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Greve em frigorífico da JBS nos EUA expõe tensões em indústria dependente de imigrantes

29 mar 2026 - 13h51
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Sindicato acusa multinacional brasileira de más condições de trabalho. Para especialistas, concentração do mercado nas mãos de quatro empresas precarizou categoria e afastou fornecedores.Quando cerca de 3,8 mil trabalhadores de um frigorífico da empresa brasileira JBS, no estado do Colorado, nos Estados Unidos, decidiram entrar em greve em 16 de março, eles não apenas iniciaram a primeira paralisação do setor em cerca de 40 anos, como também trouxeram à tona um tema sensível: a vulnerabilidade da mão de obra em uma indústria concentrada nas mãos de poucos conglomerados.

Em meio a denúncias de baixos salários, riscos no ambiente de trabalho e práticas trabalhistas consideradas injustas, os funcionários da unidade da Swift Beef Co., em Greeley, uma das maiores plantas de abate do país, cruzaram os braços após votação quase unânime.

Segundo o sindicato, a JBS vem insistindo há meses em aumentos salariais inferiores a 2% ao ano, abaixo da inflação no Colorado, ao mesmo tempo em que transfere aos trabalhadores o custo crescente dos planos de saúde. Funcionários também relatam um ambiente de trabalho mais perigoso, com aumento do ritmo de produção e falhas no fornecimento de equipamentos de proteção considerados essenciais.

"Queremos ser tratados como seres humanos", disse em comunicado Deborah Rodarte, funcionária da planta. "Trabalhamos em condições difíceis e queremos um contrato que nos permita viver com dignidade."

A paralisação veio após meses de negociação sem acordo. O sindicato afirma que a greve deve entrar em sua terceira semana, já que a empresa não estaria querendo negociar.

Ao jornal The New York Times, uma porta-voz da empresa afirmou que o sindicato rejeitou um contrato que oferecia "salários mais altos, uma aposentadoria segura e estabilidade financeira no longo prazo".

Segundo ela, a JBS estava remanjeando a produção de carne para outras unidades com capacidade disponível.

Uma pesquisa da Morning Consult em parceria com a organização Physicians Committee indica que 71% dos americanos apoiam o direito de greve dos trabalhadores do setor, mesmo que isso afete a produção de carne. Entre os mais jovens, cresce também o apoio à transição para proteínas vegetais.

A greve ocorre em um momento de pressão crescente sobre o setor. Desde a pandemia, os preços da carne moída bovina já subiram mais de 70%, enquanto o mercado de trabalho se tornou mais restrito, em parte devido a políticas migratórias que afetam diretamente a disponibilidade de mão de obra.

Unidade responde por 8% da carne bovina produzida nos EUA

Autora do livro Raw Deal: Hidden Corruption, Corporate Greed, and the Fight for the Future of Meat (em tradução livre: Acordo Sujo: Corrupção Oculta, Ganância Corporativa e a Luta pelo Futuro da Carne), a jornalista Chloe Sorvino afirma que a paralisação reflete um processo mais profundo e é sinal das tensões acumuladas ao longo de anos de concentração de mercado.

Esse processo ajuda a explicar o peso da unidade de Greeley, responsável por cerca de 8% da produção de carne bovina dos EUA. Em um setor dominado por poucas empresas, interrupções localizadas podem ter efeitos amplos.

Quatro grandes companhias, JBS, Tyson Foods, Cargill e National Beef, controlam cerca de 80% a 85% do processamento de carne bovina no país, o que amplia seu poder sobre preços e condições ao longo da cadeia produtiva.

Para o especialista em política agrícola Austin Frerick, esse nível de concentração altera profundamente as relações de poder. Segundo ele, quando poucas empresas dominam o mercado, deixam de negociar e passam a ditar as regras, pressionando tanto trabalhadores quanto produtores.

Essa pressão se reflete também fora das plantas industriais. Para o pecuarista independente Mike Callicrate, a concentração afeta diretamente a renda dos produtores e a dinâmica das comunidades rurais.

Ele afirma que trabalhadores e produtores enfrentam o mesmo problema estrutural. Ambos, diz, acabam sendo tratados como custos a serem reduzidos dentro de um sistema dominado por grandes corporações.

A paralisação também revela uma convergência incomum entre esses grupos. Em um contexto de queda do rebanho bovino nos Estados Unidos ao menor nível em décadas, produtores demonstram preocupação com a sustentabilidade da atividade no longo prazo.

"Temos menos gado do que tivemos nos últimos 70 anos", explica a pesquisadora Jennifer Martin, da Colorado State University. Segundo ela, fatores como seca, aumento dos custos de produção e juros elevados levaram muitos produtores a deixar a atividade, reduzindo a oferta de animais ao longo do tempo.

Por isso, ela afirma que o impacto imediato da greve tende a ser limitado, mas pode crescer em caso de paralisação prolongada.

Mão de obra imigrante e fragilizada

Para Emily Spieler, professora emérita de Direito da Northeastern University, a forma como a greve é enquadrada legalmente é central. Ela explica que, se fosse classificada como uma greve econômica, a empresa poderia contratar substitutos permanentes, sem garantir o retorno dos trabalhadores. Por isso, o sindicato optou por caracterizá-la como prática trabalhista injusta.

Spieler também chama atenção para as limitações na fiscalização. A agência responsável por segurança do trabalho, a OSHA, é subfinanciada e atua de forma reativa, muitas vezes apenas após acidentes graves.

Nesse contexto, segundo ela, as violações persistem porque podem ser absorvidas como custo operacional. Lesões e problemas de segurança acabam sendo tratados, em alguns casos, como parte do funcionamento do sistema.

A unidade de Greeley também já esteve no centro de episódios graves ligados à segurança no trabalho. Em 2021, um funcionário morreu após cair em um tanque de produtos químicos dentro da planta, caso que levou a questionamentos sobre protocolos de segurança. Durante a pandemia de covid-19, trabalhadores também relataram condições que favoreceram a disseminação do vírus, com registros de múltiplas mortes associadas ao surto na unidade.

Além disso, a cadeia produtiva da empresa foi alvo de uma investigação federal por trabalho infantil nos Estados Unidos. Em 2022, o Departamento do Trabalho identificou que uma empresa terceirizada contratada para limpeza industrial utilizava menores de idade, alguns entre 13 e 17 anos, para higienizar equipamentos perigosos em plantas da JBS durante turnos noturnos, o que é proibido pela legislação americana.

Grande parte dessa dinâmica está ligada ao perfil da força de trabalho. Na planta de Greeley, mais de 50 idiomas são falados, refletindo a presença significativa de trabalhadores imigrantes.

Para o economista Daniel Costa, do Economic Policy Institute, o problema não é a imigração em si, mas a falta de proteção legal para esses trabalhadores. Sem status estável, muitos evitam denunciar abusos por medo de deportação, o que aumenta sua vulnerabilidade.

Segundo ele, o setor tem se tornado cada vez mais dependente de trabalhadores em condições mais precárias, o que contribui para manter baixos salários e padrões frágeis de proteção.

Influência política

O alcance global da JBS também levanta questionamentos sobre sua influência política. A subsidiária Pilgrim's Pride doou 5 milhões de dólares (cerca de R$ 26 milhões) para a posse de Donald Trump em 2025, o maior valor individual entre os doadores, o que gerou críticas sobre possível influência em decisões regulatórias.

A atuação da JBS também aparece em episódios recentes que cruzam interesses empresariais e relações diplomáticas.

Após meses de tentativas frustradas de contato entre autoridades brasileiras e a Casa Branca, a dinâmica mudou depois da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, quando Trump fez elogios públicos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Posteriormente, veio à tona que empresários brasileiros haviam atuado nos bastidores para influenciar o governo americano a reduzir tarifas comerciais, e que Joesley Batista, um dos controladores da JBS, teve papel central nesse processo.

Segundo relatos de participantes das negociações, Batista conseguiu acesso direto ao presidente americano, enquanto outros empresários se reuniram apenas com assessores de alto escalão. "Seria injusto dizer isso, porque trabalhei muito nesse processo, mas foi 99% Batista", afirmou um dos envolvidos nas conversas.

Durante as negociações, ele teria argumentado que as tarifas prejudicavam consumidores americanos e, ao mesmo tempo, fortaleciam politicamente Lula no Brasil. Pouco depois, os dois presidentes se encontraram e, em novembro, os Estados Unidos anunciaram a remoção da maior parte das tarifas, incluindo as que afetavam diretamente o setor de carne bovina.

Para Frerick, esse tipo de atuação reforça um dilema estrutural. "Quando empresas atingem esse nível de poder, torna-se cada vez mais difícil regulá-las de forma efetiva", disse.

Projeto tramita no Congresso para reduzir a concentração no setor

Diante desse cenário, cresce o debate sobre possíveis mudanças. Um projeto apresentado no Senado americano propõe limitar o poder das grandes processadoras e pode levar à divisão de empresas como a JBS.

Para Frerick, trata-se de uma tentativa de reintroduzir concorrência em um mercado altamente concentrado. Já Jennifer Martin aponta que propostas desse tipo enfrentam desafios práticos e precisam considerar a complexidade da cadeia produtiva.

Apesar das tensões, o consumo de carne segue forte nos Estados Unidos. Segundo Martin, mesmo com preços elevados, os consumidores continuam comprando.

Para Frerick, o país vive um "momento da carne", impulsionado por fatores culturais e sociais, com forte valorização do consumo de proteína.

Em janeiro, por exemplo, o Departamento de Saúde dos Estados Unidos anunciou novas diretrizes alimentares que invertem a lógica tradicional: carne vermelha e laticínios passam a ocupar o topo da dieta, substituindo os grãos como base principal.

Nesse cenário, a greve em uma única planta no Colorado acaba refletindo dilemas mais amplos, entre custo de vida, condições de trabalho, concentração de mercado e impactos ambientais.

Para Sorvino, o movimento pode representar um ponto de inflexão. No fim das contas, afirma, os trabalhadores não pedem mudanças radicais, mas algo mais básico: dignidade.

A DW procurou a JBS para tratar dos temas levantados nesta reportagem, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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