhões. Os italianos ficavam em uma casa de 11 milhões de euros e os dados da parte americana estão estão disponíveis.
MCLAREN
Dentro da reestruturação comandada pelo grupo McLaren para seu salvamento, a parte de competições foi separada da empresa principal e fica responsável pela gestão da equipe de F1 e da Indy.
Entretanto, o funcionamento do time segue no MTC, onde as demais ações são feitas e foram buscadas “sinergias” entre as partes, justificadas por uma série de demissões feitas algum tempo atrás. E uma série de melhorias que estão sendo feitas na sede focadas na F1 podem ser também estendidas a unidade automotiva. Desta forma, a McLaren tem como jogar despesas em outros lugares também
Em tempo: a divisão de competições da McLaren reportou um prejuízo de £60,5 milhões em 2021 (e um custo de £191,1 milhões).
WILLIAMS
Após a incorporação pela Dorilton Capital, a divulgação de dados financeiros sobre a Williams se tornou algo raro. Antes, a equipe tinha ações na Bolsa de Frankfurt e divulgava balanços semestralmente. Anteriormente, a Williams contava com a sua subsidiária de engenharia e a parte de carros históricos. No fim de 2019, vendeu a lucrativa parte de engenharia para ajudar a financiar o time.
Neste mês, o time divulgou o balanço de 2021 informando um faturamento de £96,8 milhões e um custo total de £167,5 milhões. Parte do prejuízo foi coberto com a venda de parte de direitos intelectuais a uma empresa chamada BCP LLC e ainda houve um empréstimo disponibilizado, além de um aumento de capital da equipe. Em princípio, restou a parte de carros históricos e uma empresa que se encontra inativa.
SAUBER
Os suíços não divulgam seus dados abertamente. O que se sabe é que a empresa hoje tem a divisão de corridas, que tem o patrocínio da Alfa Romeo, e a de engenharia, que presta serviços para diversas firmas, incluindo a própria F1, que desenvolveu o conceito do novo regulamento no túnel de vento em Hinwill. Com a falada chegada da Audi, as coisas melhoram, embora Frederic Vasseur, chefe de equipe, diga que o time fica bem distante do teto orçamentário estabelecido.
ALPHATAURI
A AlphaTauri é uma subsidiária direta da Red Bull GmbH, que é a holding dona da fabricante de energéticos. Dentro da organização e conforme o regulamento permite, ela compra várias peças da Red Bull Technology (direção, suspensões, câmbio). No ano passado, ela declarou ter gasto 25 milhões de euros com este tipo de aquisição. Mesmo sendo uma equipe notoriamente satélite da Red Bull, a empresa tem buscado aumentar a independencia do time: as receitas aumentaram, bem como o quadro de profissionais. Além disso, passou a ter acesso ao tunel de vento anteriormente usado pela Red Bull em Bedford (Inglaterra).