'O Brasil tem uma oportunidade única no mundo: tem energia limpa em excesso', diz CEO da Schneider
Para Rafael Segrera, País está em um ciclo importante, 'jogando um grande jogo', e COP tem de ser uma conferência de ação e virada, 'com impacto real e decisões concretas'
As ferramentas de tecnologia artificial só existem porque os data centers estão se espalhando pelo mundo. Esses conglomerados exigem o suprimento ilimitado de energia e de água, exatamente para refrigerar as máquinas que operam ininterruptamente. Eis uma encruzilhada complexa. Se a inteligência artificial pode ser importante para melhorar a eficiência energética, ela vai precisar cada vez mais de energia para crescer e florescer.
O dilema está sobre a mesa de gigantes como a Schneider Electric, fabricante de materiais elétricos, assim como a questão da transição energética em si. Até que ponto a velocidade dos processos estão dando conta dos impactos já presentes das mudanças climáticas globais?
O venezuelano Rafael Segrera, presidente da Schneider Electric para América do Sul, explica como o grupo francês — ligado a inovações tecnológicas seculares — está lidando com os negócios, em um cenário onde a sustentabilidade não pode mais ser considerada algo secundário.
Os potenciais do Brasil, que são muitos, estão ainda bem abaixo do teto, explica Segrera, que vive no Brasil há quase seis anos.
Leia a seguir trechos da entrevista, que pode ser assistida acima, na íntegra, em vídeo.
Podemos falar que o mundo vive uma transição energética, ou se trata apenas de uma adição?
Sim, há progresso. Há mais conscientização e mobilização. Mas o grande desafio é a velocidade. Quando falamos de combustíveis fósseis na matriz energética, a discussão é: vamos ou não sair deles? As nações buscam segurança e confiabilidade energética, e isso ainda exige uma matriz onde os fósseis desempenhem um papel, pelo menos no curto e médio prazo. Eles não são os vilões absolutos. Sim, combustíveis fósseis produzem CO2 em excesso, mas os produtores também estão buscando formas de reduzir o impacto, diversificar sua produção e eletrificar processos. Há um esforço em curso. A demanda por energia só cresce — por questões demográficas e de desenvolvimento econômico. A eficiência no uso da energia é chave. Não basta olhar apenas para a produção e o tipo de energia, mas também para como ela é usada. O uso eficiente tem um grande impacto na sustentabilidade. Estou há quase seis anos no Brasil, sou naturalmente otimista, e o entusiasmo brasileiro me contaminou. Estou vendo a mobilização para a COP e estamos em um momento de enorme importância para o planeta — e, por consequência, para o Brasil, como país anfitrião do evento.
O quanto a sustentabilidade está entre as prioridades do grupo?
A sustentabilidade e o ESG estão no centro da nossa estratégia há mais de 20 anos. E quando a gente diz que está no centro, é porque é uma prioridade absoluta. A Schneider é uma empresa de tecnologia que atua na gestão de energia, automação e digitalização, sempre com uma camada de software e serviços integrados. Tudo que fazemos — softwares, serviços, produtos e sistemas — é voltado para gestão de energia e automação. Nosso objetivo é ajudar os clientes a produzir mais utilizando menos, ou seja, promovendo sustentabilidade por meio de eficiência. É fundamental saber medir a pegada de carbono. É preciso ter uma linha de base, saber o que está sendo feito e como podemos ajudar a melhorar. E não só em relação à pegada de carbono, mas, ainda mais importante, à eficiência dos processos. Para isso, o digital é essencial. Sustentabilidade passa por usar energia, tecnologia e recursos de forma eficiente. Isso é uma jornada.
O investimento e o desenvolvimento de tecnologias voltadas para o crescimento de data centers, um dos grandes negócios para vocês, não é um contrassenso? Ainda mais por causa da demanda energética e por água que esses projetos demandam?
Hoje, o setor de data centers representa mais de 25% do nosso negócio global, com uma receita de mais de 38 bilhões de euros por ano. Esses centros são fundamentais para o avanço da inteligência artificial, machine learning e outras tecnologias emergentes. Mas também são os maiores consumidores de energia — e de água, principalmente para refrigeração.
A Schneider tem atuado junto a empresas como a Nvidia para tornar os data centers mais eficientes, tanto no uso de energia quanto de água. Trabalhamos com a ideia de "energia para a IA" e "IA para a energia", ou seja, usamos inteligência artificial para otimizar o uso energético. Estive recentemente numa reunião com o ministro (Fernando) Haddad, em Palo Alto, com grandes players globais. O Brasil tem uma oportunidade única: tem energia limpa em excesso. Se soubermos usar isso para alimentar data centers e exportar dados, estaremos exportando energia limpa — e fazendo isso de forma sustentável.
Nessa linha, quais são os obstáculos mais imediatos a serem enfrentados?
O sistema fiscal brasileiro ainda é complexo. Precisamos de reformas que simplifiquem o processo, que reduzam impostos sobre importações, como os chips e GPUs — fundamentais para a operação dos data centers. Hoje, 70% do custo operacional de um data center vem da energia. Ou seja, a gestão energética precisa ser de altíssimo nível, com fontes limpas e tecnologias de refrigeração e distribuição de primeira linha. E nisso o Brasil tem potencial, sim.
Mão de obra é um gargalo importante no curto prazo?
Precisamos de eletricistas — mais de 2,5 milhões no mundo, segundo a IEA. Mas o eletricista de hoje tem que entender de digital também. Não basta saber instalar — precisa saber lidar com sensores, algoritmos, inteligência artificial. Quando se instala um carregador de carro elétrico ou um sistema solar doméstico, por exemplo, é preciso saber integrar tudo isso de forma inteligente. Estamos trabalhando para desenvolver essas competências, porque essa é uma das áreas com mais impacto na geração de empregos.
Você acredita que o Brasil está se preparando bem para a COP em Belém?
Sim. O Brasil está em um ciclo importante, depois do G20, do B20, agora os BRICS, e a COP. Está jogando um grande jogo. Os líderes envolvidos, como o embaixador Correia Lago, Ana Toni, Dan Ioschpe, estão atuando com grande competência. A escolha de Belém tem razões e vai ter impacto positivo. Claro que há desafios, como logística e infraestrutura, mas é importante que o mundo veja a realidade da Amazônia. Não se pode falar da Amazônia sem conhecê-la. Ela tem muitas faces.
Qual é o papel da COP nesse momento geopolítico?
A COP tem de ser uma conferência de ação, de virada, com impacto real e decisões concretas. Mostrar o que já funciona, o que não funciona e o que precisa ser feito. Há um exemplo interessante disso vindo da CNI, que lançou o "Sustainability Business Call", iniciativa liderada por Ricardo Mussa. CEOs estão liderando diferentes pilares para gerar recomendações concretas para a COP. O setor privado é responsável por 80% das emissões, então tem um papel crucial a desempenhar. Temos que ser pragmáticos. Sustentabilidade só se mantém no tempo se gerar benefícios para todos. Estou liderando o pilar "people", que trata de green skills — competências verdes, essenciais para o sucesso da transição. No fim, tudo depende das pessoas. Essa iniciativa é concreta, dinâmica, e estou dedicando muito tempo a ela porque acredito no impacto real. São ações que se aplicam ao agro, à transição energética, à infraestrutura, à bioeconomia. O setor privado está engajado, mas também há o mundo político, com suas negociações. Os líderes escolhidos são de altíssimo nível. A ideia é que essa iniciativa seja permanente, que vá além da COP. É um momento especial, com tensões geopolíticas e econômicas, o que torna o debate sobre o futuro do planeta — e das pessoas — ainda mais urgente.
Estamos enfrentando bem o desafio de trazer os temas e debates da COP para o dia a dia das pessoas?
Existe essa intenção clara de traduzir todos esses temas para o grande público e isso é muito importante, porque estamos falando do futuro do planeta e das pessoas. É isso: como tudo isso impacta a minha vida, minha família, meu negócio. Como fazer com que as pessoas apoiem essa agenda. Gosto muito de uma iniciativa nossa com a Fundação Amazônia Sustentável (FAS). Atuamos em comunidades ribeirinhas, levando energia limpa — no nosso caso, solar. Mas o mais importante não é apenas a energia em si. É o que ela proporciona: acesso ao digital, à internet, à saúde, ao estudo, ao lazer e, claro, aos negócios. Quando alguém tem energia, pode usar uma maquininha de cartão, produzir, vender, gerar renda. E, quando há atividade econômica sustentável, o incentivo ao desmatamento diminui. A floresta se torna fonte de renda, e quem mora lá vira guardião dela. O impacto é transformador. Já visitei várias dessas comunidades e é impressionante ver como a energia — ou a falta dela — muda tudo. É por isso que esse tipo de projeto precisa ser durável e replicável. Estamos empenhados em ampliar esses casos.
O que o cidadão Rafael Segrera espera da COP-30?
Tenho cinco filhas, e filhas que, se Deus quiser, vão ter mais filhos. São gerações que vão seguir. Neste país, sou um admirador e amo o Brasil. Conheço o Brasil faz muito tempo e vejo a evolução. Mas o potencial do país ainda não está no máximo que pode ser atingido. E o mundo, o planeta, também precisa de ações mais fortes, com uma visão mais holística, onde o ambiente, o social, a governança sejam consideradas. O mundo empresarial faz parte disso. Precisamos de líderes. Não estou falando de pessoas, mas falando de nações líderes. O Brasil pode ser um exemplo de bioeconomia, o exemplo da transição energética. O precisa é de mais educação. Nisso, estamos longe ainda. Educação concreta, que dá valor, não a educação do passado. A COP vai ser um momento de criar ou mostrar para o mundo como essas nações podem, com uma visão sustentável, ter uma dinâmica global melhor. E para o bem de todos. Não podemos deixar ninguém fora da ideia de que toda essa revolução tecnológica será boa para todos. A humanidade tem mostrado que a tecnologia só faz bem se a gente a utiliza bem.