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Contratação de estagiários negros triplica no 1º trimestre de 2021

Pesquisa da Companhia de Estágios analisa base com mais de 3 mil estudantes do País; alta ocorre na esteira do aumento no número de programas de diversidade racial em empresas

9 jun 2021 11h10
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O número de estagiários negros contratados pelas empresas triplicou no primeiro trimestre deste ano, em relação ao mesmo período do ano passado. Nos primeiros três meses de 2020, 250 estagiários pretos e pardos foram admitidos. Neste ano, o número saltou para 743, o que representa aumento de 197%. Os dados são de levantamento inédito realizado pela Companhia de Estágios, empresa de soluções tecnológicas para o setor de RH.

A pesquisa foi feita a partir de uma base de 3.347 estudantes negros, contratados entre 2018 a 2020. Foi usada pela Companhia de Estágios a mesma classificação de cor ou raça do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em que o termo negro se refere à soma das populações preta e parda.

O salto na contratação de universitários negros acontece em meio ao aumento no número de programas de estágio que visam promover a diversidade racial nas empresas. Dados da pesquisa mostram que, entre 2018 e 2019, a quantidade de novos estagiários não-brancos cresceu 96%. Quando o comparativo é feito olhando o biênio 2018-2020, o índice sobe para 150%.

Os programas têm crescido em número ano a ano. Em 2017, 42% dos recrutamentos conduzidos pela Companhia de Estágios tinham metas de diversidade racial. No ano seguinte, o porcentual subiu para 61%. Alcançou 80% em 2019 e, no ano passado, já correspondiam a 87%.

Em 2020, grandes empresas como Magalu, Ambev, Bayer, P&G e Eaton abriram vagas de trainee e estágio direcionadas para mulheres e pessoas negras. Incomuns, as iniciativas geraram polêmica. A Magalu, por exemplo, sofreu críticas nas redes sociais e foi acusada de cometer racismo reverso por impedir a participação de brancos no programa.

O caso chegou até o Ministério Público do Trabalho (MPT) em São Paulo, que concluiu que o trainee era reparação histórica pelas violações de direitos humanos sofridas por pessoas negras durante o período da escravidão no Brasil, com efeitos para essa população até hoje. Por outro lado, organizações como a Kraft Heinz ampliaram o escopo dos programas de recrutamento para mulheres, comunidade LGBTQIA+ e pessoas com deficiência (PCD).

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"Antes, as empresas se preocupavam em incluir pessoas com alguma deficiência nos programas de seleção. Isso mudou de forma acelerada e a preocupação hoje é atrair não só PCDs, mas negros, mulheres, pessoas mais velhas e o público LGBTQIA+. Há pouco tempo, esses temas nem entravam em pauta; hoje, as discussões partem disso", afirma Tiago Mavichian, CEO da Companhia de Estágios.

Perfil dos estudantes negros

O mapeamento da Companhia de Estágios aponta também que a maioria dos estagiários pretos e pardos são mulheres (55%), moram no Sudeste (85%) e têm idade média de 23 anos — a mesma média etária dos estagiários brancos. Depois do Sudeste, as regiões que mais possuem negros estagiando são Nordeste (6%), Norte (4%), Sul (3%) e Centro-Oeste (2%).

Além disso, 38% dos não-brancos que trabalham como estagiários são oriundos de escola pública, número 111% maior do que em 2019, quando 18% estudavam em instituições municipais, estaduais ou federais. Entre os autodeclarados pretos, a maior parte dos pesquisados cursa Direito. No caso dos pardos, destacam-se as Engenharias: Civil, de Produção, Mecânica e Química.

As empresas também têm revisado práticas para tornar seus processos menos excludentes. O levantamento mostra que as organizações estão contratando mais jovens sem experiência prévia, por exemplo. Em 2018, apenas 6% dos negros começavam a estagiar sem ter qualquer trabalho no currículo. Em 2020, este número já era de 19% — um aumento de 217% em três anos.

A pesquisa pontua que a mudança de atitude é essencial porque algumas desigualdades, como nível de inglês e Excel, ainda persistem. O número de negros aprovados com inglês avançado é menor do que o de brancos: 33% dos pretos aprovados afirmam ter inglês avançado; contra 54% dos brancos. O mesmo acontece com Excel: entre os contratados pretos, 17% tinham conhecimento avançado da ferramenta; ante 23% dos brancos.

Estadão
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