Processo de privatização da Copel avança, mas modelo semelhante ao da Eletrobras preocupa
Assembleia Legislativa deve apreciar proposta que transforma estatal em corporação no dia 10 de julho; mercado teme que discussão em torno da Eletrobras afete processo da empresa paranaense
O desenho da operação de privatização da estatal paranaense de energia Copel começou a ganhar uma estrutura mais clara para o mercado, a partir dos sinais dados na convocação dos acionistas para deliberarem sobre as mudanças necessárias no estatuto da companhia, o aumento de capital e a migração para o Novo Mercado da B3.
As primeiras mudanças sinalizadas foram a limitação de poder de voto para transformar a empresa em uma corporação — como ocorreu com a Eletrobras — e a criação de uma "golden share" (ativo com poder de veto em determinadas matérias) para o governo do Paraná.
Embora boa parte destes temas já fosse conhecida e o aval dos acionistas seja uma condição para a futura operação, alguns dos pontos indicados na proposta elucidam questões que permaneciam em aberto. Fontes próximas ao processo indicavam, por exemplo, preocupações sobre a realização de uma oferta apenas com ações ordinárias, como as detidas em grande volume pelo Estado do Paraná (69,7%), quando os papéis mais líquidos atualmente são os preferenciais.
A avaliação era de que poderia haver um desalinhamento com potencial para prejudicar a precificação dos papéis. Chegou-se a cogitar uma operação com units (ativos compostos por mais de uma classe de ações), o que agora fica afastado pela proposta apresentada aos acionistas de migração para o Novo Mercado e extinção do programa de emissão de units.
Antes mesmo de o processo de privatização ser anunciado ao mercado, a administração da Copel já havia iniciado estudos para a migração para o Novo Mercado, mas ao citar esse tema na proposta agora apresentada, o movimento volta a ganhar impulso, um aceno que agradou especialistas.
"Já houve uma migração no passado do nível 1 para o 2 e agora deve sair do 2 para o 3, e uma companhia no Novo Mercado gera valor para os seus acionistas", comentou Arbetman. Já o analista de energia do Safra, Daniel Travitzky, considerou a "antecipação" desta discussão para agora um "bom movimento".
Apesar do movimento positivo e esperado em direção à privatização com a convocação da AGE, parte do mercado ainda vê incertezas à frente na operação, prevista pela administração da Copel para outubro.
A operação ainda precisa do aval do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE/PR), enquanto o Tribunal de Contas da União (TCU) tem de validar o valor da proposta para as outorgas da concessão das três usinas hidrelétricas que a Copel pretende renovar: Foz do Areia, Segredo e Salto Caxias, no valor de R$ 3,7 bilhões.
Travitzky cita "as perspectivas do mercado de capitais, o cenário macro, as discussões regulatórias e o preço mínimo para o possível seguimento" como riscos para o processo. No entanto, ele mantém como alta a probabilidade do processo de privatização ser concluído este ano.
Já Arbetman cita que pode pesar o momento atual de preços de energia muito baixos, por conta de uma combinação de demanda por energia em marcha lenta e hidrologia favorável, que levou os reservatórios das hidrelétricas a patamares elevados de armazenamento.