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'O shopping será cada vez mais um organizador do caos urbano', diz CEO da Allos

Segundo Rafael Salles, contexto dos centros de compra modernos ajuda a sustentabilidade do planeta

21 jul 2025 - 11h11
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Os shopping centers passaram por uma revolução durante a pandemia, com a transformação dos canais, cada vez mais digitais, com os consumidores. Mas há ainda desafios para o setor em relação ao tema da sustentabilidade, como descreve Rafael Salles, CEO da Allos, que administra centros de compras pelo País.

"O shopping será cada vez mais um organizador do caos urbano. Terá um papel social ainda mais relevante, ajudando a simplificar a vida nas grandes cidades", diz. Diante disso, segundo Salles, o objetivo passa a ser oferecer soluções com impacto positivo para lojistas, consumidores e para o ambiente em que está inserido.

Por serem verdadeiras cidades, por onde passam por mês centenas ou até milhões de pessoas, o uso da água e da energia é sempre um ponto crítico. Assim como a destinação do lixo gerado pelos shoppings. Em meio às discussões sobre a preservação do planeta, surge o questionamento de até que ponto o consumismo pode ser contraproducente.

Allos administra mais de 50 shoppings pelo País
Allos administra mais de 50 shoppings pelo País
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

Fruto da fusão entre a Aliansce Sonae e a brMalls, concluída em 2023, a Allos administra atualmente mais de 50 shoppings em várias regiões do Brasil.

A seguir, trechos da entrevista.

Qual o grau de prioridade que o grupo dá para o tema da sustentabilidade?

A gente tem uma agenda muito clara de sustentabilidade. Antes mesmo do nome ser talhado como sustentabilidade ou a sigla ESG se popularizar, as companhias que deram origem à Allos já tinham práticas de retribuição à sociedade e uma consciência ambiental muito forte. Práticas sociais, como acolhimento de comunidades impactadas pelos nossos empreendimentos, já aconteciam há anos. Em regiões com menor estrutura social, tínhamos até a responsabilidade de qualificar pessoas para trabalhar nos nossos shoppings.

A questão do consumo de energia e água são pontos centrais para a pegada de carbono de um shopping, ainda mais do porte que vocês administram. Quais são os números atualizados nesses dois casos?

Hoje, 87% da nossa energia já é renovável. A meta é chegar a 100% até 2030. Isso inclui fontes como hidráulica, solar e eólica. Temos desafios porque nossos shoppings estão espalhados por muitas regiões e nem todas têm acesso pleno à energia renovável, mas estamos avançando. Em Belém, por exemplo, onde será realizada a COP-30, já atingimos 100% de energia renovável e neutralizamos a pegada de carbono este ano.

Mas, além da mudança das fontes energéticas, há uma preocupação com a redução do consumo?

Temos iniciativas para redução do consumo, como a revisão da gestão de ar-condicionado e substituição de máquinas. Nossas expansões são feitas com cadernos técnicos que priorizam eficiência energética. No shopping de Franca, por exemplo, fizemos uma expansão que dispensou novos aparelhos de ar-condicionado, graças ao projeto arquitetônico. Além disso, implantamos energia solar no próprio telhado do shopping. Foi um marco: o primeiro shopping da companhia autossuficiente em energia solar.

No caso da gestão da água, quais os gargalos que existem?

O primeiro é estrutural: é preciso investimento e engenharia robusta para coleta, reúso e tratamento. Algumas regiões têm infraestrutura mais precária, então nós mesmos instalamos estações de tratamento. Também precisamos da conscientização dos lojistas e de todos os envolvidos para alcançar nossa meta: 90% de água de reúso nas áreas possíveis.

Vocês estão investindo também em mobilidade elétrica?

Criamos uma nova empresa, a KARG, de eletropostos nos nossos shoppings. Já somos o maior operador de eletropostos do Brasil, com mais de 200 pontos em operação em oito unidades. Alguns desses carregadores são abastecidos com energia solar. Isso estimula tanto o uso de veículos elétricos quanto a energia limpa.

Além da água e da energia, os shoppings também são grandes geradores de lixo. Qual a abordagem dada por vocês ao tema?

Hoje, recuperamos 62% dos resíduos por meio de reciclagem e compostagem. Em quatro shoppings já atingimos a meta de 90%, incluindo os dois de Belém. A operação exige logística integrada: do consumidor ao descarte, passando por lojistas e equipes de limpeza. Em alguns casos, temos compostagem interna; em outros, trabalhamos com parceiros. Alguns desses processos de compostagem ocorrem dentro do próprio shopping, e a matéria-prima deles volta para o início da cadeia, sendo usada nos jardins.

Por falar em Belém, vocês estarão fisicamente presentes na COP-30, reunião climática anual que será realizada em novembro na cidade?

É uma coincidência feliz que a COP-30 aconteça em Belém, onde temos dois shoppings. Isso nos motivou a antecipar nossas metas na região. Já participamos de edições anteriores da COP, apresentando projetos de sustentabilidade ambiental, gestão de resíduos, reuso de água e energia. Em Belém, teremos um espaço na Blue Zone (área oficial e diplomática da conferência do clima da ONU), com painéis sobre o papel dos shoppings como agentes de transformação e sustentabilidade nos negócios.

Haverá ações nos próprios shoppings de Belém?

Vamos promover experiências para os visitantes nos nossos shoppings. Teremos exposições culturais da Amazônia, um espaço com a National Geographic sobre mudanças climáticas e um lounge com transporte para credenciados da COP — para reduzir o impacto de deslocamentos individuais. Também treinamos 200 jovens do bairro do Benguí no aprendizado do inglês, para atuarem como atendentes multilíngues nos nossos shoppings.

Voltando para aspectos mais gerais do setor, como você define a evolução da sustentabilidade no setor da construção civil?

Evoluímos bastante nos últimos 5 ou 10 anos. Temos selos como LEED Green, certificações de neutralidade de carbono e um caderno próprio para construções e reformas com menor impacto ambiental. Ainda há desafios, porque a construção envolve muitos derivados de petróleo, mas estamos avançando e também adotando estratégias compensatórias.

E a pandemia, que afetou muito os shoppings, já ficou para trás? E qual legado ela deixou?

Foi a maior transformação dos últimos anos. A relação com o consumidor ficou muito mais digital. Hoje, integramos canais físicos e digitais — apps, reservas, SAC online, pagamento de estacionamento, entre outros. Temos hubs logísticos para delivery, inclusive de comida. Cerca de 30% das vendas são registradas pelos nossos aplicativos, com notas fiscais escaneadas pelos próprios clientes. Os shoppings continuam cheios, e as vendas por metro quadrado estão até 45% acima dos níveis de 2019. O que não significa que muitos negócios acabaram ficando pelo caminho.

O consumo enaltecido pelos shoppings não é uma contradição com a sustentabilidade?

Somos mais do que centros de varejo. Oferecemos saúde, bem-estar, educação, lazer, tudo num mesmo local, o que reduz deslocamentos e melhora a eficiência urbana. Temos lojas de moda second-hand e marcas parceiras que trabalham com produtos sustentáveis ou reutilizáveis. Também apoiamos iniciativas como o desapego, o uso circular de produtos. Os nossos shoppings têm serviços médicos, que não são necessariamente o consumo frugal, mas um consumo de necessidade. Nós temos serviços de diversas formas: de estética, dentários, temos academia, que é importantíssima para as pessoas manterem o seu bom lifestyle. Além disso, você ter uma jornada só, você ir de carro ao shopping, significa que você não precisará se deslocar novamente de carro para outros lugares. Isso tudo tem a ver com o consumo mais consciente e concentrado, de uma forma a ter menos impacto. Obviamente que uma empresa de shopping não pode achar que é ruim as pessoas consumirem, até porque quem consome, normalmente, fica feliz.

Qual é o futuro dos shoppings, dentro desse contexto de ajudar no enfrentamento da crise climática?

O shopping será cada vez mais um organizador do caos urbano. Terá um papel social ainda mais relevante, ajudando a simplificar a vida nas grandes cidades. Nosso objetivo é oferecer soluções completas, com impacto positivo para lojistas, consumidores e para o ambiente em que estamos inseridos.

Estadão
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