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Fed vê boom da IA agravando dor de cabeça da inflação, mas outros podem ter que arcar com o remédio

19 out 2026 - 09h35
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Resumo
O boom da inteligência artificial tem impulsionado a inflação nos EUA, impondo um desafio ao Federal Reserve. Como as gigantes da tecnologia são resilientes aos juros altos e mantêm investimentos massivos, o impacto do aperto monetário recai de forma desigual sobre o restante da economia. Setores dependentes de crédito, pequenas empresas e famílias acabam absorvendo o custo do remédio contra a alta de preços, enquanto o banco central busca desacelerar a atividade para alcançar a meta inflacionária.

O boom da inteligência artificial, cada vez mais reconhecido pelo Federal Reserve como um fator que contribui para impulsionar a inflação, deixou ‌as autoridades do banco central dos EUA diante do desafio de desacelerar o restante da economia para reduzir as pressões sobre os preços amplificadas por um setor de grandes nomes como Amazon, Apple e Anthropic, consideradas imunes aos aumentos das taxas de juros.

Autoridades do Fed sabem que sua ferramenta contundente de aumentar os custos dos empréstimos tem um impacto desigual. Com as empresas de IA gastando como se dinheiro não fosse problema, economistas veem o impacto dos aumentos dos juros recaindo em outros setores: sobre empresas e famílias mais dependentes de crédito, ou sobre pequenas e médias empresas que moderam seus planos de investimento à medida que o custo de crédito aumenta.

"Existem caminhos para chegar lá", disse a economista-chefe da ADP, Nela Richardson, sobre a meta de inflação de 2% do Fed, não atingida há mais de cinco anos. "Só ⁠que nem todas as vias estão abertas", com o mercado imobiliário já enfraquecido, por exemplo, e o mercado de trabalho não sendo visto como fonte de inflação por meio do aumento dos salários.

"O que resta? Pequenas ‌empresas, porque precisam de empréstimos bancários; consumidores que precisam financiar pagamentos para saldar dívidas e cartões de crédito... Talvez o mercado de ações", visto como um fator que sustenta os gastos dos consumidores das famílias mais abastadas, mas frequentemente vulnerável ao aumento dos juros, disse ela.

As ações, de fato, caíram na semana passada, depois que dados de inflação inesperadamente fortes reforçaram expectativas de que o Fed terá que elevar ainda ‌mais os juros.

A presidente do Fed de Cleveland, Beth Hammack, apontou recentemente os ganhos moderados do mercado de ações e a ‌desaceleração da atividade fora do boom da IA como formas pelas quais juros mais altos poderiam esfriar a economia "nas margens".

"Gosto do crescimento... Não estou tentando impedir o crescimento. Só estou tentando moderá-lo ⁠um pouco para que ele avance em um ritmo que não exerça muita pressão sobre os preços", disse Hammack à Reuters na última segunda-feira.

Os comentários de Hammack e de outros participantes em uma conferência da Associação Nacional de Economia Empresarial (NABE, na sigla em inglês) aprofundam um aspecto menos discutido dos aumentos das taxas de juros pelo Fed: de que maneiras os custos mais altos dos empréstimos poderiam se refletir na economia atual e levar a uma inflação mais moderada?

"MERECE MAIS EXPLICAÇÕES"

O Fed se reúne nos dias 27 e 28 de outubro e deve manter as taxas estáveis no intervalo 3,75%-4,00%. Autoridades do Fed afirmam que provavelmente serão necessários novos aumentos e agora debatem o ritmo e a extensão dessas altas.

O presidente do Fed, Kevin Warsh, ao discursar na semana passada em uma reunião do Fundo Monetário Internacional na Tailândia, reconheceu que ‌os investimentos em IA representaram um "choque" para os preços e a demanda, mesmo que ele veja ganhos de riqueza e produtividade "no horizonte".

"Se você é um banqueiro central e tem a missão de garantir preços estáveis e pleno ‌emprego, precisa reconhecer isso como um choque", disse Warsh.

O que ele ⁠não abordou foi como o Fed talvez precise reagir ⁠às crescentes pressões sobre os preços e o que isso significa além dos limites de um setor que deve investir cerca de US$1 trilhão no próximo ano, o que representa aproximadamente 3% do Produto Interno Bruto.

Em sua coletiva ⁠de imprensa após a reunião de política monetária do mês passado, Warsh disse que não achava que o Fed "precisaria prejudicar os mercados de ‌trabalho" para trazer a inflação de volta a 2%. No ‌início do verão do hemisfério norte, ele observou que os setores imobiliário e agrícola estavam "apresentando tensões" devido aos custos mais altos dos empréstimos, embora não considerasse as condições de crédito "restritivas".

O que ele não detalhou é de que maneira juros mais altos poderiam reduzir a inflação ou onde eventuais impactos econômicos poderiam ser sentidos.

"Warsh afirmou não ver um conflito entre inflação e desemprego. Isso merece uma explicação mais detalhada. Ponto final", disse o ex-presidente do Fed de Chicago, Charles Evans, em um painel do NABE sobre bancos centrais. "Os riscos e as consequências de elevar ainda mais as taxas ⁠de juros para reduzir a inflação são bem conhecidos."

"OS ATRASOS SÃO REAIS"

A relação de compensação entre menos empregos e menos inflação nem sempre foi dramática.

A queda da alta inflação da era da Covid-19 gerou apenas um aumento modesto no desemprego. Entre a relutância das empresas em demitir trabalhadores que foram difíceis de contratar durante a pandemia e as políticas de imigração do atual presidente Donald Trump, que suprimem o crescimento da força de trabalho, a taxa de desemprego permaneceu em uma faixa baixa, entre 4,0% e 4,3%, por mais de dois anos.

Isso deu aos dirigentes do Fed a confiança de que podem elevar as taxas de juros sem causar um aumento significativo no desemprego — se é que haverá algum. Mas isso também significa que ‌um caminho típico para reduzir a inflação — a desaceleração dos gastos do consumidor que provavelmente se seguiria ao aumento do desemprego — também pode estar fechado.

Formuladores de política monetária, incluindo o presidente do Fed de Richmond, Tom Barkin, e o presidente do Fed de St. Louis, Alberto Musalem, afirmam que a inflação poderia cair sem afetar fortemente o crescimento, o consumo ou o emprego. Um banco central confiável ⁠que leve adiante os aumentos dos juros, argumentam eles, poderia levar empresas e famílias a moderar suas demandas salariais e de preços, levando a uma inflação mais baixa.

O desafio, como sugeriram Hammack e outros, é que a demanda pode estar aumentando, e não apenas entre as empresas de IA.

Um amplo leque de empresas está se beneficiando do boom da IA, particularmente aquelas que constroem centros de dados ou fabricam componentes para eles, com carteiras de pedidos lotadas e investimentos necessários para atender à demanda.

"As carteiras de pedidos são reais", disse Christopher Gorman, diretor executivo da KeyCorp, com sede em Cleveland, aos participantes da NABE. Os clientes comerciais enumeram os riscos que enfrentam, incluindo imigração e tarifas, "depois falam sobre como os negócios estão indo bem" e apresentam planos tanto para investimentos quanto para aumentos de preços.

Fatores que afetam a inflação podem favorecer o Fed, incluindo qualquer resolução para a guerra com o Irã que reduza os preços do petróleo, uma suspensão da iniciativa de Trump de impor tarifas ou uma expansão mais moderada dos data centers, diante da crescente oposição local.

Juhi Dhawan, estrategista macroeconômica da Wellington Management, também destacou mudanças iminentes na política fiscal que podem ajudar, com cortes nos benefícios de saúde pública e o fim de incentivos fiscais que representam cerca de 0,5% do PIB.

Mas isso não torna o caminho para a inflação de 2% isento de dificuldades. O mercado de ações, fora das gigantes de IA, não tem se mostrado tão robusto, observou ela; não se espera que os lucros corporativos sejam tão fortes no próximo ano; e há indícios de que os consumidores de renda mais baixa estejam prestes a reduzir seus gastos.

A inflação diminui "se o mercado imobiliário sofrer mais uma queda, se a construção civil — provavelmente fora do setor de data centers — sofrer mais uma queda, e se muitas empresas não relacionadas à IA passarem a considerar o custo de financiamento proibitivo", disse Dhawan, enquanto que, para os consumidores, "há uma fragilidade subjacente, pois os salários ajustados pela inflação estão, na melhor das hipóteses, estagnados".

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