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Prioridade em cenário de incertezas é a segurança energética, diz executivo da Siemens Energy

Para André Clark, mundo não vem fazendo lição de casa em termos de transição energética, e o que houve foi uma 'adição energética'

28 abr 2025 - 08h00
(atualizado às 11h18)
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André Clark, presidente da Siemens Energy
André Clark, presidente da Siemens Energy
Foto: Siemens Energy/Divulgação / Estadão

A questão energética, se é essencial para a Siemens Energy, também é prioritária para o futuro do planeta, que não vem fazendo sua lição de casa em termos de transição energética, segundo a avaliação de André Clark, vice-presidente para a América Latina da companhia. O tema, diz, será central para a COP-30, que será realizada em novembro no Brasil. A complexidade do mundo, e a "ruidosa" reunião em Belém, como classifica Clark, pelo fato de o encontro ocorrer em um país democrático, torna o jogo de xadrez mais intrincado.

Para o executivo, diante de um cenário de incertezas ambientais e geopolíticas, a prioridade da população continua sendo a segurança energética — ou seja, garantir que não falte energia, independentemente da fonte. Só depois se discute se essa energia é limpa e acessível.

Se a transição energética não tem ocorrido como se previa, a resiliência do sistema será testada nos próximos anos, com destaque para solar, eólica, gás e até a volta da energia nuclear. "O Brasil possui todos esses recursos e navega bem nesse cenário. Por isso, é importante a ideia do Brasil como um país benignamente neutro geopoliticamente. O país tem tradição de equilíbrio diplomático e se relaciona bem com China, Ocidente, Mercosul, União Europeia e países árabes. No campo energético, o Brasil também joga em todas as frentes", afirma Clark.

A Siemens Energy é uma multinacional que tem como foco a busca de soluções energéticas, sejam convencionais ou renováveis. Está presente em 90 países e conta com mais de 100 mil funcionários.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Como a sustentabilidade está posicionada no dia a dia da Siemens Energy? Ela é realmente uma prioridade?

A Siemens Energy foi criada em 2020, justamente com o foco em mudanças climáticas. E a mudança climática não é algo novo, que a ciência tenha descrito recentemente. Foram várias revoluções tecnológicas que nos trouxeram até aqui, mas, como o ser humano tirou muito hidrocarboneto do solo e mandou para a atmosfera, hoje, a vida no planeta está sob ameaça. Já estávamos vendo que a enorme mudança nos sistemas energéticos seria uma consequência. Estamos vivendo em um período de adaptação agora, pois a mitigação já ficou para trás. É algo fundamental tanto para nossas operações quanto para o que fazemos pelos nossos clientes e pelos países em que atuamos. Os sistemas energéticos do mundo, em grande medida hoje — um pouquinho mais de 80% —, são baseados em hidrocarbonetos e em sua emissão. A humanidade vive essa enorme dicotomia. Por um lado, a dependência extrema dos hidrocarbonetos. Por outro, nós estamos, francamente, como humanidade, rumando a uma profunda incerteza.

O sr. considera que a fase de mitigação já passou?

A vida econômica, a vida no planeta, certamente em regiões tropicais como o Brasil, não será a mesma nos cenários de 3 ou 4 graus de aquecimento médio. A nossa dependência da natureza é muito grande. Estamos, portanto, em época de adaptação. Nossa chance de mitigação ficou para trás. Vamos ter de falar de mitigação depois de se adaptar. Os sistemas energéticos no mundo correm nessa direção freneticamente. Sabendo disso, a Siemens Energy foi criada exatamente para focar nessas necessidades. Costumo dizer que mudança climática é o nosso negócio de todos os dias. É algo fundamental tanto para as nossas operações quanto para o que a gente faz pelos nossos clientes e pelos países que atendemos.

Dentro desse cenário, como o sr. vê o paralelo na busca por fontes de energia convencionais e renováveis?

O Brasil é uma potência energética em todos os aspectos, desde a geração eólica até a térmica. No entanto, houve uma adição de energias renováveis ao longo do tempo. Não houve uma transição completa, mas uma expansão. A demanda por energia aumentou e, por isso, todos os países estão investindo nas renováveis, mas também no gás, por exemplo, o que traz uma grande complexidade para as questões de segurança energética. Essa ideia está publicada em uma carta muito interessante escrita por Daniel Yergin (historiador econômico e consultor no setor de energia), na Foreign Affairs (revista publicada pelo Conselho de Relações Exteriores, uma instituição americana sem fins lucrativos). Como ele discute, não houve transição energética, mas adição energética.

A demanda por energia só cresce, é isso?

A humanidade está consumindo muito mais energia. A Agência Internacional de Energia acaba de publicar os dados de demanda global, e ela aumentou em todos os aspectos. Por uma razão: o mundo está cada vez mais se eletrificando — a eletrificação é a busca de eficiência energética. O ar-condicionado, por exemplo, é o grande causador de uma certa expansão do consumo de energia. Isso ocorre nesse ambiente de certa conturbação, certamente climática, que ninguém sabe para onde vai. E, ainda, com essas intempéries geopolíticas do momento, as nações estão preocupadas com a segurança energética. Os negócios em energia estão muito agitados. Todos os países estão investindo na transição energética. Os grandes investimentos são nas renováveis, mas está todo mundo investindo no resto também, com destaque para o gás.

O sr. compactua com o consenso de que o Brasil está bem posicionado nesse contexto energético?

O Brasil está bem estruturado. Hoje, temos uma matriz energética única no mundo, com quase 40% de energia renovável, principalmente eólica e solar. O Brasil tem grandes oportunidades para continuar expandindo sua rede e aproveitando as suas fontes renováveis. Estamos com uma grande disponibilidade de energia verde, e isso nos coloca como um lugar de baixo carbono para produzir diversos produtos.

E olhando para o futuro, quais fontes energéticas o sr. vê como promissoras para o Brasil, como eólica offshore ou hidrogênio verde?

O hidrogênio verde é um grande potencial. O Brasil tem um dos menores custos marginais para produzi-lo. O grande desafio é a criação do mercado para o hidrogênio. A eólica offshore (em alto-mar) também é promissora, mas nosso foco imediato deveria ser o aproveitamento da nossa excelente eólica onshore (em terra). O Brasil sempre foi uma potência em termos energéticos, e com essa grande disponibilidade de energia renovável, temos uma enorme oportunidade para ser um líder global na descarbonização, tanto no Brasil quanto na América Latina.

Como não se avança sem políticas públicas estruturadas, qual a sua visão sobre esse tema em termos nacionais?

A política industrial do Brasil, com a Nova Indústria Brasileira, é muito madura e bem estruturada. Ela nasceu de um diálogo franco entre o governo, a iniciativa privada e a academia. A visão é integrativa e multidisciplinar, abordando as questões de clima e energia de forma transversal.

Sobre a COP-30, que ocorrerá no Brasil, como o sr. vê essa oportunidade para o País?

A COP-30 no Brasil é uma oportunidade única. O Brasil tem um papel fundamental nas discussões sobre mudanças climáticas e sustentabilidade. Além disso, o Brasil já é uma potência em termos de serviços ambientais, recomposição florestal e captura de carbono. Será uma COP de implementação e penso que será muito pragmática e realista. Ela ocorre em momento crucial: dez anos após o Acordo de Paris, quando será feita a reavaliação das NDCs (compromissos nacionais de redução de emissões). Infelizmente, o mundo está muito atrasado nesses compromissos — o último balanço (Stocktake), feito na COP-28, mostrou que a humanidade está longe de cumprir suas promessas climáticas. O fato de ser realizada em um ambiente democrático também é importante. Por ser também a "COP das florestas", haverá uma grande oportunidade para o Brasil mostrar tanto os serviços ambientais que pode oferecer (como recomposição florestal e captura de carbono via soluções baseadas na natureza), quanto os desafios que enfrenta em relação ao desmatamento e uso da terra — não só na Amazônia, mas também no Cerrado, na Mata Atlântica. A preservação dos biomas é de interesse global, mas também estratégico para o Brasil. O País depende do regime de chuvas e da umidade amazônica que alimenta as chuvas do Centro-Oeste. Isso afeta o agronegócio, a produção de etanol e o funcionamento das hidrelétricas, que representam cerca de 60% da matriz elétrica brasileira e possibilitam a integração de solar e eólica.

Estadão
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