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Ofensiva da Rede chancela discurso do Itaú que defendia pagamento em 2 dias

Ao Broadcast, Abipag avalia a ofensiva como um "ato anticompetitivo com o objetivo de destruir as fintechs e inibir a competição"

19 abr 2019
12h29
atualizado às 13h02
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O contra ataque da Rede no setor das maquininhas, isentando a antecipação de recebíveis, coloca em prática uma bandeira antiga do Itaú Unibanco que sempre defendeu o pagamento aos lojistas em dois dias e não em 30 como de costume no mercado brasileiro.

O movimento pode servir ainda de trampolim para a número dois do segmento voltar a ganhar market share depois de anos seguidos de perda de participação enquanto reestruturava sua operação.

No ano passado, após ajustes na Rede e reforço na equipe comercial, o banco conseguiu estancar a redução da sua fatia no mercado de adquirência, que movimentou R$ 1,55 trilhão. Atualmente, o market share da adquirente estaria ao redor dos 30%, segundo fonte do setor.

Na mira do Cade está avaliar se o Itaú adotou alguma conduta anticompetitiva ao oferecer condições comerciais melhores para sua base de clientes
Na mira do Cade está avaliar se o Itaú adotou alguma conduta anticompetitiva ao oferecer condições comerciais melhores para sua base de clientes
Foto: Divulgação/Rede / Estadão

Ao isentar a taxa de antecipação de recebíveis para clientes com faturamento anual até R$ 30 milhões e que recebem seus pagamentos no próprio Itaú, a Rede faz um contra ataque agressivo para ganhar escala, trazer mais clientes para dentro de casa e ainda fidelizar os que já têm em mãos.

A medida, que puxou para baixo as ações das concorrentes listadas em bolsa no Brasil e lá fora, abrange mais de 90% da base da adquirente, de acordo com uma fonte.

O que diz o Itaú Unibanco

O Itaú Unibanco e a Rede, braço de adquirência do banco, informaram ao Broadcast que a ofensiva comercial que isentará a taxa cobrada na antecipação de recebíveis do crédito à vista a partir de maio vale para qualquer cliente. A condição, conforme as instituições, não se restringe a um plano ou outro tanto por parte da relação bancária quanto do lado das maquininhas.

Segundo o Itaú e a Rede, a questão do Flex é apenas um detalhe operacional e esse era o nome dado ao produto que fazia a liquidação antecipada das transações com cartões de crédito à vista. Na prática, garantem que a taxa da antecipação será zerada a partir do dia 2 de maio tanto para quem já tinha o produto bem como para quem contratar a partir deste data.

O que diz o Cade

Por causa da repercussão do movimento, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) mandou ofícioquestionando o Itaú sobre o movimento. O banco e a Rede têm até 3 de maio para se posicionarem junto ao órgão antitruste, um dia após o início das novas práticas comerciais anunciadas ontem.

Na mira do Cade está avaliar se o Itaú adotou alguma conduta anticompetitiva ao oferecer condições comerciais melhores para sua base de clientes, preços predatórios, prática conhecida como dumping, além de venda cruzada.

Uma fonte explica, porém, que o movimento do banco se resume em uma condição comercial diferenciada, mas de livre opção ao cliente. É possível contratar as maquininhas da Rede, mas para ter acesso à isenção na antecipação de recebíveis o lojista precisa receber seus pagamentos no Itaú.

Ou seja, a vinculação é à condição comercial e não ao produto, como ocorre em alguns players deste mercado. Além disso, a isenção pode ser acessada por qualquer cliente, independente da maquininha ou da cesta de serviços contratada com o banco.

O que diz a Rede

Procurada, a Rede informou, em resposta ao Estadão/Broadcast, que está convicta de que a "medida beneficia milhões de clientes ao isentá-los de uma taxa que impacta de maneira relevante o pequeno e médio negócio, além de posicionar o mercado brasileiro em um patamar mais próximo das práticas internacionais". A empresa se compromete ainda a não alterar os demais preços praticados nem oferecer qualquer tipo de subsídio para compensar a taxa zerada no serviço de antecipação.

O Brasil é o único mercado que opera com pagamento em 30 dias, o chamado D+30, para as transações com cartões de crédito. No cenário internacional, a prática é de liquidação das operações em dois dias (D+2). O assunto está na pauta do Banco Central há algum tempo em linha com a agenda do regulador de aumentar a concorrência no setor de cartões, mas ainda não andou.

O entendimento de especialistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast é de que essa redução de prazo se dará a partir dos próprios players do mercado. Antes da Rede, a GetNet, do Santander Brasil, anunciou o corte nas taxas das transações nas modalidades de débito e crédito à vista para 2% e o prazo de pagamento de dois dias para microempreendedores individuais, os famosos MEIs, e pessoas físicas.

O movimento tende a impactar, entretanto, nas receitas de recebíveis de cartões de crédito das adquirentes. Essa é a razão, inclusive, para a derrocada das ações das empresas do setor com ações em bolsa. Apesar de abrirem mão de parte da receita, os grandes do mercado têm sinalizado a preferência por menores resultados no presente em troca de market share.

A líder do segmento, a Cielo, controlada por Bradesco e Banco do Brasil, também já declarou ser essa a sua estratégia. Tanto é que o mercado está à espera de um novo movimento que aqueça ainda mais a já intensa 'guerra das maquininhas'.

O que diz a Abipag

O presidente da Associação Brasileira de Instituições de Pagamentos (Abipag), Augusto Lins, avalia a ofensiva da Rede, do Itaú Unibanco, como um "ato anticompetitivo com o objetivo de destruir as fintechs e inibir a competição" no mercado de maquininhas.

Em nota à imprensa, divulgada na noite desta quinta-feira, 18, ele, que também é diretor comercial da novata Stone, uma das mais impactadas na bolsa após o anúncio da concorrente, classifica a iniciativa da número dois do setor como uma "propaganda duvidosa".

Para Lins, o fato de a Rede vincular a tarifa zerada de antecipação ao cliente que recebe seus pagamentos no Itaú representa "uma venda casada e uma política de preços predatórios".

"Ao invés de competir com as fintechs e insurgentes melhorando seus produtos e o serviço oferecido aos clientes, a estratégia do Itaú, com a Rede, é de usar seu poder econômico de forma abusiva para inibir a competição e restaurar o status de monopólio", avalia o presidente da Abipag.

Ele diz não acreditar que "atitudes anticompetitivas" irão prosperar no Brasil no cenário atual. Lembra que os "reguladores vêm claramente adotando políticas de estímulo à transparência e à concorrência para que o mercado se desenvolva e novos entrantes tenham possibilidade de inovar, com benefício direto aos consumidores".

Estadão
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