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O que o empreendedorismo por necessidade ensina à inovação

Referências fora do universo corporativo - e da caixa - mostram que a inovação está em todo o lugar

31 out 2023 - 06h20
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Foto: Kimberly Farmer / Unsplash

O empreendedorismo costuma chegar muito cedo para quem vive em comunidades periféricas. Karine Oliveira - ou Karine Wakanda, como ela prefere - conta que muitos anos antes de pensar em criar a Wakanda Educação Empreendedora, como boa filha da periferia, buscava formas de ganhar um trocado para jogar videogame ou alugar videocassetes [para aqueles que não conhecem a “tecnologia”, é disso aqui que estamos falando]. Karine coletava latinhas para vender o alumínio e carregava compras dos vizinhos do bairro, entendendo já na infância que dava para realizar certas atividades em troca de dinheiro. 

Já Gilson Rodrigues, presidente do G10 Favelas, além de enxergar no empreendedorismo a chance de ajudar sua própria família a mudar de vida, também percebeu cedo que faltava aos empreendedores da favela mais estímulos para que pudessem prosperar e se profissionalizar: “Na favela, 40% dos moradores vão empreender sem saber ao certo como fazer isso. E talvez a falta desse conhecimento, agravado pelo desemprego e outras questões sociais e econômicas, é que esteja impedindo que mais pessoas carentes possam ser empresárias”

“Inovação, para mim, é criar soluções para os problemas que existem. E o Brasil está cheio de oportunidades. Vivemos em um país rico em ideias e em recursos, como minérios, água, fauna e flora. Os empreendedores da periferia têm a oportunidade de olhar para tudo isso, que antes era colocado de lado, e inventar novas formas de ajudar a população a sair da pobreza”, diz Gilson Rodrigues.

O Brasil figura entre os países mais empreendedores do mundo, segundo o Global Entrepreneurship Monitor (GEM). Mas uma grande diferença em relação a outras nações onde a cultura da inovação se sobressai, é que por aqui existe a cultura da “ necessidade”, que passa, invariavelmente, pela resolução de problemas. 

O G10 Favelas, por exemplo, foi criado por Gilson para estimular a economia das comunidades do Brasil. Por si só, esse já foi um ato inovador, mas as soluções geradas carregam ineditismo não de ideia, mas de aplicação a um contexto. O Favela Brasil Express, por exemplo, leva o e-commerce onde os Correios não chegam e já gerou mais de R$ 1 bilhão em entregas. 

Já o G10 Bank oferece crédito para os empreendedores da favela e a Mais Favela TV conta histórias da comunidade para além do noticiário policial: “Nossas soluções surgiram não por falta de outras ideias, mas por uma segmentação de classes sociais que impede o carro de aplicativo de chegar na nossa porta, a entrega ser feita ou o crédito ser aprovado em grandes bancos. O que temos feito é criar soluções a partir de uma necessidade de uma população mais carente, que soma 20 milhões de brasileiros e representa 10% da população nacional.”   

Karine, por sua vez, só conseguiu seu primeiro emprego rotineiro quando começou a dar aulas e foi “apresentada” à palavra “empreendedorismo", em 2016: “Foi quando conheci o mundo das startups e de todas essas palavras em inglês que a acompanham.” Foram dois anos mais até a criação do Wakanda Educação Empreendedora.

Foto: Reprodução

Ação: a parte mais importante da inovação

Na Wakanda, a inovação partiu da linguagem. “Se você parar para pensar, verá que não construímos nada mirabolante. Nós apenas assumimos as variadas linguagens informais que existem Brasil afora ao invés de reprimi-las e afastá-las da educação. E é dessa forma que usamos esses recursos para explicar algo para um ouvinte mais interessado, já que ele reconhece elementos de sua própria vivência e, dessa forma, não há nenhum assunto que ele não possa compreender. Isso é acessibilidade linguística”, resume Karine. 

A necessidade ensina muito à inovação, especialmente por um fenômeno chamado ‘gambiarra’. Segundo Karine, dentro das comunidades isso funciona literalmente: imagine que o móvel de um morador quebrou. Por falta de grana, só resta usar a criatividade para criar uma forma de ou ganhar mais tempo de uso daquele objeto ou utilizá-lo para um novo fim e, assim, economizar dinheiro. 

E qual é a diferença entre gambiarra e inovação? Karine diz que, normalmente, o pensamento inovativo cria processos, patenteia e vende sua ideia. “Já aqui na periferia nós não temos nem noção do tamanho da criatividade do que a gente faz. Partimos sempre de uma única pergunta: por que não?”, resume. 

“Meu pai é mestre-de-obras e um especialista na arte da gambiarra. Ele pega geladeira e fogão que estão quebrados e, ao misturar os fios de uma outra maneira, cria novos eletrodomésticos para aumentar a vida útil daquele instrumento. E isso talvez seja uma das coisas mais legais que a inovação tem a aprender com a necessidade: o pensamento criativo para superar o obstáculo, que traça caminhos que nunca seriam colocados se houvesse recursos suficientes”, diz  Karine Oliveira.

Lições que a necessidade trouxe à inovação

• Por Karine Oliveira, CEO da Wakanda Educação Empreendedora 

  • “Gente engajada traz dinheiro, mas dinheiro nenhum paga engajamento”
  •  “Não tem dinheiro que pague uma pessoa que acredita em um propósito”
  • “Seja muito apaixonado pela sua ideia para que cada perrengue se torne gostoso de ultrapassar”
  • “Tenha uma rede de apoio. Empreendedorismo não é ação solitária, mas, sim, coletiva”

• Por Gilson Rodrigues, presidente do G10 Favelas

  • “É possível criar soluções para os problemas que já existem no Brasil. Não somos predestinados à situações de pobreza”
  • “Dinheiro no bolso transforma a vida e acaba com a pobreza nas comunidades”
  • “A melhor forma de mudar uma mentalidade é começar a encontrar novos caminhos. É assim que estamos criando novos modelos de negócio a partir da necessidade”

O que a inovação ensina ao empreendedorismo por necessidade?

O mais importante aprendizado, contudo, é saber que não existe caminho certo a seguir quando se fala em inovação. E isso é especialmente verdade quando você é pioneiro na sua família na arte de empreender, reforça Karine, convidando todos a acolher a cultura do erro: “Você vai errar e está tudo bem. A inovação nos ensina que o importante não é não errar. Mas aprender com o erro, consertar e tentar novamente.”

(*) Renata Armas é redatora do Unbox Project, uma iniciativa criada por Adriele Marchesini, Rodrigo Guerra e Silvia Paladino para desencaixotar o pensamento crítico que deve(ria) anteceder a inovação.

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