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Mercado de trabalho perde fôlego apesar de desemprego recorde, diz pesquisador da FGV

Fernando de Holanda Barbosa Filho projeta aumento do desemprego ao longo de 2027, mas ressalta que indicador não deve voltar a dois dígitos, mesmo diante da perspectiva de desaceleração econômica

30 out 2026 - 13h22
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Resumo
Apesar do desemprego atingir a mínima histórica de 5,2% no terceiro trimestre, o mercado de trabalho dá sinais de desaceleração, aponta o Ibre/FGV. A geração de vagas perdeu fôlego, com o crescimento anual da ocupação caindo para 1,2%. Diante de juros altos, menor ritmo econômico e o fim de estímulos fiscais, a tendência é de reversão gradual e aumento da desocupação em 2027, embora sem retornar aos dois dígitos, além de um possível freio no ciclo de cortes da Selic pelo Banco Central.

RIO - A desaceleração do mercado de trabalho deve ganhar força nos próximos meses, diante da perspectiva de menor crescimento da economia, juros elevados e reversão do impulso fiscal, avalia Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador sênior da área de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Apesar de a taxa de desemprego ter recuado para 5,2% no terceiro trimestre de 2026, o menor patamar para esse período desde o início da série histórica, iniciada em 2012, o resultado não representa uma aceleração expressiva na geração de vagas, segundo o economista. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No trimestre encerrado em setembro, a população desocupada somou 5,6 milhões de pessoas, uma redução de 4% em relação ao trimestre anterior, equivalente a 234 mil pessoas. Na comparação com igual período de 2025, a queda foi de 6,9%, ou 417 mil pessoas.

População ocupada chegou a 103,6 milhões de pessoas, maior contingente da série histórica
População ocupada chegou a 103,6 milhões de pessoas, maior contingente da série histórica
Foto: Paulo Vitor/Estadão / Estadão

A população ocupada, por sua vez, chegou a 103,6 milhões de pessoas, o maior contingente da série histórica iniciada em 2012. O avanço foi de 0,6% na comparação trimestral, com acréscimo de 581 mil trabalhadores. Em relação ao terceiro trimestre do ano passado, o crescimento foi de 1,2%, equivalente a 1,2 milhão de pessoas.

Para Barbosa Filho, porém, o ritmo de expansão da ocupação mostra uma perda de fôlego do mercado de trabalho. "Há um processo suave de desaceleração do mercado de trabalho, com menor geração de emprego. A taxa de crescimento da ocupação, que chegou a superar 2,5% há dois anos, está agora em 1,2%. Esse movimento é compatível, inclusive, com os dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados)", disse ao Estadão/Broadcast.

O pesquisador projeta aumento da taxa de desemprego ao longo de 2027, mas ressalta que o indicador não deve voltar a dois dígitos, mesmo diante da perspectiva de desaceleração econômica.

Um dos fatores que devem contribuir para essa mudança é a reversão do impulso fiscal observado ao longo deste ano. Segundo Barbosa Filho, a expansão fiscal ajudou a sustentar o aquecimento da atividade econômica, em um cenário de inflação resistente e desemprego baixo.

"O impulso fiscal que observamos ao longo do ano, que ajudou a manter a economia mais aquecida, a inflação com maior dificuldade de ceder e a taxa de desemprego baixa, deve ser revertido ao longo de 2027", diz.

Barbosa Filho também ressalta que a taxa de desemprego com ajuste sazonal já se encontra em um nível muito baixo, o que reduz a perspectiva de novas mínimas nos próximos meses.

"Não vejo indicação de que a taxa vá bater um novo recorde. Ela já está em um patamar extremamente baixo. O que esperamos é uma reversão gradual nos próximos meses", afirma.

Entre os fatores que devem pesar sobre o mercado de trabalho estão a manutenção dos juros em patamar elevado e a expectativa de ajuste fiscal. O pesquisador destaca a influência da política monetária sobre a atividade econômica e aponta incertezas quanto à condução das contas públicas.

"A expectativa do mercado já se reverteu por conta do resultado da eleição, até que o governo consiga comunicar de forma clara seu compromisso com algum ajuste fiscal", afirma. Na avaliação do economista, esse cenário também pode levar o Banco Central a reduzir o ritmo de cortes da taxa básica de juros ou interromper o ciclo de queda.

Estadão
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