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Fintechs facilitam acesso a crédito, mas juro e carga tributária tornam cenário complexo, dizem CEOs

Marcelo Torresi, do Banco Paulista, afirma que população acabou recebendo crédito mais abundante, mas mais caro; para Ricardo Campos, da Reach Capital, Desenrola pode beneficiar devedores

27 mai 2026 - 15h12
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Ao discorrer sobre o elevado e problemático endividamento da população brasileira durante o FGV Money Lab, evento que contou com apoio do Estadão, o CEO do Banco Paulista, Marcelo Torresi, destacou a evolução do setor bancário, como a chegada dos chamados neobancos e fintechs, e a facilidade de acesso ao crédito que essas inovações passaram a proporcionar. Isso, de acordo com o executivo, é um avanço, dado que, na esteira do processo de fortalecimento do sistema financeiro no Brasil, houve forte concentração do setor bancário.

"Acredito que a facilidade de acesso ao crédito, como a concessão de crédito consignado, é um ponto positivo. A princípio, havia uma grande quantidade de bancos, mas, gradualmente, ocorreu uma consolidação, com fusões e aquisições. Atualmente, restam poucos bancos de grande porte, e a maior parte do crédito ainda está concentrada neles. Recentemente, as fintechs têm se destacado ao direcionar crédito para segmentos de menor renda, os chamados "neobancos", reiterou.

Ao mesmo tempo, acrescenta Torresi, o governo tem procurado alternativas, como o crédito consignado, que tem facilitado a redução das taxas de juros para esses grupos. Além disso, há outras iniciativas, como a liberação de crédito para empresas, incluindo a recuperação judicial com o mecanismo DIP (debtor-in-possession).

"Apesar desses avanços, o cenário ainda enfrenta desafios significativos. A burocracia excessiva, os altos custos operacionais dos bancos, a carga tributária e a taxa básica de juros tornam o ambiente complexo. A viabilidade de um negócio com taxas de juros tão elevadas é questionável. Se o governo, que tem o poder de emissão de moeda, oferece 15% ao ano, qual seria a taxa adequada para as demais instituições?", questiona o executivo.

Para ele, embora os bancos tenham se tornado mais eficientes, seus custos ainda são significativos. As empresas com estruturas mais enxutas conseguem oferecer taxas mais competitivas, mas, ainda assim, enfrentam desafios. Outro ponto crucial apontado pelo executivo é a questão dos spreads. "Com o aumento da democratização do crédito e a entrada de novos participantes, por que as taxas não diminuem de forma mais expressiva? A rentabilidade é um fator importante", questiona. E ele mesmo responde: as instituições financeiras, ao entrar nesse mercado, visam ao lucro.

"Os novos entrantes, com custos menores e estruturas mais leves, contam com mecanismos tecnológicos eficientes, porém enfrentam perdas maiores e custos de captação mais elevados em comparação com os bancos tradicionais. Apesar da concentração do mercado financeiro nas grandes instituições, com o tempo, as fintechs não alteraram significativamente essa configuração. Algumas fintechs, como Nubank e Inter, têm se destacado. No entanto, muitas outras fintechs dependem de depósitos para financiar suas operações, o que encarece o custo de captação, e acabam por ofertar crédito para pessoas com maior renda", disse.

Em resumo, disse Torresi, a população com menos acesso ao crédito acaba recebendo crédito mais abundante, mas também mais caro. "Quanto aos juros, embora eu reconheça sua importância, a busca por rentabilidade é um fator relevante no mercado", disse.

Selic e carga tributária

O elevado endividamento da população brasileira considera fatores como as altas taxas de juros, impactadas pela Selic e pela elevada carga tributária sobre as instituições financeiras. Essas condições, listadas pelo CEO da Reach Capital, Ricardo Campos, dificultam o acesso a taxas de juros mais acessíveis para os consumidores.

Para Campos, o surgimento de instituições financeiras digitais e plataformas como Mercado Livre e Nubank, que focam em consumidores de baixa renda, foi uma inovação importante. Facilitou o acesso ao crédito, antes restrito. Contudo, disse ele, a facilidade de obtenção de crédito, impulsionada pela tecnologia e pelo Open Finance, não foi acompanhada por uma avaliação adequada da capacidade de endividamento dos tomadores.

"Contrasta-se a facilidade de acesso ao crédito com a complexidade e rigor exigidos para investimentos financeiros", observou. Segundo ele, o estímulo à concessão de crédito, devido às altas taxas de juros e aos incentivos à recuperação de crédito, contribui para esse cenário.

"O governo busca regularizar essa situação, embora a facilidade de acesso ao crédito permaneça. A Lei do Superendividamento oferece uma solução para consolidar dívidas, mas a complexidade da análise da capacidade de pagamento e o aumento do custo de vida, sem o mesmo crescimento da renda, limitam sua eficácia", disse.

Para Campos, o programa Desenrola, assim como sua segunda edição, pode beneficiar os mesmos devedores, muitos deles com renda entre um e três salários mínimos, e que necessitam do crédito para cobrir despesas básicas. Nesse contexto, de acordo com o CEO da Reach Capital, a educação financeira é importante, mas não resolve todos os problemas.

Ainda, de acordo com o executivo, para uma gestão mais eficiente do crédito, é fundamental a criação de simulações de como a dívida impactará a renda ao longo do tempo. A questão central, segundo ele, é se o problema de endividamento é resultado da falta de educação financeira ou de falhas sistêmicas, como incentivos inadequados, características de produtos e assimetria de informações.

Segundo Campos, a concessão de crédito envolve interesses conflitantes: as instituições financeiras fazem uma avaliação de risco, com os juros pagos pelos bons clientes cobrindo as perdas com os maus pagadores. A relação entre juros altos e inadimplência é complexa, gerando um ciclo vicioso.

"Uma maior regulação pode aumentar a transparência na concessão de crédito. No entanto, a combinação de renda insuficiente e facilidade de acesso ao crédito perpetua o problema do endividamento", enfatizou o CEO da Reach, para quem o problema do endividamento não prejudica os balanços dos bancos, que se beneficiam da elevada taxa de juro, transferindo dinheiro dos pobres para os mais ricos.

Estadão
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