O que muda no bolso do consumidor brasileiro com a nova tarifa de 25% sugerida pelos EUA
Medida apresentada pelo governo norte-americano foi feita com base em uma investigação que iniciou em 2025
A proposta anunciada pelo governo dos Estados Unidos na noite de segunda-feira, 1º, sugere a imposição de uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A medida, que ainda não entrou em vigor, acendeu uma curiosidade: o que muda no bolso do consumidor brasileiro?
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Os primeiros que devem sentir a mudança são os setores exportadores diretamente ligados ao mercado norte-americano, com destaque para o aço e alumínio, que já convivem com sobretaxa de 50%, além de carne bovina, café, calçados, autopeças, máquinas e suco de laranja. Esses segmentos correspondem a US$ 37,7 bilhões exportados aos EUA em 2025.
O especialista André Matos, CEO da MA7 Negócios, explica ao Terra que, para o consumidor final, o impacto não chega nos preços das prateleiras imediatamente. Mas pelas portas do fundo, com menos dólares entrando no país, câmbio mais pressionado e, com defasagem de algumas semanas, inflação de importados, além da perda de empregos nos polos industriais que dependem dessas exportações.
"No supermercado, o efeito tende a ser limitado e até paradoxal, porque parte da carne, do café e da fruta que não conseguir ser exportada acaba ficando no mercado interno, o que pode até segurar preços de alguns itens. Já em eletrônicos, smartphones, eletrodomésticos e itens dolarizados como combustíveis, o consumidor sente sim, mas por uma via cambial e não por uma via tarifária direta", afirma.
De acordo com o especialista, o mais afetado pode ser o crédito porque, se a inflação subir por conta do câmbio, o Banco Central segura a Selic em patamar elevado por mais tempo, mantendo o cartão, o financiamento de carro e o crediário caros.
"O risco de inflação direta é baixo no curto prazo, porque o que sobe de preço com tarifa americana é o produto brasileiro lá fora, e não aqui dentro. O que pode encarecer é tudo aquilo que depende de dólar, então combustíveis, gás de cozinha, trigo, medicamentos, eletrônicos e equipamentos importados são os candidatos naturais a sentir o repasse", acrescenta.
A especialista Leticia Moschioni, sócia da Finscale, ressalta que essas tarifas podem elevar o custo de produção ou reduzir a demanda externa, pressionando as margens das empresas. Esse efeito nem sempre chega diretamente ao consumidor, mas pode se traduzir em ajustes de preço em insumos e bens industriais, contratos de fornecimento e, a médio prazo, nos produtos finais.
"O brasileiro médio provavelmente não sentirá efeitos imediatos no supermercado ou na compra de eletrônicos importados. O efeito direto é mais visível nas empresas que operam com margens apertadas ou em cadeias de produção dependentes de exportações. Se as tarifas forem mantidas e elevarem custos internos de insumos agrícolas e industriais, parte desse ajuste pode ser repassada ao consumidor ao longo de meses, especialmente em produtos processados, bebidas e itens alimentícios de consumo cotidiano", complementa.
Qual o pior cenário para o bolso brasileiro?
Para André Matos, o pior cenário não é uma alta isolada no supermercado, mas uma combinação de três frentes: dólar mais alto, com pressão sobre o IPCA pelos importados; desemprego concentrado nos setores exportadores afetados, principalmente no Sudeste industrial e no agronegócio; e Selic permanecendo em 14,5% ao ano por mais tempo do que o esperado, encarecendo o crédito e segurando o consumo.
"Nesse arranjo, o brasileiro perde poder de compra por três caminhos ao mesmo tempo, salário pressionado, preço de importados subindo e juro alto, e é justamente esse efeito acumulado que machuca o bolso, mais do que qualquer aumento pontual de produto na prateleira", diz.
Leticia Moschioni complementa que o efeito sobre serviços como transporte urbano ou produtos importados de tecnologia seria menor, mas o impacto acumulado no custo de vida seria percebido principalmente por famílias com renda média e baixa.
"O pior cenário ocorre se as tarifas forem altas, mantidas por longo período e combinadas com baixa capacidade das empresas de absorver custos. Podemos ver reajustes em alimentos industrializados, bebidas, produtos de papelaria, alguns materiais de construção e transporte de cargas. A inflação se tornaria setorial, concentrada em categorias que dependem de commodities brasileiras", afirma.
Como irá funcionar o novo tarifaço?
A medida foi apresentada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) após uma investigação iniciada em 2025 sobre práticas comerciais adotadas pelo Brasil. Antes da tarifa entrar em vigor, haverá uma consulta pública e uma audiência, que está prevista para julho. Caso a proposta seja aprovada, ela pode começar a valer a partir do dia 15 de julho.
O governo de Donald Trump aponta uma série de questões que, segundo o presidente norte-americano, prejudicariam empresas dos EUA. Entre elas, o comércio digital, os serviços de pagamento eletrônico como o Pix, o acesso ao mercado brasileiro de etanol, a proteção à propriedade intelectual e o combate ao desmatamento ilegal.
Apesar da proposta ser abrangente, alguns dos principais produtos exportados pelo Brasil para os Estados Unidos ficaram de fora do novo tarifaço, como café, carne bovina, suco de laranja, aeronaves e peças aeronáuticas.