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Greve do Ibama já adia em seis meses negócio de US$ 830 milhões da petroleira Prio

Sonda de perfuração da empresa a ser utilizada em projeto aguarda parada no Porto do Açu, a um custo que gira em torno de US$ 100 mil por dia; órgão entrou em greve na semana passada

21 jun 2024 - 19h05
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RIO - A mobilização dos servidores do Ibama, convertida em greve na semana passada, completa seis meses em junho. O movimento vem atrasando a emissão de licenças ambientais necessárias ao desenvolvimento de negócios do setor de óleo e gás e afeta empresas como a petroleira Prio, considerada uma das mais promissoras "junior oils" do mercado brasileiro.

A companhia aguarda autorização da autarquia ambiental para perfurar quatro poços no campo de Wahoo, na bacia de Campos, e interligá-los a um navio plataforma (FPSO) no campo de Frade, principal aposta para garantir o aumento de produção da companhia.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, o presidente da Prio, Roberto Monteiro, disse que o investimento total em Wahoo será de US$ 830 milhões, dos quais cerca de US$ 500 milhões já foram consumidos com a compra de materiais e componentes, hoje parados nas bases logísticas da empresa no Rio de Janeiro.

A sonda de perfuração a ser utilizada no desenvolvimento do projeto aguarda parada no Porto do Açu, no norte do Estado, a um custo que gira em torno de US$ 100 mil por dia. Um gasto que só não é maior porque o equipamento pertence à empresa. "No caso de uma sonda afretada, esse custo saltaria para US$ 400 mil, US$ 500 mil", diz Monteiro.

Não é só a Prio que sofre com os atrasos em processos relacionados ao Ibama: a Petrobras projeta uma queda de 2% na produção de 2024, diretamente ligada ao problema, e a britânica BP também espera licenças de perfuração, incorrendo em gastos imprevistos.

Na quinta-feira, 20, o presidente da Shell, Cristiano Pinto da Costa, expressou preocupação com relação à greve na autarquia ambiental, citando a estimativa do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP) de que a produção nacional já está menor em 80 mil barris por dia em função do movimento.

Segundo o presidente do IBP, Roberto Ardenghy, a greve do Ibama gerou uma redução na produção de 5 mil a 10 mil barris por dia que, na sexta-feira, 14, chegou a 80 mil barris por dia.

Os servidores do Ibama ficaram no alegado "estágio de mobilização" por seis meses e, na semana passada, começaram a aprovar greves que já atingem os serviços na maior parte dos Estados brasileiros, o que inclui Rio de Janeiro e Espírito Santo, coração do pré-sal. Os servidores negociam reajustes salariais e pararam após o Ministério da Gestão e Inovação rejeitar a última contraproposta sindical de valorização salarial.

Peso do campo de Wahoo

Segundo Monteiro, da Prio, "Wahoo vai representar um aumento entre 40% e 50%" nossa produção da empresa. "Aguardamos licenças de perfuração e de instalação, esta última para ligar os poços ao FPSO de Frade, que fica a 30 quilômetros de distância, ou seja, fazer um 'tieback'", detalha.

"Além do Imposto de Renda a mais que a companhia paga por colocar 40% a mais de receita na mesma base de custo, a gente ainda paga 10% de royalty. Se você pegar um óleo a US$ 75 ou US$ 80, estamos falando de R$ 400 milhões, R$ 500 milhões ao ano de arrecadação perdida. É muito dinheiro", observa.

Hoje, a Prio produz pouco mais de 90 mil barris de óleo equivalente por dia (boed), ao que espera acrescentar no futuro, segundo Monteiro, 40 mil boed de Wahoo e mais 30 mil boed de Albacora. Igualmente na bacia de Campos, Albacora terá campanha específica para quase dobrar sua produção. As previsões constam na certificação de reservas de 2024 da empresa, feita pela DeGolyer & Macnaughton. A Prio também aguarda posição do Ibama com relação a pedidos de licença para os trabalhos nesse último campo.

"Havia análises em curso no Ibama, mas não sabemos, porque não vínhamos recebendo muitas perguntas. Normalmente, nesse processo, você dá entrada e vêm um monte de perguntas que a empresa vai tratando", conta Monteiro.

Calendário

Antes da paralisação do Ibama, a previsão original da Prio era ter o primeiro óleo de Wahoo em agosto de 2024. Isso exigia ter as primeiras licenças de perfuração em dezembro ou janeiro, e a de instalação em maio. A perfuração de cada poço, diz Monteiro, demora dois meses e o lançamento das linhas a serem conectadas, outros três meses adicionais.

Questionado sobre um novo calendário, o executivo evita dar uma data, mas diz que, resolvida a situação no órgão ambiental, o primeiro óleo ainda deve demorar entre seis e oito meses.

A Prio não planeja ir à Justiça para resolver o problema. "A judicialização é uma medida muito drástica. Não pensamos em andar por esse caminho", afirma o executivo, que destaca os esforços de interação e de relação amigável com a autarquia ambiental.

"Estamos aguardando. A greve deve ter um sentido, uma razão. Não tiro o mérito disso, e sei que o governo também precisa resolver. A única coisa que nós esperamos é um pouco mais celeridade nas negociações. A gente nota que houve poucas interações entre o Ibama e o governo. Ao que parece, foram três rodadas de negociação de janeiro a hoje", diz Monteiro, ainda sem saber que o governo recusaria a contraproposta dos servidores.

Plano B

Questionado sobre um plano B para elevar a produção da Prio no curto prazo, Monteiro disse que hoje nada é capaz de substituir Wahoo de maneira completa. "Temos um plano B, mas podemos fazer muito pouco sem o Ibama. Vamos tentar fazer pequenas coisas em Albacora, mas estamos falando de mais 5 mil barris por dia, 8 mil se formos muito bem."

As intervenções em Albacora não exigem novas licenças e não fazem parte da campanha de revitalização prevista. Trata-se, na verdade, da reativação de poços já existentes, mas que tinham sido desligados pela Petrobras, esclarece o executivo.

Questionado sobre possíveis aquisições, Monteiro disse que a companhia observa tanto o mercado brasileiro como o americano (Golfo do México), mas que esse tipo de aquisição leva algum tempo, enquanto a entrada de Wahoo em operação estava programada para agosto.

Como mostrou o Estadão/Broadcast, em termos de novas aquisições, a Prio mira investidas no mioceno do Golfo do México, no vácuo de grandes petroleiras que vendam campos na região e migrem para explorar petróleo na nova fronteira do Golfo, em maior profundidades, na chamada formação Wilcox. Apesar da predileção, a companhia segue acompanhando o mercado nacional e diz ter caixa e alavancagem baixa o suficiente (0,6x) para conciliar aquisições nos EUA e no Brasil ao mesmo tempo.

Estadão
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