Pré-sal 20 anos: lições e desafios para a Margem Equatorial
Segurança energética, autonomia em insumos e desenvolvimento industrial devem ser o leme da Petrobras
A trajetória do pré-sal mostra que a atuação estratégica da Petrobras é vital para a segurança energética e o desenvolvimento nacional. Após anos de desinvestimentos e privatizações, a recuperação dos aportes em novas fronteiras, como a Margem Equatorial, busca repor reservas e impulsionar a indústria. Essa expansão exige que a estatal vá além do lucro de curto prazo, focando em soberania, inovação, transição para baixo carbono e sustentabilidade para garantir o futuro energético do Brasil.
Há 50 anos, o Brasil tomou a decisão estratégica de investir recursos e desenvolver tecnologias para reduzir sua dependência externa de petróleo. Esse processo levou à descoberta do pré-sal pela Petrobras, em 2006. Mais do que ampliar as reservas de óleo e gás (O&G), a decisão estatal converteu o incremento da produção em segurança energética, arrecadação pública, adensamento industrial, inovação e vetor econômico do desenvolvimento nacional nos anos 2000.
O poço pioneiro do pré-sal custou cerca de US$ 240 milhões e colocou o Brasil na vanguarda da exploração em águas ultraprofundas. Para viabilizá-lo, a Petrobras elevou os investimentos em exploração e produção (E&P) de uma média anual de US$ 1,7 bilhão nos anos 1990 para US$ 19,5 bilhões nos anos 2010.
A partir de 2014, a crise das commodities e a Operação Lava Jato reduziram a capacidade de investimento e ampliaram o endividamento da companhia. Posteriormente, mesmo com seu reequilíbrio financeiro, a estratégia empresarial foi reorientada para a geração de valor e redução do endividamento no curto prazo. Entre 2016 e 2022, privatizações, redução de investimentos e mudanças regulatórias contribuíram para a desnacionalização das reservas, enquanto a venda de 266 ativos desarticulou a integração vertical da estatal.
Em 2025, com o início da exploração na bacia da Foz do Amazonas, os investimentos em E&P alcançaram US$ 17 bilhões, indicando recuperação. A exploração de novas fronteiras envolve alto risco e longo prazo de maturação, mas esses investimentos permitem repor reservas e sustentar a cadeia de O&G.
Avaliar a Petrobras apenas por resultados financeiros de curto prazo é prejudicial para o País e para a empresa. O pré-sal demonstrou que projetos estruturais exigem visão estratégica, regulação, política industrial, capacidade de investimento e resultados econômicos positivos. Ademais, em tempos de guerra e crise climática, é preciso avaliar seu desempenho também por sua contribuição ao abastecimento, ao controle público das reservas, à inovação, à cadeia de fornecedores e à geração de emprego e renda, além de métricas de avanço em novas rotas tecnológicas de baixo carbono, descarbonização, eficiência energética e sustentabilidade.
Tais parâmetros devem orientar a atuação da estatal na Margem Equatorial. No atual contexto geopolítico, segurança energética, autonomia em insumos estratégicos e desenvolvimento industrial são retornos esperados de uma estatal de energia. Esse deve ser o leme da Petrobras de hoje e do futuro.
Ticiana Alvares e Mahatma Ramos são diretores técnicos do Instituto de Pesquisa em Petróleo, Gás e Biocombustíveis (Ineep)
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