Infraestrutura ameaça esforço olímpico do Brasil
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São 20h no movimentadíssimo Aeroporto Internacional de São Paulo. Marvin Curie, vendo todas as cadeiras à sua volta ocupadas, decide juntar-se a outras dezenas de executivos em trânsito e senta-se no chão. Isso até um misterioso líquido cor de café começar a vazar do banheiro masculino mais próximo. "Oh, Jesus!", exclama Curie, levantando-se. Ele olha as calças em busca de manchas - nada.
"Odeio este lugar", diz o executivo da indústria farmacêutica americana, apontando para a pintura descascada, as luzes intermitentes e, acima de tudo, a multidão. "Você poderia pensar que um País como o Brasil já teria arrumado isso."
De fato, cenas como essa podem se tornar parte do passado. O Brasil planeja investir nesta década mais de US$ 1 trilhão em obras para modernizar seus aeroportos, rodovias e outros itens de infraestrutura - um ambicioso "boom" que preparará o País para sediar a Copa de Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016, fornecerá uma série de oportunidades para os investidores estrangeiros e garantirá o lugar do Brasil entre as economias emergentes mais dinâmicas do mundo.
Na realidade, as expectativas estão se desfazendo, e rápido. Os grandiosos planos do Brasil para a infraestrutura agora parecem que ficarão aquém das ambições da presidente Dilma Rousseff, de acordo com uma investigação da
Reuterssobre os grandes projetos de construção e entrevistas com quase duas dúzias de importantes líderes políticos, investidores, órgãos de supervisão, entre outros.
Até mesmo os principais integrantes da equipe de Rousseff começam a expressar dúvidas. "Precisamos começar a controlar as expectativas das pessoas", disse o ministro dos Esportes, Orlando Silva, que supervisiona os preparativos para a Copa do Mundo e as Olimpíadas. "A ideia de que em apenas quatro anos compensaríamos 30 anos sem investimento em infraestrutura provavelmente nunca foi realista."
Numerosos projetos de alta visibilidade são vítimas de uma longa lista de problemas, como corrupção, burocracia, recursos insuficientes e, acima de tudo, uma patente falta de liderança e de "know-how". De acordo com algumas estimativas independentes, menos da metade dos principais projetos planejados será concluída no prazo.
A menos que Dilma Rousseff e outras autoridades ajam prontamente para superar os obstáculos, os investidores precisarão repensar suas previsões econômicas mais otimistas para o longo prazo no Brasil. Os atrasos também suscitam questionamentos sobre se as expectativas não estão muito altas para as democracias dos mercados emergentes de forma geral, como Índia e África do Sul, que tentam suprir a demanda de sua crescente classe média sem a capacidade da China de implementar soluções rápidas de forma autoritária.
Há tantos grandes projetos atrasados atualmente que Pelé, a lenda do futebol brasileiro, alertou em fevereiro que o país corria o risco de "se envergonhar" durante a Copa do Mundo.
O estádio que abrigará a partida de abertura do torneio em São Paulo ainda não saiu do papel, resultando de uma polêmica entre o poder público e a Fifa. Mas esse é apenas o problema mais visível. Pelé e outros dizem que o transporte rodoviário e aéreo, as redes de comunicação, entre outras, poderão simplesmente entrar em colapso com a demanda extra da Copa, a menos que sejam feitos avanços a um ritmo que, até agora, o Brasil não se mostrou capaz de seguir.
Orlando Silva ouve as advertências e está preocupado. O unico ministro do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) se viu na posição improvável de ser um dos principais defensores do investimento privado, fazendo campanha pelo país e reunindo-se com governadores e prefeitos num impetuoso esforço de última hora para desembaraçar questões jurídicas e regulatórias - e, com frequência, bloqueios mentais - que impedem o progresso.
Mas as coisas ainda caminham tão bem
"As pessoas finalmente estão começando a perceber que nosso tempo está acabando... que precisamos fazer mais e mais rápido", disse Silva. "Mas os recursos são escassos. E o trabalho é difícil."
Como que para ilustrar seu ponto de vista, durante uma entrevista num restaurante em São Paulo, Silva viu um senador do Ceará com o qual havia se encontrado no dia anterior durante reunião especialmente polêmica sobre os preparativos para a Copa do Mundo.
"Então", disse o senador Inácio Arruda (PCdoB), sorrindo maliciosamente, "vamos ter a Copa ou não?"
"Você está preocupado?", disse Silva.
"Você está nos deixando preocupados."
"Vai dar tudo certo", respondeu Silva, batendo nas costas dele. "Mas vamos precisar de ajuda."
Silva pode estar certo. Mas o dilema real do Brasil é: se é tão difícil construir um estádio novo ou um aeroporto antes da Copa do Mundo, quando o mundo inteiro está observando, então o que acontecerá aos projetos que importam de fato? Ou seja, e os portos, refinarias e estradas de ferro que são cruciais para que o Brasil acabe com os gargalos que permanecem entre ele e o status de país desenvolvido na década que vem?
"As pessoas não discutem isso abertamente, talvez porque os brasileiros prefiram ser otimistas...(mas) a verdade é que estamos observando uma mudança importante nas expectativas", disse André Glogowsky, diretor-presidente da Hochtief do Brasil, uma das maiores construtoras do país, que constrói barragens e outros grandes projetos de infraestrutura.