Petrobras aumenta seu poder na Braskem. O que isso significa para a empresa e o mercado?
Mercado observa com cautela a possibilidade de dividendos mais modestos da Petrobras em meio à reestruturação da Braskem, que pode trazer sinergias e maior governança
RIO — Ainda em compasso de espera pelo plano da Petrobras para a Braskem, o mercado vê na reestruturação da petroquímica uma janela relevante de recuperação dos fundamentos da companhia. Entretanto, a perspectiva de maior poder de governança e sinergias que podem levar a mais investimentos por parte da petroleira desagrada investidores quando acompanhada da possibilidade de dividendos mais modestos por parte da estatal, segundo especialistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast.
Nesta semana, o Conselho de Administração da Petrobras se reuniu para mais uma apresentação sobre as medidas relacionadas à petroquímica. Para o analista da Levante Inside Corp, João Abdouni, a condução do processo pela Petrobras ao lado do fundo IG4 não apenas diminui o risco de crédito e torna menos custosa a rolagem de passivos, como também abre espaço para que outros entes da União, como Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil e Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), atuem na retaguarda do processo.
"Se o IG4 liderar o processo, a reestruturação tende a ser mais orientada ao mercado, com decisões mais duras, como a convocação de credores e a conversão de dívida em equity", comenta.
Sinergias
Pelo novo contrato de acionistas entre as duas companhias — Petrobras e IG4 —, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, ocupará, nos dois primeiros anos, a principal cadeira do Conselho de Administração da Braskem, posto que será alternado com a IG4, responsável, no primeiro mandato, pela presidência executiva da empresa.
O aumento do poder da estatal também tende a gerar projetos de integração entre refino e petroquímica, expansão e modernização de polos industriais, avanço da petroquímica verde e estímulo à substituição de importações, enumera o especialista em investimentos e sócio da Boa Brasil Capital, Marcos Bassani.
"Existe sinergia industrial e logística, especialmente pela proximidade entre refinarias da Petrobras e polos petroquímicos da Braskem, o que reduz custos e melhora a eficiência do sistema como um todo", pontua. "A Petrobras se beneficia com maior margem, diversificação do negócio e estabilidade de fluxo de caixa. A Braskem ganha escala, previsibilidade de insumos e competitividade, além de aprimorar sua narrativa de crescimento no longo prazo."
Para ele, o impacto para o investidor da Petrobras tende a ser neutro no curto prazo, mas positivo no médio e no longo prazo, com mais resiliência e criação de valor estrutural para a estatal.
Dividendos
O gestor de investimentos da Warren, Frederico Nobre, também ressalta que a parceria já existente justifica o movimento estratégico de longo prazo. "Faz sentido no portfólio", diz.
Porém, além dos fundamentos frágeis da petroquímica — caixa apertado, spreads negativos e limitação para honrar dívidas —, o ambiente macroeconômico é desafiante, com juros elevados e incerteza fiscal até a sucessão presidencial de 2026, acrescenta o líder da área de renda variável na Fami Capital, Gustavo Bertotti.
Nesse cenário, ainda que a recuperação judicial seja considerada relativamente remota pelo mercado, a Braskem precisa de aportes, o que pode levar a estatal a uma decisão impopular entre seus acionistas. "A tese da Petrobras está muito focada na questão dos dividendos. Um investimento maior na Braskem, possivelmente, aumentaria a dívida da estatal, implicando que a companhia pague menos dividendos", afirma Nobre, da Warren.
Para o BTG, cada US$ 1 bilhão alocados pela Petrobras em fusões e aquisições fora do core de exploração e produção — como projetos de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP), etanol, fertilizantes ou eventual apoio à Braskem — reduziria o retorno de dividendos em 0,5 ponto porcentual.
O mercado projeta que o apoio à Braskem demande valores entre R$ 5 bilhões e R$ 15 bilhões, a depender do foco: fortalecer o balanço ou também financiar crescimento. Ainda assim, na avaliação de Bassani, da Boa Brasil Capital, o impacto para o investidor tende a ser positivo diante da criação de valor estrutural para a Petrobras. "Para o investidor, um aporte bem estruturado tende a ser positivo no médio prazo, mesmo com possível diluição no curto prazo", sustenta.
Governança
Se, por um lado, a estatal passa a influenciar os investimentos da Braskem, concentrando-se em projetos de maior valor agregado, por outro, a discussão sobre a ingerência política da União também aparece no radar e impacta a decisão dos investidores, comenta Bertotti. Em sua avaliação, até que o desenho final da operação seja divulgado, a ação da Braskem permanecerá influenciada mais por manchetes do que por balanços. Segundo ele, a alta de cerca de 18% das ações neste mês se deveu mais à especulação do que a melhorias concretas.