Pix, às vezes, é vitima de fake news, diz o presidente do Banco Central
A declaração vem na esteira da notícia de que o BC estudaria trava de 72 horas para liberar transferências suspeitas, de modo que operações de risco teriam análise mais detalhada
No Febraban Tech, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, alertou que o Pix é alvo frequente de fake news e reforçou que anúncios oficiais ocorrem apenas pela diretoria da instituição. Ele destacou o papel da ferramenta na inclusão financeira da população de baixa renda, mas advertiu que o avanço veio acompanhado de maior acesso ao cartão de crédito e endividamento familiar. Galípolo defendeu uma gestão de risco mais rigorosa pelos bancos e o consumo consciente dos serviços financeiros.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse nesta segunda, 24, que o Pix é vítima de desinformação e fake news. Ele ressaltou que as novidades sobre o sistema de pagamentos instantâneos são comunicadas, de forma oficial, apenas pela diretoria da autarquia. Ele fez esse comentário na palestra de abertura do Febraban Tech, que se realiza desta segunda, 24, até a quarta-feira, 26, em São Paulo.
A declaração vem na esteira da notícia de que o BC estaria estudando uma trava de 72 horas para liberar transferências suspeitas pelo Pix, de modo que operações de risco teriam uma análise mais detalhada.
Sem especificar a qual notícia se referia, o presidente do Banco Central afirmou que o Pix às vezes é vítima de "fake news". "Às vezes tem jornais sérios, com bons jornalistas, que escutam alguma coisa e publicam uma notícia. Tivemos isso, inclusive, hoje. É superlegítimo. Às vezes o jornalista escuta realmente uma fonte. Mas é importante ver como o Pix resiste a isso", disse Galípolo, ao falar da confiança da população no Pix durante o discurso de abertura da Febraban Tech, feira de tecnologia da entidade que representa os bancos.
Ele lamentou que as informações sobre o Pix nem sempre sejam disseminadas de forma bem controlada. Galípolo ressaltou que o Banco Central só se manifesta oficialmente por meio de seus diretores e do presidente, orientando as pessoas a desconfiarem de notícias que usem verbos como "BC estuda", "prevê" ou "considera".
"Então, toda vez que tiver alguma dúvida sobre o Pix, sobre o que vai acontecer com o Pix, entre no site do BC. O BC do Brasil é dos mais transparentes do mundo", declarou Galípolo.
A inclusão financeira e bancária da população de baixa renda
Galípolo afirmou que o Pix foi responsável por um processo muito relevante de inclusão financeira e bancária, em especial entre a população de baixa renda. Ele alertou, porém, que esse avanço veio acompanhado de maior acesso ao cartão de crédito e de aumento do endividamento das famílias.
"A inovação do Pix ampliou também o acesso ao cartão de crédito", disse, ao defender que a ampliação do uso de serviços financeiros precisa ser acompanhada de um consumo mais responsável e de mecanismos de mitigação de risco.
Na avaliação de Galípolo, no Brasil a infraestrutura de pagamentos historicamente se misturou com a oferta de crédito, por conta de defasagens entre compra e liquidação, o que embute custo e risco no sistema. O Pix, afirmou, ajudou a reduzir esse tipo de fricção e a encurtar prazos, mas, "de maneira dialética", a inclusão resultante também ampliou o universo de pessoas com acesso ao cartão.
Segundo ele, mais da metade dos usuários de cartão de crédito no País carrega dívida, seja no rotativo, seja no parcelamento. "Retirar custo de risco do sistema é desejável, inclusive pelas instituições financeiras", afirmou, acrescentando que o risco que passa a se misturar com crédito não é algo que as instituições estejam acostumadas.
O tamanho do problema do endividamento
O banqueiro central ponderou que nem todo endividamento é, por definição, um problema. Para ele, é normal que a promoção do crédito leve ao aumento do endividamento e que não dá para ficar contente com a notícia de crescimento do crédito e depois reclamar do avanço da dívida.
O ponto central, disse, é quando as famílias se endividam para consumo efêmero e ficam mais expostas em um ambiente de juros altos. "Juros mais altos inibem dívidas", afirmou. Ainda assim, observou que a discussão hoje passa por entender por que a melhora recente de renda e de emprego não se converteu em redução do endividamento.
No diagnóstico apresentado no evento, Galípolo disse que o BC ainda enxerga processo de endividamento elevado com inadimplência crescente. Galípolo citou linhas de crédito que vêm pressionando o quadro, com destaque para o consignado privado, que, segundo ele, foi o maior fator recente de expansão do crédito às famílias.
Diante desse cenário, o presidente do BC defendeu que as instituições financeiras reforcem a gestão de riscos. "É muito importante que bancos estejam provisionados a riscos de seus serviços", afirmou.
O chefe do BC disse também que a instituição discute medidas macroprudenciais alinhadas a referências internacionais para conduzir a transição do modelo tradicional para o digital sem permitir que desequilíbrios se perpetuem.
Galípolo também observou que o esforço de segurança no sistema financeiro é contínuo. "Medidas de segurança não têm ponto de chegada, vão continuar", afirmou.
Ao final, reiterou que a inclusão é essencial, mas que é necessário avançar na "cidadania financeira", com uso responsável dos serviços, maior compreensão do perfil do tomador e alinhamento de preços ao risco.
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