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Escassez de terrenos transforma quadras de tênis em símbolo de luxo em prédios de alto padrão

Incorporadoras buscam terrenos maiores para incluir quadras em projetos de luxo, aumentando o valor e a atratividade dos empreendimentos

21 fev 2026 - 05h41
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Desejadas por clientes endinheirados e negociadas como ouro por corretores imobiliários, as quadras de tênis ganharam status de luxo em empreendimentos de alto padrão. Em meio a uma acirrada disputa por terrenos em grandes centros urbanos, as incorporadoras passaram a buscar áreas maiores, mudar projetos e investir alto para incorporar o item de lazer.

Dados da consultoria Brain Inteligência Estratégica indicam que o número de novos lançamentos com quadras de tênis em São Paulo subiu de sete, em 2020, para 25, em 2025. O item está presente em 27% dos empreendimentos de luxo e superluxo lançados na capital paulista desde 2020.

O avanço caminha na esteira do aumento de praticantes do esporte globalmente. Segundo o relatório da International Tennis Federation de 2024, mais de 106 milhões de pessoas praticam o esporte regularmente, um avanço de 22% em relação ao relatório anterior, publicado em 2021. Na América do Sul, são 8,8 milhões de jogadores.

O aumento na popularidade, porém, contrasta com os desafios financeiros e de espaço para a prática: as quadras são um ativo disputado. "Não é fácil de praticar. Mesmo quem é sócio de um clube tem dificuldade para conseguir um horário", diz Victor Saad, diretor comercial da incorporadora Trisul.

"É essa escassez que faz com que este item de lazer agregue tanto valor aos condomínios", acredita Saad.

Desde 2024, a Trisul lançou quatro projetos com quadras de tênis, em bairros como Moema, Pinheiros e Vila Mariana. "Decidimos que todos os nossos condomínios de alto padrão contariam com este diferencial e passamos a comprar apenas terrenos acima de 2,6 mil metros quadrados".

Antes disso, o tamanho mínimo dos terrenos procurados pela companhia era de 1,6 mil m², ressalta o executivo. "Tentamos adicionar a quadra sem abrir mão de outros itens de lazer", diz. "Se o comprador pratica o esporte e tem dinheiro, ele não vai se interessar por um prédio que não tenha uma quadra".

Grandes terrenos, poucos moradores

Entregue em janeiro deste ano no Brooklin, na zona sul de São Paulo, o Arkadio EZ by Ott Brooklin é fruto deste ambiente. Com apartamentos de 105 m² a 180 m², o projeto apresenta como um dos diferenciais uma quadra de tênis de saibro com tamanho oficial. O item ocupa uma área de 648 metros quadrados em um terreno com 4.942 m² de área total.

De acordo com Tellio Totaro Jr., superintendente executivo de incorporação da Eztec, incorporadora responsável pelo projeto, a inovação atende aos anseios dos próprios clientes.

"Ouvimos potenciais compradores que topavam até migrar para um bairro vizinho caso tivesse quadra de tênis", diz. "Não posso te afirmar que o preço do metro quadrado aumenta, mas você amplia a quantidade de pessoas interessadas e a liquidez."

Desde 2021, a Eztec lançou pelo menos sete projetos com quadras de tênis. Alguns deles, em parceria com a Lindenberg. "A grande dificuldade mesmo é o terreno. Precisamos de uma área de pelo menos 4 mil metros para criar uma quadra".

A Lindenberg, por sua vez, apresentou no final de 2025 um edifício que tenta lidar com essa dificuldade espacial. O Lindenberg Moema incorporou uma quadra de tênis de tamanho oficial em uma estrutura na cobertura das outras áreas comuns.

Empreendimento da Lindenberg em Moema terá a quadra de tênis em área localizada sobre as demais áreas de lazer; apartamentos custam de R$ 14 milhões a R$ 16 milhões
Empreendimento da Lindenberg em Moema terá a quadra de tênis em área localizada sobre as demais áreas de lazer; apartamentos custam de R$ 14 milhões a R$ 16 milhões
Foto: Divulgação/Lindenberg / Estadão

Também em Moema, a Mitre Realty lançou dois projetos com quadra de tênis nos últimos dois anos. O diferencial da quadra de tênis, segundo Rodrigo Cagali, VP de Operações da empresa, passa pelo equilíbrio entre viabilidade financeira e estratégia de produto.

"A quadra de tênis agrega valor e fortalece o posicionamento do empreendimento como um produto mais completo e aspiracional", diz Cagali. "Por outro lado, é um investimento que exige área relevante, além de custos de implantação e manutenção, então precisa fazer sentido dentro da proposta e do estilo de vida do público-alvo", complementa.

Saúde e longevidade entram na conta do luxo

A procura por condomínios com quadras de tênis é construída a partir da percepção de que o luxo está cada vez mais ligado a bem-estar e tempo de qualidade. A perspectiva da corretora de imóveis Sophia Martins é que a régua do "alto padrão" mudou.

"A quadra sinaliza estilo de vida voltado à saúde, rotina e comunidade, e ajuda no "sim" na visita", diz. "Num mercado com muito produto parecido, esse tipo de diferencial funciona como desempate e melhora a liquidez", acrescenta.

A perspectiva de Martins é fomentada por Marcello Romero, CEO da imobiliária de luxo Bossa Nova Sotheby's International Realty. "Não me recordo de nenhum outro momento em que as quadras de tênis tenham sido tão procuradas. Hoje, este é um espaço muito importante nas torres que estão sendo erguidas", complementa.

E a pandemia ajudou a impulsionar este movimento. "A busca por atividades ao ar livre e saúde física dentro do ambiente seguro do lar se tornou prioridade", justifica Marcelo Parreira, gerente geral de incorporação da Tegra. "Ter uma quadra de tênis à disposição é o auge da conveniência para manter uma rotina saudável".

RIIO by Piero Lissoni, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, 4 a 5 suítes, com metragens de 262 m² a 506 m². Cobertura pode custar mais de R$ 51 milhões
RIIO by Piero Lissoni, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, 4 a 5 suítes, com metragens de 262 m² a 506 m². Cobertura pode custar mais de R$ 51 milhões
Foto: Divulgação/Tegra Incorporadora / Estadão

"A aposta em quadras de tênis reflete uma evolução no conceito de moradia de alto padrão, onde o condomínio deixa de ser apenas um local de residência para se tornar um 'resort urbano' completo", diz Parreira.

Luxo, bem-estar e exclusividade

À medida que o público se interessa mais pelas quadras de tênis, a tendência é que o item se torne mais comum nos condomínios. Segundo Paula Santoro, professora de Planejamento Urbano da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, este tipo de diferencial traz exclusividade aos moradores, mas tem prazo de validade.

"A quadra de tênis, assim como a sala de ginástica, o pet play e a churrasqueira, são diferenciais que fizeram o metro quadrado ser vendido mais caro. Porém, quando todo mundo começa a colocar os mesmos itens, como a academia, eles deixam de ser um diferencial", comenta.

Esse tipo de empreendimento também não colabora com a cidade, diz a urbanista. Ela acredita que a formação de condomínios-clube cria bolhas, alheias ao restante da comunidade.

"Quem está no condomínio, não sai para fazer compras, não sai para ir ao clube ou usar a academia de ginástica fora do condomínio", diz. "A quadra de tênis é o ícone de um processo em que os condomínios se tornam um pedaço exclusivo à parte da cidade", afirma.

Estadão
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