Uso da IA pode reduzir autonomia humana e gerar sensação ilusória de companhia
Inteligência artificial pode causar problema estrutural no mercado de trabalho ao ser usada para substituir profissionais iniciantes, segundo palestrantes do Rio Innovation Week
A inteligência artificial (IA) já deixou de ser uma ferramenta para aumentar produtividade e passou a influenciar a forma como as pessoas tomam decisões, aprendem, se relacionam e trabalham. Esse foi o ponto central do debate "Quando os Robôs Assumem o Turno" no Rio Innovation Week, com participação de Bia Willcox, fundadora da plataforma educacional Pensar.AI, Paula Martini, fundadora da plataforma educacional Internet de Pessoas, e Marcel Nobre, CEO da consultoria Betalab.
O debate abordou o risco da substituição de profissionais juniores e estagiários por ferramentas de IA capazes de executar tarefas repetitivas, o que pode gerar um problema estrutural para a formação de talentos.
Paula observa que trocar esses iniciantes por uma IA é "muito conveniente" para as empresas, pois a máquina não comete erros, não exige supervisão constante e é virtualmente gratuita.
Já Bia questiona o uso das tecnologias não só no mercado de trabalho, mas na vida como um todo da população mundial.
"Na nova sociedade, tendemos a entregar às máquinas as capacidades de decidir e julgar. O que sobra para nós? O governo chinês proibiu as IAs antroformizadas recentemente. Essas tecnologias levam ao isolamento por causa da sensação de companhia trazida pelas IAs", diz Bia.
Para Paula, falta uma regulamentação para as empresas que desenvolvem plataformas de IA generativa, como ChatGPT, Claude ou Gemini.
"A IA nos trata bem, diz que somos maravilhosos, pelo mesmo motivo que o algoritmo do Instagram fica entregando só vídeos maravilhosos que queremos ver. Para quê? Para não sairmos dali e não irmos para os concorrentes. Se a regulamentação não for top-down (de cima para baixo) nas empresas que desenvolvem IA, vamos continuar tendo essa assimetria de poder", afirma Paula.
Nobre argumenta que a conexão humana se tornará progressivamente mais importante diante do avanço da tecnologia, com máquinas se comunicando com máquinas e um grande fluxo de conteúdos gerados por IA se proliferando pela internet.
"Algo que as máquinas nunca vão conseguir é entender o ser humano. Os CEOs do passado eram vendedores ou engenheiros. Os CEOs do futuro serão filósofos. Pouca gente vai ter a capacidade de se conectar de verdade com as pessoas", afirma Nobre. "Já estamos agora em um ciclo de retroalimentação da IA com conteúdos gerados por sintéticos, e as plataformas estão comprando livros físicos para digitalizar e levar esse conteúdo para suas IAs", afirma.
Nobre conta que a China tem investido no desenvolvimento do letramento em inteligência artificial desde a educação básica, ensinando crianças a distinguir conteúdos reais de conteúdos sintéticos, compreender princípios éticos ligados ao consentimento e desenvolver senso crítico diante da tecnologia. Já no Ocidente, a percepção é que o debate permanece fortemente concentrado em produtividade, eficiência e geração de lucro, deixando em segundo plano aspectos relacionados ao interesse público e aos impactos sociais da automação.
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