Lula dará uma boa resposta a Galípolo se cuidar melhor do dinheiro público
Presidente do BC perguntou por que o Brasil precisa de juros tão altos para buscar a meta de inflação; resposta mais fácil remete à gastança, mas assunto é mais complicado
Mais que um desafio, o presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, propôs uma boa discussão sobre o crescimento econômico ao perguntar, de um jeitão um tanto retórico, por que o Brasil precisa de juros tão altos para buscar a meta de inflação de 3%.
A resposta mais fácil, mas incompleta, remete à gastança federal e à aparente despreocupação do governo quanto aos efeitos monetários de suas políticas. Se a despesa se expande sem aparente preocupação do Executivo, resta ao BC tentar uma compensação por meio de um aperto monetário.
Mas o assunto é mais complicado. As obrigações do governo vão além das metas físicas e contábeis e das boas normas financeiras, como sabem os guardiões da moeda.
Muito mais importante que o desafio da inflação é o de saber como combinar crescimento econômico, estabilidade monetária e previsibilidade para a formulação e a implementação de planos e programas. Não só para o governo, mas também para o empresariado e para os chamados "cidadãos comuns", a previsibilidade é necessária à definição de roteiros e à condução segura e "normal" das atividades.
Não há como conceber uma política eficiente de estabilidade monetária, num país em desenvolvimento, sem associá-la a um esforço igualmente sério de modernização e expansão da atividade produtiva. Basta o aumento populacional para o crescimento e a modernização se tornarem necessários, talvez indispensáveis, à estabilidade social e política. Bem-estar e multiplicação de oportunidades são componentes obviamente indispensáveis a esse quadro.
Não cabe aos administradores da moeda cuidar das políticas de expansão e transformação do aparato produtivo. Não lhes cabe sequer proporcionar, de forma voluntariosa, a segurança necessária à produção e à comercialização de bens e serviços. Podem ser responsáveis pela gestão do sistema monetário, administrando a emissão do dinheiro, regulando o crédito e ajustando o sistema aos objetivos de estabilidade dos preços e de promoção do emprego.
O bom exercício dessas funções é normalmente favorecido, segundo a experiência internacional, pela independência — no mínimo operacional — de cada BC. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem dado sinais, ao contrário de vários outros petistas e do presidente americano, Donald Trump, de haver entendido a importância dessas limitações.
O presidente do BC, Gabriel Galípolo, já agradeceu ao presidente da República por seu comportamento, geralmente contido, em relação às decisões sobre a política monetária. Esse comportamento foi geralmente mantido mesmo com a elevação dos juros básicos, no ano passado, para 15%, a taxa mais alta desde 2006.
Com a inflação aparentemente em recuo, o afrouxamento da política de juros poderá finalmente começar, provavelmente a partir de março. Mesmo com a redução, a taxa básica permanecerá bem acima dos padrões internacionais durante muitos meses. Mas esse afrouxamento poderá ser prejudicado se o governo for imprudente durante a campanha eleitoral. Isso ocorrerá se o presidente for indiferente, muito mais do que tem sido, à orientação de seus melhores conselheiros econômicos.