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Preço da gasolina sobe nas bombas mesmo sem reajuste da Petrobras; entenda

Combustível acumula alta de 5,9% desde o início do conflito no Oriente Médio; último aumento da gasolina pela Petrobras foi em julho de 2024

25 mar 2026 - 10h12
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Mesmo sem um reajuste formal da Petrobras, levantamentos semanais da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram aceleração no preço da gasolina nas bombas. O movimento reflete a disparada recente do petróleo no mercado internacional, em meio à escalada do conflito com o Irã. Até agora, a Petrobras anunciou apenas um reajuste para o diesel.

Na semana encerrada em 28 de fevereiro, quando o conflito efetivamente começou, o valor médio da gasolina ficou em R$ 6,28 por litro, com leve recuo de 0,32% na comparação semanal. A partir daí, a trajetória virou para alta: em 7 de março, o preço subiu para R$ 6,30 (+0,32%), avançou para R$ 6,46 na semana seguinte (+2,54%) e voltou a acelerar para R$ 6,65 em 21/3 (+2,94%), acumulando aumento de cerca de 5,9% no período.

O último ajuste da Petrobras no preço da gasolina ocorreu em janeiro deste ano, com uma redução de 5,2%. O último aumento, de 1,72%, foi anunciado em julho de 2024. Em relação ao diesel, a estatal reajustou em 13 de março o preço do combustível nas refinarias, em 11,6% — na segunda semana de março, o diesel havia subido 20,6%, para R$ 7,65 o litro, em comparação à semana de 22 a 28 de fevereiro, segundo a ANP.

Impacto maior da alta da gasolina deve aparecer com força no IPCA fechado de março
Impacto maior da alta da gasolina deve aparecer com força no IPCA fechado de março
Foto: Paulo Liebert/Estadão / Estadão

O aumento da gasolina na bomba ocorre em um mercado em que a Petrobras já não dita sozinha a formação de preços ao consumidor. Além de parte do parque de refino estar nas mãos de empresas privadas, a estatal também não tem monopólio na etapa de distribuição, já que a antiga BR Distribuidora também foi privatizada. Com isso, movimentos de alta podem aparecer de forma mais autônoma ao longo da cadeia, independentemente de uma "canetada" da Petrobras para reajustar a gasolina nas refinarias.

Inflação

Para a inflação oficial do País, o impacto imediato deve ser limitado no IPCA-15 de março, que será divulgado nesta quinta-feira, 26. A janela de coleta do índice — que inclui o final de fevereiro e o começo de março — reduz a contribuição do salto observado na gasolina nas últimas semanas.

Além disso, economistas consultados pelo Estadão/Broadcast lembram que, antes da escalada do conflito, o cenário para a gasolina doméstica era considerado benigno. Com o preço interno operando com defasagem (para baixo) em relação às referências externas em alguns momentos, o debate no mercado chegou a girar em torno da possibilidade de cortes no preço de venda da gasolina da Petrobras às distribuidoras, hipótese que perdeu tração com a virada no petróleo e o aumento das incertezas no exterior.

O economista da Logos Capital e especialista em inflação, Fabio Romão, avalia que, dada a janela de coleta do IPCA-15, a gasolina deverá subir apenas 0,22% nesta leitura, impacto relativamente pequeno na comparação mensal. Ele explica que a variação dos itens do IPCA é feita a partir da janela que começa em meados de fevereiro e vai até o início de março. "Ou seja, as semanas em que o preço ainda estava bem comportado vão entrar na conta", diz ele.

O impacto maior, porém, deve aparecer com força no IPCA fechado de março, que será divulgado na segunda semana de abril. Com isso, calcula Romão, a gasolina deverá apresentar uma alta mensal de 2,8%. O número deverá representar cerca de 0,14 ponto porcentual da alta total aguardada pela Logos para o índice, de 0,38%.

Flavio Serrano, economista-chefe do Bmg, calcula um impacto ainda maior da gasolina na inflação de março, entre 0,20 e 0,25 ponto porcentual. "Na ponta, nessas últimas duas semanas, o preço da gasolina já subiu cerca de 5,5% no Brasil, na bomba, para o consumidor final. Então vai ter esse impacto, a despeito de não ter tido o aumento da gasolina pela Petrobras", detalha ele. O Bmg estima IPCA de 0,50% em março.

Na Terra Investimentos, a projeção do economista Homero Guizzo é que o item gasolina tenha alta de 3,5% no IPCA fechado de março. O item deve, sozinho, responder por 0,18 ponto porcentual do total da alta de 0,49% estimada pela casa para a inflação no mês.

O economista do FGV Ibre André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor - Semanal (IPC-S), reconhece que as leituras recentes apontam variações positivas no preço da gasolina ao consumidor, mas lembra que o movimento não pode ser atribuído automaticamente ao conflito envolvendo Estados Unidos e Irã. Segundo ele, há componentes e fatores de mercado que, por si só, podem explicar oscilações na bomba, independentemente de choques geopolíticos.

Braz destaca que a gasolina C vendida nos postos tem mistura obrigatória de etanol anidro — cerca de 26% —, o que abre espaço para variações causadas pelo comportamento desse insumo. Além disso, ele ressalta que a gasolina é um preço monitorado, com a parcela associada à gasolina A nas refinarias sujeita a decisões do governo, o que dificulta cravar que a alta no varejo já reflita, de forma direta, uma mudança decorrente da guerra na refinaria.

Outro ponto levantado por Braz é o papel das margens de revenda. "Quando a pressão sobre os preços da gasolina aumenta, os postos vendem a um preço mais próximo possível do máximo. Em momentos como esse, de grande tensão, os postos tiram essa margem e colocam o preço no máximo. A gasolina pode estar subindo por conta do conflito, mas não posso afirmar que a gasolina está subindo por conta do conflito", reflete ele.

Estadão
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