'Sinal amarelo está piscando': analistas veem abalo na governança em bancos no País
Especialistas descartam crise generalizada de confiança ou de reputação, mas alertam para 'percepção de aumento de risco', especialmente para instituições emergentes no sistema financeiro
Os recentes escândalos e os desdobramentos negativos envolvendo os setores financeiro e bancário no Brasil têm colocado à prova a governança e a reputação de um dos segmentos reconhecidos como de maior resiliência no País.
Para especialistas ouvidos pelo Estadão, a fase ainda pode ser considerada um "caso isolado e reversível", mas a gravidade dos fatos indica um "sinal de alerta" para os controles de riscos ainda insuficientes diante do acelerado crescimento de instituições financeiras no mercado.
Um relatório da agência de classificação de riscos Fitch Ratings sobre o setor bancário em países emergentes, publicado na quarta-feira, 28, cita o imbróglio envolvendo o caso do Banco Master — que entra em nova fase de investigação pelo Banco Central — e o Banco de Brasília (BRB) como um caso que ilustra os riscos de um ambiente competitivo com controles de governança corporativa "mais frágeis", que pode afetar instituições emergentes.
No material, a instituição faz um alerta para as consequências desse risco para novas financeiras. "A busca por crescimento e ganho de escala pode levar a um apetite por risco mais agressivo, ao afrouxamento dos controles internos ou a estruturas mais frágeis de governança corporativa."
Nos últimos anos, a população brasileira vem passando pelo processo de "bancarização", com maior e mais facilitado acesso a serviços bancários, ofertados amplamente por novos bancos e fintechs no País.
Segundo mapeamento da Fintech Report 2025, da plataforma Distrito, startups com serviços de crédito são líderes no setor financeiro no Brasil, com o número de 534 instituições, e as que oferecem meios de pagamento cresceram anualmente quase 20%, chegando ao número de 475 startups no ano passado.
Incluída nesse processo de "bancarização", esteve a fintech de contas digitais Will Bank, fundada em 2017 e comprada pelo Banco Master, que teve liquidação extrajudicial decretada neste mês. Voltada para o público de baixa renda, a fintech ultrapassou os 12 milhões de clientes no Brasil em 2025, e atualmente está com os serviços suspensos, em virtude do caso Master.
Crise generalizada?
Em um ambiente de expansão de instituições financeiras — grande parte ainda em processo de regulamentação —, impacto financeiro para clientes e investidores e investigações em curso, há um comprometimento na governança com riscos em curso ao sistema financeiro de modo geral?
Para o coordenador do Centro de Referência em ESG da Fundação Dom Cabral (FDC), Carlos Penteado Braga, não se pode falar ainda em "crise generalizada" de confiança ou de reputação, mas sim de uma "percepção aumento de risco" que acaba contagiando a percepção de stakeholders (partes interessadas), como investidores e do correntistas, sobre o setor.
"Episódios que abalam o setor como um todo revelam que a gestão de riscos no mercado nacional em geral ainda é muito focada em riscos financeiros tradicionais (crédito, mercado, liquidez) e menos madura em riscos não financeiros (conduta, cultura organizacional, mudanças climáticas e cibernético)."
Uma vez que a complexidade dos novos produtos financeiros está desafiando os modelos de controle e sistemas de risco vigentes, é necessária uma evolução na governança, diz Braga. "Instituições que escalam rápido demais sem investir proporcionalmente em compliance e auditoria interna acabam criando fragilidades. No setor financeiro, a inovação sem governança é um risco mal precificado."
De opinião semelhante, a coordenadora do Centro de Estudos em Ética, Transparência, Integridade e Compliance da Fundação Getulio Vargas (FGVethics), Lígia Maura Costa considera que houve abalo reputacional e de confiança no sistema financeiro brasileiro, porém ainda isolado, não sendo "algo sistêmico ou endêmico".
Nesse contexto, o crescimento de instituições financeiras, em si, não deve ser considerado um agravante no problema, mas como um indicativo de necessidade de mais robustez na governança de setor. "O ponto é quando esse aumento não vem acompanhado de estruturas de governança, controles de risco e limites", salienta.
Os casos recentes são vistos pela especialista como um "dano reversível", desde que haja "responsabilização e punição exemplar". "Para recuperar a confiança dos stakeholders, é preciso mostrar que a governança funciona justamente quando ela falha, produzindo correção, responsabilização e punição, e não (produzindo) proteção, opacidade, silêncio ou corporativismo institucional."
'Sinal amarelo' exige boas práticas
Na avaliação da conselheira Viviane Elias, especialista em gerenciamento de riscos e crises corporativas, mesmo que o sistema financeiro e bancário brasileiro seja um dos mais confiáveis e estruturados do mundo, o cenário atual deve servir para o setor como um sinal de alerta.
"O ponto de reflexão é que o sinal amarelo está piscando e não podemos ignorar. É risco ético e de conduta virando percepção pública e, percepção de toda e qualquer parte interessada, hoje, vira comportamento em tempo real", afirma.
O compromisso com boas práticas de governança deve ser compatível às exigências dos novos tempos e dos padrões de clientes, cada vez mais exigentes por transparência. "(As instituições devem considerar que) o cliente não é mais somente o 'público-alvo', é auditor informal com celular, print (imagens via captura de tela) e memória. O sistema não sofre por falta de regra, mas por excesso de confiança em práticas antigas."
Mais moderado, o gerente de Conhecimento e Relações Institucionais do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Danilo Gregório, pondera que a qualidade da governança e da gestão de riscos de um setor inteiro não deve ser medida por um episódio e lembra que "não é a primeira vez que vemos escândalos corporativos", em um indicativo que não há motivo para pânico.
"A boa notícia é que (os escândalos corporativos) sempre geram novas lições para a governança corporativa e para o arcabouço regulatório e de fiscalização. A regulação e o setor financeiro do Brasil são reconhecidos e construíram uma trajetória consistente no enfrentamento e superação de crises profundas. Os casos negativos servem de alerta de que algo não está funcionando e precisa de correções."
Ele ressalva que, independentemente do estágio, de criação, toda empresa com gestão madura e boa governança deve ter políticas e estruturas para lidar com gerenciar riscos e crises. O esforço é para evitar que essas práticas sejam colocadas em segundo plano e superadas por outras metas típicas do setor, como ganhos financeiros e aumento de clientes.
"As boas práticas de governança corporativa podem ser adotadas por companhias em estágio inicial, em expansão ou que já tenham atingido a maturidade. Elas são pensadas justamente para mitigar riscos de diferentes contextos, (uma vez que) princípios basilares da boa governança e princípios éticos, podem ficar mais vulneráveis em momentos de euforia, quando quase todas as partes interessadas estão ou parecem estar ganhando." /Com André Marinho