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Após 25 anos na Globo, Becker espera mais espaço na Band

Jornalista cobre a Fórmula 1 e diz que não se pode ser "bonzinho" na principal categoria do automobilismo

3 mar 2021
09h00
atualizado às 16h24
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Após 25 anos, Mariana Becker está de casa nova. A jornalista seguiu o caminho da Fórmula 1 e também trocou a TV Globo pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação. Em 1h30 de conversa com o Terra, a gaúcha de 49 anos falou sobre as suas expectativas, relembrou o início da carreira, dificuldade para se destacar em um ambiente predominantemente masculino e ainda contou causos. Tudo isso com muito bom humor, mas também com muito conhecimento de quem acompanha a principal categoria do automobilismo desde 2007.

Mariana Becker trocou a Globo pela Band após 25 anos
Mariana Becker trocou a Globo pela Band após 25 anos
Foto: Zé Paulo Cardeal/TV Globo

“Estou super ansiosa com esse começo de temporada e com o trabalho que a gente pode fazer na Band, que tem uma proposta de cobertura robusta, bastante espaço para preencher com conteúdo. Com essa flexibilidade maior da grade, a gente vai poder desenvolver mais coisas,  ter mais tempo de entrevistas e ter outros assuntos que antes a gente não podia pelo fato de ter um tempo mais reduzido, porque a grade era mais rígida”, conta animada.

Apesar de ainda estranhar a mudança, Mariana diz que seguir o caminho da Fórmula 1 foi um processo natural.  “O meu período de 25 anos na Globo foi o meu período de formação de repórter de televisão. Eu aprendi a ser repórter na Globo. O padrão Globo foi o que me formou, claro que eu tenho outras fontes, mas o meu perfil e base foram feitas ali. A saída é uma coisa estranha, ainda estou vivenciando isso, ainda mais que meu início na Band não começou de fato. Ainda não posso dizer as diferenças”, analisa.

 

 

“Apesar de ser dolorido de você sair de um lugar que você foi criado, foi uma saída natural. A Fórmula 1 saiu e eu saí junto,  saí junto com um ambiente e um assunto que eu domino. Eu antevi isso acontecendo em um momento que as negociações passaram a não dar certo e eu estava restritiva à Fórmula 1, não mais como correspondendo internacional como era até esse ano, aí eu pensei: ‘Não vai ter espaço’. Quando terminou a negociação com a Fórmula 1, eu já fui avisada: ‘A gente não vai conseguir te manter’, e eu fui saindo. A gente conversou depois, falamos de algumas possibilidades, mas eu estava tão ligada na Fórmula 1, que eu iria onde a Formula 1 estivesse indo”, explica.

Paixão pelo automobilismo

Ser repórter de Fórmula 1 não foi algo planejado na carreira de Mariana. “Nunca pensei”, confessa. Ela diz que a categoria fazia parte da sua vida como faz da cultura de todo brasileiro que gosta de esporte, principalmente por fazer parte de uma geração que acompanhou as conquistas de Ayrton Senna e Nelson Piquet.

“Eu gostava, mas não era o troço que eu era completamente apaixonada. Passei a olhar o automobilismo de outro jeito quando eu fui correr o Rally dos Sertões, eu corri três edições e ali dirigindo que eu fui ver o quanto aquilo era legal. Era muito legal, não era pouco, era muito legal. Antes eu tinha a visão de fora, não tinha a sensibilidade, o quanto fisicamente e emocionalmente aquilo era incrível. Tive a noção que o carro é um prolongamento do seu corpo. Achei aquilo fantástico, passei a ter um carinho muito mais especial por automobilismo do que eu tinha antes”.

Trabalho em família

Na Band, a jornalista vai repetir a dobradinha com Jayme Brito. O produtor, que foi diretor da TV Globo, foi um dos responsáveis por costurar o acordo de dois anos da Liberty Media, empresa detentora dos direitos da Fórmula 1, com a emissora da família Saad. Ele é o líder da equipe que vai estar in loco na cobertura da categoria.

Depois de 12 anos de casamento, Mariana Becker já sabe diferenciar bem os pontos positivos e negativos de dividir o trabalho e a vida pessoal com a mesma pessoa.  “A grande vantagem é que a gente sabe a intensidade do que a gente sente no trabalho. Quando acontece alguma coisa que foi muito ruim e você chega em casa arrasada, normalmente a pessoa não entende, ou, às vezes, você conquista um troço muito grande e a pessoa não consegue entender porquê aquilo é tão importante. O fato da gente trabalhar junto, ter o mesmo tipo de formação, que é jornalismo televisivo, faz com que a gente tenha a exata noção do que é cada vitória e cada derrota de cada um. Isso é uma coisa muito bacana”, diz.

“A parte difícil é que a tensão do trabalho, tudo o que acontece no trabalho acaba entrando dentro de casa por mais que a gente tente separar. A gente tenta, mas é muito difícil, são as mesma pessoas, o assunto é o mesmo, dificilmente a gente vai voltar para casa e não vai continuar sendo o assunto. O relacionamento fica muito massacrado em todos os lados. Você tem que ter muito cuidado para a coisa não degringolar”, argumenta.

Pioneirismo feminino

Mariana não pensou duas vezes quando a Globo decidiu testar uma mulher na cobertura da F-1. “Eu gostava de viajar, falava línguas, gostava de automobilismo. Topei na hora o convite. Reunia tudo para mim: um mundo mais de cigana, viajante e já conhecia o meio de Fórmula 1 porque eu fazia todo ano o GP Brasil, achava um meio interessante”, relembra.

A jornalista diz que quando chegou na categoria tinha muito menos mulher do que se tem hoje entre as repórteres. Ela afirma que sempre foi muito respeitada pelos pilotos, mas que já teve informação desacreditada por ser mulher.

“É um meio ainda predominante de ideias masculinas e de poder masculino, mas também acho que estamos abrindo muito espaço. Isso se deve ao momento da sociedade que a gente vive hoje. A mulher não pode mais ficar sem a resposta dela. As pessoas me perguntam muito: ‘Quando vai ter uma mulher na Fórmula 1?’. Essa pergunta está sendo feita há muitos anos, ela não era respondida, mas hoje em dia ela não pode mais ficar sem resposta. As entidades que regem o esporte tem que responder, agora já tem um departamento dentro da FIA dedicado a isso, já tem Fórmula Woman. Ainda não é suficiente, ainda tem a coisa do politicamente correto que atrapalha”, declara.

“Se por um lado a gente não é mais obrigada a ouvir uma piada de mau gosto ou um cara se sentir à vontade para te dizer uma barbaridade, por outro lado fica todo mundo muito bonitinho no discurso, mas na ação falta. A ação agora está começando a se juntar no discurso porque hoje em dia a gente tem muito mais mulher perguntando por que não tem. Antes quem é que perguntava?”, questiona.

Para Mariana, em “bem menos de 30 anos”, terá uma mulher entre os pilotos no grid. “Temos talentos, mas o que falta agora é ter contingente para poder sair. Além do talento, a mulher tem que ser estimulada a vida inteira, ter espaço para chegar madura quando tiver que competir com alguém para entrar na Formula 3 ou Formula 2. É só contingente”, argumenta.

A nova repórter da Band relembra que quando chegou na categoria, em 2007, fez uma matéria sobre a presença de mulheres e que muito pilotos disseram que uma mulher não podia dirigir um Fórmula 1. “Muitos pilotos me falaram que fisicamente era impossível. Hoje ninguém tem coragem de dizer uma coisa dessas”, acredita.

Admiração por Nick Lauda

Entre tantos astros, o tricampeão Nick Lauda, que morreu em maio de 2019, foi quem conquistou Mariana Becker. “Foi o cara que mais me surpreendeu e mais gostava de conviver, era importante tê-lo no paddock”, relembra.

Como gaúcha, ela define o austríaco como “tri querido” e diz que a história dele por si só é fantástica. “Ele dizia o que pensava tanto para o bem quanto para o mal. Muitas vezes ele foi temperatura para coisas que a gente achava que estava acontecendo, ia conversar com ele e ele dizia, apontava caminhos. Ele foi super generoso quando eu cheguei. Com o Nick não tinha história, ele falava o que pensava e fim de papo. Ele vinha me perguntando de fofoca, ria, sempre me deu entrevista”, enumera Mariana, que diz que um dia ficou horas escutando histórias do conselheiro da Mercedes na época enquanto tomavam café em um charmoso hotel em Monza, na Itália.

"F-1 não é para bonzinho"

Após dois anos fora da Fórmula 1, o espanhol Fernando Alonso volta para a categoria neste ano pela equipe Alpine, ex-Renault. Mariana Becker não acredita que o bicampeão mundial volte fraco. “Ele é muito forte, ele é um piloto abençoado pelo dom e que trabalhou feito um cão. Fez escolhas muito erradas, o problema dele foi o timing e a parte emocional. Se você colocar o cara na pista, ele é excepcional, ele estuda muito”, diz.

Apesar do talento, Alonso sempre teve o nome envolvido em polêmica. Becker diz que não se lembra de uma entrevista coletiva como foi a que ocorreu depois do GP da Alemanha de 2010, quando a Ferrari ordenou que o brasileiro Felipe Massa deixasse o companheiro passar. A famosa mensagem: "Fernando is faster than you..."(Fernando está mais rápido do que você, em português)".

“Eu vi ele sendo massacrado. A imprensa inglesa foi de garfo e faca para cima dele, foi a coletiva mais tensa que eu já vi na minha vida, e ele com uma coragem de responder os caras, com uma frieza”, recorda.

Outro famoso episódio polêmico envolvendo Alonso aconteceu no GP de Cingapura, em 2008, quando Nelsinho Piquet, companheiro de equipe do espanhol, bateu propositalmente para facilitar a vitória do colega de Renault. A culpa do caso ficou toda com o piloto brasileiro e de Flavio Briatore. “O Alonso certamente pensou junto com ele (Briatore), concordou, mas o que acontece, como não conseguiu se provar isso, o dedo do Alonso, ninguém pode chegar e dizer: ‘Tá vendo, foi tua culpa’. Fica aquilo: ‘Fui beneficiado, mas não tô sabendo de nada’”, opina Becker.

Porém, a jornalista acredita que o episódio mudou a visão sobre Alonso: “Foi feio aquilo lá, para quem acompanha o esporte, forjou um pouco o perfil dele. Você sabe que ele é um cara bom, mas que ele é capaz de um troço desse. Ele é capaz de fazer algo do tipo”.

“A Fórmula 1 não é um ambiente muito limpo, você tem que ficar muito esperto, não é para criança pequena, aquilo ali é para cobra criada. São os bons em tudo, mas não pode ser bonzinho se não você não chega muito longe. Você não tem que ser mau caráter, mas você ter que estar ligado e esperando qualquer coisa”, completa.

Lewis Hamilton

Mariana Becker não tem duvida do talento do hexacampeão Lewis Hamilton. “Às vezes as pessoas duvidam porque ele está sempre na frente, assim como acontecia com o Vettel, mas ele já mostrou vindo de trás que ele é uma baita piloto. Ele é um super piloto, também é um cara trabalhador”, analisa.

Mariana Becker participou da entrevista de Lewis Hamilton no programa de Pedro Bial
Mariana Becker participou da entrevista de Lewis Hamilton no programa de Pedro Bial
Foto: Reinaldo Marques/TV Globo

Nos últimos anos, além do talento na pista, Hamilton passou a chamar a atenção para discurso contra o racismo e outras desigualdades. A postura do piloto da Mercedes é elogiada pela ex-repórter da Globo.

“Por mais que se questione as reais intenções dele sobre toda essa história de defesa do negros, foi importante, finalmente se falou sobre isso, ele teve coragem de falar sobre isso, antes ele não tinha e não gostava de falar. Precisou ele ganhar para se sentir seguro. ‘Agora que estou ganhando aqui, vamos deixar um troço claro, tá ruim’. Eu acho legal, tem muita gente que diz que ele usa para se promover, eu não acho, mas mesmo que o faça, está sendo vantajoso, eles estão falando sobre isso e ações estão sendo tomadas para que haja uma diversidade maior”, diz.

“Guria Boa, essa”

Fora da Fórmula 1, Mariana Becker abriu espaço em sua conta no Instagram para contar a história de mulheres batalhadoras e espera incentivas novas mulheres com esses relatos.

“O objetivo é contar a história de mulheres admiráveis que fizeram coisas admiráveis e que a gente não sabia. Pegar uma detalhe para valorizar aquela conquista”, conta.  Toda quinta-feira ela traz uma nova conversa.

Fonte: Equipe portal
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