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Grandes treinadores podem ensinar sobre gestão de pessoas?

O que Johan Cruyff pode ensinar sobre gestão de pessoas e liderança?

27 dez 2021 07h00
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Johan Cruyff
Johan Cruyff
Foto: Instagram / Reprodução

Ler a biografia do Cruyff foi uma experiência maravilhosa, pois algo que eu suspeitava que encontraria na Biografia, tá lá e pra mim, é o objetivo: as conversas que transcendem o futebol.

Porque eu realmente acredito que muitas coisas que acontecem no futebol servem não como metáfora para a vida e sim, como inspiração.

E a vida do Cruyff contada no livro está recheada dessas situações.

A primeira delas: ele queria voltar para o Ajax depois de jogar nos EUA. O Ajax estava meio ruim das pernas, estádio vazio... ele tinha um certo grilo de voltar a jogar na Holanda, onde o imposto comia 70% do salário dele.

O sogro dele, que era seu empresário, teve uma ideia: como raramente iam 10 mil pessoas ao estádio, o valor dos ingressos que excedesse os 10 mil, iria metade para o clube e metade para um fundo de aposentadoria do Cruyff.

Deu certo. O estádio cabia 25 mil pessoas e vivia cheio. Em alguns casos, chegaram a usar o estádio olímpico para caber mais gente.

Deu certo? Mais ou menos... Chegou o fim do ano e o Ajax achou que o Cruyff estava ganhando muito dinheiro.

Ele fez duas perguntas:

"Mas vocês não estão ganhando metade de um dinheiro que não ganhavam antes que eu viesse só passaram a ganhar por minha causa?"

"Mas não foi exatamente isso o que combinamos?"

Indignado, o Cruyff saiu do Ajax, foi pro Feyenoord, que aceitou essa proposta e, com um estádio que cabiam 47 mil pessoas, TODO MUNDO ganhou mais dinheiro e o Feyenoord foi campeão de tudo.

Quem nunca passou por uma situação dessas na vida profissional? De fazer um combinado que parece bom para as duas partes e depois, parecer injusto?

A segunda coisa, pra mim, é ainda mais incrível... uma fala dele, já como treinador, sobre os jogadores que trabalham com ele:

"Eu não consigo trabalhar com um jogador que não me escuta e não faz o que eu peço para ele fazer. Se ele não quer aprender alguma coisa comigo, ele não vai trabalhar comigo".

Eu acho que essa é a segunda frase que pra mim, resume muito essa coisa de "gestão de pessoas". A outra é do Phil Jackson, que diz: "o segredo de uma boa gestão de grupos não é convencer quem te odeia a te amar. É deixar com os que te odeiam não fiquem próximos dos indecisos".

Coincidência: as duas frases que melhor resumem a questão de gerir pessoas, na minha opinião, não são de livros sobre liderança ou gestão de pessoas, mas sobre técnicos esportivos.

Porque é isso. Um líder não tem que trabalhar com um cara que não faz o que ele pede. Do jeito que ele pede.

"Ah, a minha criatividade..."

Se a pessoa mete esse papo, além de superestimar a própria criatividade, não entende o que tá rolando. Porque a criatividade é um mero ASSET que a pessoa tem, está sendo levada em conta na BIG PICTURE, portanto, convém fazer do jeito que o líder está pedindo.

Eu... escrevo. Meu trabalho, se eu pudesse simplificar ao extremo, é escrever.

Tive uma líder que escrevia melhor do que eu, mas poderia não ser assim. Ela poderia pegar um texto meu e melhorar de maneiras infinitas, mas normalmente, ela me falava o que mudar. E quando mudava, de maneira muito gentil, ainda avisa "mexi algumas coisinhas".

O meu... "super líder", o que seria o Líder do meu líder, não escreve. Não quero insinuar que ele não sabe escrever ou coisa do tipo. Não é o trabalho dele e sabe, de maneira muito eficiente, que não vai se meter a escrever.

E a nossa maior dificuldade de comunicação, até o dia em que nos acertamos de vez, foi eu tentar explicar que não estava discordando dele e que eu iria, no fim, fazer exatamente do jeito que ele queria, mas eu precisava entender um pouco melhor.

No fim, era o que acontecia. Mas até a gente conseguir achar esse jeito de se entender, teve atrito. Conflito. Que é o que eu acredito que tem que ter. Mas achei importante esclarecer, pra começo de conversa, que eu reconhecia sua autoridade, sua liderança, sua opinião e a direção que ele queria dar.

Eu acho isso fundamental.

Alguns dizem que é um traço geracional, que sou X e meio que é assim mesmo... no sentido de que os Ys e Millenials talvez achem que podem/devem ESCOLHER seu líder.

Não podem.

Eles podem até escolher o seu emprego e mudar de empresa. Existe um fringe benefit decorrente disso aí, mas não é a maravilha toda que pregam - nem o caos apocalíptico que os ultra-conservadores temem.

É uma ficha que cai e deve ser compreendida...

Mas escolher O LÍDER, não cabe ao liderado. Isso é de uma falta de humildade que desemboca na arrogância e converge para a burrice.

O cara se acha bom demais para aquele líder. Mas se fosse tão bom assim como pensa que é, não deveria estar sendo liderado por alguém que ele acha merecedor de todo o seu talento, criatividade e super poderes?

Justiça seja feita: é totalmente plausível que o Y Millenial em questão encontre um outro líder que explore mais e melhor suas potencialidades e skills, mas o ponto aqui é outro: seu líder é essa pessoa.

Aceite e seja um bom liderado ou procure você um líder "à sua altura".

E se der, no meio do caminho, amadureça e aprenda algumas coisas...

(*) Randall Neto é escritor, produtor de conteúdo e copywriter.

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