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Entenda por que o Pix entrou na mira de Trump em investigação comercial contra o Brasil

Governo norte-americano propôs taxa de 25% sobre produtos brasileiros após identificar 'práticas que oneram ou restringem o comércio dos EUA

2 jun 2026 - 13h06
(atualizado às 13h19)
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EUA concluem investigação, alegam ‘práticas incoerentes’ e propõem tarifaço de 25% ao Brasil:

O Pix voltou ao centro do debate entre os Estados Unidos e o Brasil. Isso porque o Escritório de Comércio do governo norte-americano (USTR) acusou o Banco Central (BC) de favorecer o sistema de pagamentos, o que teria gerado prejuízo de empresas dos EUA que atuam no mesmo setor. 

Diante da investigação que começou em julho do ano passado, na noite desta segunda-feira, 1º, o governo de Donald Trump anunciou uma proposta para impor uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, ampliando a tensão comercial entre os dois países. 

"O Brasil parece se envolver em uma série de práticas desleais em relação a serviços de pagamento eletrônico, incluindo, mas não se limitando a favorecer seus serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo", disse o USTR.

A medida é baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 dos EUA, que pode ser usada para responder a tais práticas “desarrazoadas ou discriminatórias de governos estrangeiros”, que supostamente oneram ou restringem o comércio dos EUA. O tarifaço pode atingir indústria e ter efeitos políticos no País

Donald Trump em seu gabinete em Washington
Donald Trump em seu gabinete em Washington
Foto: Evan Vucci / Reuters

Concorrência com empresas dos EUA

Implementado no final de 2020, o Pix se tornou um dos principais meio de pagamentos do Brasil. Cada vez mais utilizado pelos brasileiros na hora de pagar contas e transferir dinheiro, a ferramenta de pagamento instantâneo foi criada pelo Banco Central (BC) e não tem taxas, diferente de TED, DOC e cartões de crédito. 

Para a economista e coordenadora do curso de Economia do Insper Juliana Inhasz, é difícil sustentar que o BC esteja favorecendo o sistema de pagamentos no País ou mesmo uma empresa ou um grupo específico de empresas.

Ela aponta, inclusive, que a ferramenta é  semelhante ao que diversos países vêm desenvolvendo para modernizar seus sistemas financeiros, aumentar a concorrência, universalizar a bancarização e reduzir custos para consumidores e comerciantes. 

“O que aconteceu, na prática, foi que o Pix se tornou eficiente e popular, ganhando espaço que antes era ocupado principalmente por meios de pagamento tradicionais, como cartões de débito e transferências bancárias, cujas empresas tinham capital internacional. Isso naturalmente afetou modelos de negócio de empresas que atuam nesses segmentos”, explica. 

A especialista ainda esclarece que essa questão decorre muito mais da eficiência, baixo custo e facilidade de uso do que de alguma restrição imposta a concorrentes estrangeiros. Embora as empresas americanas continuem operando no mercado brasileiro da mesma forma que antes, passaram a enfrentar uma concorrência mais forte de uma infraestrutura pública que se mostrou bastante competitiva. 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante Encontro com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante Encontro com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
Foto: Ricardo Stuckert / PR

“Na prática, estamos falando de alocações mais eficientes do mercado, e não de uma interferência específica do governo”, pontua. 

Pressão das empresas norte-americanas

Com o Pix, o mercado de pagamentos alterou e reduziu a dependência de mecanismos que tradicionalmente geravam receitas para bancos e bandeiras internacionais de cartões de crédito. Conforme a economista, é natural que empresas afetadas pela mudança pressionem o governo americano a defender interesses comerciais. 

“Isso não ocorre apenas no Brasil. Os Estados Unidos historicamente incorporam demandas de empresas nacionais em suas negociações comerciais com outros países. Além disso, a discussão acontece em um momento mais amplo de tensão envolvendo regulação digital, plataformas tecnológicas, meios de pagamento e soberania de dados”, expõe. 

Por isso, a questão do sistema de pagamento criado pelo BC acaba se misturando a debates maiores sobre o papel das big techs (como Google, Meta, Amazon, Microsoft, etc), a regulação dos mercados digitais e a crescente preocupação de vários países em desenvolver infraestruturas próprias para reduzir dependências externas, segundo Juliana. 

Há razões para questionar o sistema de pagamento brasileiro?

Conforme André Perfeito, diretor e economista da Garantia Capital, dentro da ótica do país norte-americano, eles estão certos em questionar, já que o Pix “atrapalha” empresas de intermediação financeira. Mas o especialista faz o questionamento: por que o Brasil vai abrir mão de um meio de pagamento tão mais eficiente que os outros? Em nome do quê? 

Foto: Reprodução

“Se todo sistema capitalista busca maior eficiência, aí quando você descobre uma maior eficiência, você tem que tirar pra manter a ineficiência pra alguém ganhar dinheiro sim? Não parece correto. É como se todo mundo exigisse que se comesse só batatas, porque eu produzo batatas, não faz sentido”, analisa. 

Perfeito afirma que o que preocupa não é nem a questão do tarifaço, já que em outros momentos, o governo brasileiro conseguiu driblar e encontrar meios de lidar com isso, apesar de não ser que bom um dos maiores mercados consumidores imputem tarifas. A maior preocupação mesmo, segundo ele, é a decisão de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como organizações terroristas, e vincular isso ao Pix, por exemplo. 

“Eles podem ligar uma coisa a outra e falar o PIX ajuda a fazer lavagem de dinheiro de terrorismo no Brasil”, explica. Portanto, os bancos vão precisar ser mais cautelosos para liberar crédito e outros serviços bancários para um correntista. 

“Vamos pegar uma ideia aqui em abstrato: Você é dono de um supermercado e quer pegar dinheiro para a capital de giro do seu negócio, só que onde está seu supermercado é a região comandada pelo PCC. O banco, de repente, pode falar ‘não vou te dar dinheiro, porque se, de repente, você for [do pcc], eu posso perder acesso ao SWIFT internacional [códigos exclusivos de identificação bancária (BIC)]. Percebe o transtorno que isso pode gerar?”, finaliza. 

Apesar da repercussão do anúncio, a tarifa ainda não entrou em vigor. Antes disso, haverá uma consulta pública e uma audiência, que está prevista para julho. Caso a tarifa seja confirmada, ela pode começar a valer a partir do dia 15 de julho.

Fonte: Portal Terra
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