O visionário banqueiro que apostou em imigrantes nos EUA e criou o maior banco do mundo
Amadeo Giannini rompeu com as normas do banco tradicional e abriu as portas para milhões de pessoas que não tinham acesso a serviços financeiros. Com sua rede de agências espalhadas por diversas cidades, foi o precursor dos grandes bancos de hoje em dia.
Amadeo Pietro (ou Peter) Giannini (1870-1949) foi conhecido como "o banqueiro cavalheiro". E, na sua época, com um certo tom de desdém, como "o verdureiro italiano".
Se houvesse nascido um século depois, provavelmente seria descrito como um lendário inovador, um empreendedor excepcional e um anjo visionário que observou potencial onde outras pessoas só enxergavam riscos.
Também chamado de AP, o ítalo-americano revolucionou um dos setores mais tradicionais da economia, rompendo com os bancos elitistas do seu tempo. Com uma visão muito mais social do que o comum, ele ajudou a criar o DNA do banco moderno.
Não foram só os imigrantes, pequenos comerciantes e mulheres que Giannini ajudou a progredir, com seus créditos acessíveis. Ele também auxiliou na reconstrução de toda uma cidade no início do século 20, além das indústrias da Itália, após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Giannini também ajudou os sonhos de artistas, como Charlie Chaplin (1889-1977), o diretor de cinema Frank Capra (1897-1991) e o animador Walt Disney (1901-1966). E foi o principal financiador da ponte Golden Gate de São Francisco, nos Estados Unidos, e da empresa de tecnologia Hewlett-Packard, quando ninguém mais acreditava nestes projetos.
Com isso, ele se transformou em um dos personagens mais influentes da sua época. Mas, mesmo criando aquele que chegou a ser o maior banco do mundo, Giannini nunca foi milionário.
Sua fortuna pessoal nunca superou US$ 500 mil. Para ele, as pessoas que quisessem acumular mais que isso "deveriam consultar um psiquiatra".
Giannini acreditava que o dinheiro é uma ferramenta de desenvolvimento social e econômico, não algo que devesse ficar indefinidamente concentrado nas mãos de uma só pessoa.
Por isso, quando tinha sobras de dinheiro, ele criava fundações para o desenvolvimento da ciência e da medicina.
Esta visão pode ter surgido no início da sua vida, quando seu mundo não eram os cofres bancários, mas sim o campo, os canteiros de cultivo e as caixas de frutas e verduras.
Da fazenda para o banco
A mãe de Giannini se chamava Virginia. Ela chegou à Califórnia, nos Estados Unidos, em meados de 1869.
Ela tinha então 15 anos de idade e era recém-casada com Luigi, imigrante do reino da Sardenha que, depois de ganhar dinheiro na extração de ouro, levou Virginia da Itália.
Amadeo nasceu no dia 6 de maio de 1870, na cidade de San José. Ele cresceu em um sítio, onde eram cultivados produtos que seus pais vendiam na florescente São Francisco.
Quando tinha seis anos, ele viu um trabalhador ter negada sua diária de US$ 1, por não se apresentar ao trabalho. Ele matou seu pai a tiros.
Talvez por isso, ele costumava dizer "você não pode morrer por um dólar", consciente do valor da vida humana, mas também de que o dinheiro não era um fim em si mesmo.
Viúva, com dois filhos e grávida de um terceiro, sua mãe acabou se mudando para São Francisco. Ela passaria a comprar grandes volumes dos agricultores e vender para as lojas. E, em 1880, ela se casou novamente, com Lorenzo Scatena.
A responsabilidade de ajudar em casa desde muito jovem levou Giannini a entrar para a empresa do padrasto, a L. Scatena & Co., atacadista de frutas e verduras.
Ele se tornou um homem alto e forte, capaz de se defender com facilidade nos duros leilões de frutas e verduras do cais, onde os comerciantes encontravam os navios dos agricultores.
Giannini ajudou a construir um próspero negócio e, com o passar do tempo, ficou encarregado dele.
Aos 31 anos, ele vendeu sua parte aos funcionários, destacando que não tinha interesse em acumular riqueza.
"Nenhum homem é dono de uma fortuna", dizia ele. "A fortuna é que o possui."
Na época, ele já estava casado há 10 anos com Clorinda, filha de uma abastada família ítalo-americana.
Após a morte do sogro, ele herdou um conjunto de ações de um banco local e foi convencido a ocupar o cargo vago na diretoria.
Giannini ficou horrorizado ao saber que o banco não emprestava dinheiro a imigrantes pobres, especialmente por estar em North Beach, um bairro conhecido por todos como a "Pequena Itália", devido à concentração de famílias de imigrantes italianos e moravam e trabalhavam ali.
Esta situação era comum. Na época, os serviços financeiros não costumavam ser acessíveis para as pessoas comuns, mas apenas para a elite abastada.
As discussões na sala da diretoria faziam as paredes retumbarem. O ano era 1902 e, apenas dois anos depois, ele se demitiu... e fundou a instituição que imaginava: o Banco da Itália, para ajudar a quem realmente necessitasse.
O escritor Harold Evans destacou à BBC que seu trabalho no cais fez com que ele se tornasse um juiz de caráter perspicaz. Por isso, ele não hesitava em emprestar dinheiro para pagar a fatura do médico pelo parto de um bebê, se percebesse que o casal era íntegro.
Esta foi a inovação de Giannini, segundo Evans no seu livro They Made America ("Eles fizeram a América", em tradução livre): abrir as portas a todos e julgar os empréstimos "não pelo que eles têm no banco, mas pelo que têm na alma".
Fênix dos escombros
No dia 18 de abril de 1906, pouco depois das cinco horas da manhã, um poderoso terremoto sacudiu São Francisco.
Testemunhas descreveram que o tremor retumbou "como o rugido de 10 mil leões". E, em questão de minutos, os incêndios começaram a se espalhar pela cidade, incluindo North Beach, e arderam por três dias.
Cerca de 3 mil pessoas morreram, mais de 200 mil ficaram desabrigadas e 28 mil edifícios foram reduzidos a escombros carbonizados. Entre eles, o pequeno banco de AP.
Mas ele reagiu rapidamente. Antes que as chamas atingissem o prédio, ele se apressou e colocou a salvo os US$ 80 mil em ouro e dinheiro do banco.
Giannini os escondeu dentro de um carro, embaixo de caixas de laranjas. Assim, ele evitou saqueadores e transportou tudo para um lugar seguro.
Com isso, enquanto os grandes bancos permaneceram fechados porque seus cofres estavam lacrados pelo calor e seus registros ficaram destruídos, Giannini instalou um escritório improvisado em um cais perto de North Beach, colocando uma tábua sobre dois barris.
Com um cartaz dizendo que o Banco da Itália estava disponível "como sempre" e sua voz ressonando em meio à desolação, ele anunciou que estava ali, disposto a apoiar quem necessitasse.
Entre a fumaça e as ruínas, Giannini começou a emprestar dinheiro para reconstruir moradias, reabrir negócios e começar novamente.
Ele não exigia imóveis como garantia, mas sim confiava no caráter das pessoas. Conta-se que costumava dizer que, para ele, o melhor aval eram os calos nas mãos e um anel no dedo.
A confiança foi recíproca. Muitos sobreviventes depositaram no seu banco improvisado o ouro e o dinheiro que conseguiram salvar.
AP ofereceu crédito a comerciantes e recursos para trazer materiais de construção de outras cidades. E North Beach foi uma das primeiras regiões de São Francisco a se reerguer das cinzas.
A conquista da Califórnia
As ações de Giannini após o terremoto confirmaram que ele estava construindo um modelo bancário radicalmente diferente.
O banco tradicional operava em elegantes escritórios no centro financeiro e atendia principalmente comerciantes consolidados e famílias abastadas. Mas o Banco da Itália abriu agências em bairros populares e introduziu práticas que, hoje, parecem óbvias, mas eram revolucionárias na época.
Consciente que muitos imigrantes tinham pouca experiência bancária, seu inglês era limitado e que eles trabalhavam por jornadas extenuantes, o banco ensinava os clientes a preencher recibos de depósito, contratava funcionários que falassem italiano, francês, espanhol e português e mantinha suas portas abertas até a noite e aos sábados.
Além de conceder empréstimos a pequenos comerciantes sem exigir histórico patrimonial e usar o crédito produtivo como motor de desenvolvimento, o banco incentivava as famílias trabalhadoras a economizar, nem que fossem poucas moedas por semana.
Sua clientela logo se estendeu para outras minorias étnicas, soldados e veteranos que regressavam da guerra com recursos escassos e mulheres que, até então, dependiam legalmente dos maridos para operar contas bancárias.
Em 1921, Giannini deu outro passo corajoso, ao fundar um banco dirigido inteiramente por mulheres.
Era uma instituição pioneira, destinada a fomentar sua independência econômica. Ela oferecia aulas noturnas ensinando a economizar, como pedir empréstimos e investir com critério.
Giannini também incentivou um programa de economia escolar, permitindo às crianças abrir contas com apenas um centavo. Assim, ele ensinava aos pequenos a disciplina financeira.
Mas sua maior inovação estrutural foi o conceito de abertura de diversas agências. Em uma época em que a maior parte daqueles bancos elegantes era composta por pequenas entidades locais, independentes e vulneráveis frente a eventuais crises regionais, ele imaginou uma rede integrada.
A ideia era simples e poderosa: se uma região atravessasse dificuldades, outra poderia sustentá-la. O risco seria distribuído e o sistema se fortaleceria.
Sua rede começou a se estender pela Califórnia como uma teia financeira, absorvendo pequenas entidades e abrindo escritórios onde outros não viam possibilidades: comunidades agrícolas, cidades em crescimento, zonas de trabalhadores.
Cada nova agência reforçava o conjunto. O banco deixava de depender do impulso econômico de uma só cidade.
Em 1918, ele já havia estabelecido o primeiro sistema bancário estadual da Califórnia. E, 10 anos depois, ele fundou a Transamerica Corporation, uma empresa holding para reunir seus interesses financeiros e de seguros.
No final da década de 1920, o Banco da Itália havia deixado de ser apenas o banco dos imigrantes de North Beach. Era a instituição daqueles que, até então, haviam ficado fora do sistema.
E também era o maior banco da Califórnia. Com isso, o nome começava a ficar pequeno.
Foi por isso que, em 1930, Giannini mudou seu nome para Bank of America. E não era um simples exagero pomposo.
O nome era uma declaração de intenções. Não se tratava apenas de expansão territorial, mas de amplitude social.
Apostador de risco
O sucesso de Giannini não o tornou popular entre todos os setores da sociedade.
Sua rede de agências desafiava o modelo tradicional. Sua insistência em atender pessoas comuns alterava o equilíbrio do poder financeiro e seu costume de conceder empréstimos que outros consideravam de "risco desnecessário", para alguns, pareciam quase temerários.
Mas seu modelo demonstrou uma resistência inesperada com a chegada da Grande Depressão (1929-1939). Milhares de bancos locais entraram em colapso, enquanto o Bank of America absorvia os golpes.
Sua diversificação geográfica e a enorme base de pequenos poupadores permitiram que a instituição suportasse o baque.
Em vez de se retrair, o Bank of America expandiu os financiamentos. Ele impulsionou planos de crédito a prazo com juros baixos, que permitiram que famílias e pequenos negócios mantivessem a economia funcionando.
Apoiando setores produtivos, Giannini colaborou para modernizar partes importantes da infraestrutura e da indústria da Califórnia, pouco antes da Segunda Guerra Mundial. E, como já havia feito após o terremoto de 1906, ele voltou a apostar quando outros duvidavam.
Ele apoiou, por exemplo, a construção de uma ponte que uniria a baía de São Francisco, considerada por muitos inviável. Seu apoio financeiro permitiu que aquela ponte, que parecia uma fantasia técnica e financeira, se tornasse realidade.
A obra se tornaria um dos ícones mundiais da engenharia: a Golden Gate.
Paralelamente, o banco apoiou a nascente indústria cinematográfica de Hollywood. Ele ofereceu crédito aos estúdios cinematográficos, apoiando produções de figuras como Charlie Chaplin e Frank Capra.
Mas a aposta mais corajosa viria quando Walt Disney se viu em problemas. Os custos de produção do desenho animado Branca de Neve e os Sete Anões dispararam e Hollywood considerava o longa-metragem de animação uma loucura financeira.
O Bank of America ofereceu um empréstimo fundamental, que permitiu a Disney completar a produção. O filme estreou em dezembro de 1937 e atingiu um sucesso monumental, transformando a indústria da animação.
Perto dessa mesma época, dois empreendedores que trabalhavam em uma garagem de Palo Alto também receberam apoio financeiro da instituição criada por Giannini.
Em 1939, William Hewlett (1913-2001) e David Packard (1912-1996) fundaram a pioneira empresa de informática Hewlett-Packard, a HP. A garagem é conhecida como o local de nascimento do Vale do Silício.
Com isso, o legado de Giannini ficou relacionado à grande onda de inovações que veio em seguida.
O banco do povo
No final dos anos 1930, o Bank of America não era apenas o maior banco da Califórnia: era um dos maiores dos Estados Unidos.
Após a Segunda Guerra Mundial, com uma rede de agências que se estendia por todo o país e um total de bens que superava a maioria dos seus concorrentes, a instituição se consolidou como um dos maiores bancos do mundo.
Mas Giannini não parou por aí.
Mesmo antes do Plano Marshall, em 1948 (o plano americano de ajuda para a reconstrução da Europa no pós-Guerra), seu banco financiou empréstimos para a reconstrução industrial na Itália. Era um reflexo da sua visão de um banco comprometido com o desenvolvimento econômico além das fronteiras do país.
No campo pessoal, embora sua vida girasse em torno do dinheiro, ele continuava mostrando pouco interesse pela sua posse. Giannini recusava aumentos de salário e desprezava eventuais bonificações.
Certa vez, apesar da sua reticência, o banco atribuiu a ele um bônus substancial que o colocou em risco de se transformar em milionário. Giannini doou imediatamente o valor à Universidade da Califórnia, para educação e pesquisa.
Aos 75 anos, ele criou e financiou a Fundação A. P. Giannini, para apoiar a pesquisa médica. Ele se manteve fiel à sua paixão pela prevenção e cura de doenças humanas, já que vários dos seus seis filhos morreram jovens devido à hemofilia.
Giannini também fez generosas doações para a Universidade da Califórnia em Berkeley e para o Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech, na sigla em inglês).
Ele morreu em 3 de junho de 1949. Na época, o Bank of America já era o maior banco do mundo em capitalização em bolsa. Sua rede se estendia por todo o país.
Atualmente, o banco costuma aparecer perto do sexto lugar no mundo, em total de ativos.
Mas seu patrimônio pessoal era de menos de US$ 500 mil, um valor alto para as pessoas comuns, mas muito modesto em comparação com a riqueza que seus pares costumam acumular.
Milhares de pessoas compareceram ao seu funeral em São Francisco, acompanhando a procissão pelas ruas. Foi um testemunho do afeto de tantas pessoas pelo homem que muitos chamavam de "o banqueiro do povo".