Grupo Globo demite diretor-geral Fred Kachar após vazamento de conversas com Vorcaro
Empresa alegou que teve acesso ao bate-papo entre o executivo e o ex-banqueiro apenas na quarta-feira, 14
O diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, Frederic Kachar, foi desligado do Grupo Globo nesta quinta-feira, 15. A demissão foi decidida após o vazamento de conversas dele com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, entre outubro de 2023 e julho de 2025.
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No comunicado, a empresa afirmou que teve acesso às conversas na quarta-feira, 14, e que o conteúdo revelou uma relação inadequada de um executivo com um anunciante.
"A Editora Globo reforça seu compromisso com a ética e a transparência e reafirma a absoluta independência editorial do jornalismo de seus veículos, premissa essencial de sua atuação. O protagonismo da cobertura crítica, isenta e independente que tem feito do caso Master é a demonstração concreta do compromisso inegociável de seus veículos com os Princípios Editoriais do Grupo Globo", disse.
O Grupo Globo ressaltou que reconhece os 29 anos de dedicação de Kachar frente ao desenvolvimento dos negócios de mídia da empresa, e informou que o nome de seu substituto no comando da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio será divulgado em breve.
O Terra busca localizar o contato de Karchar para comentar a decisão do Grupo Globo.
Diálogos
As conversas entre Kachar e Vorcaro, dono do Banco Master, vieram à tona na quarta-feira, revelando uma estreita relação entre o agora ex-diretor-geral do Grupo Globo e o ex-banqueiro.
Os registros, que abrangem o período do final de 2023 a meados de 2025, contêm negociações sobre patrocínios, convites para festas privês e uma verdadeira “blitz” de Vorcaro para tentar interferir no conteúdo noticioso que contrariava seus interesses.
O executivo demitido do Grupo Globo chamava Vorcaro de “amigo”, tratamento que é retribuído pelo dono do Master. A conversa mais antiga preservada na memória do celular do banqueiro é de 24 de outubro de 2023. Nela, Fred Kachar reclama da falta de contatos de Vorcaro.
“Brigou comigo sem eu saber?”, pergunta Kachar. Três minutos depois, o banqueiro responde: “Fala amigo. Que nada. Tudo bem? Estou na arabia saudita”. No que o então CEO, emenda: “Tudo joia. Vc sumiu, não me retorna mais rs. Me chama quando voltar? Boa viagem? O dinheiro tá aí.”
Numa demonstração de que agia para preservar proximidade com o banqueiro, Kachar manda mensagem em novembro, perguntando se Vorcaro já havia regressado da Arábia Saudita e conta que mandou entregar um presente de aniversário.
“Bom dia, meu amigo. Estás de volta? Tem tanto tempo que nem sei se te entregaram uma lembrança que mandei no seu aniversário. Abraços”. Vorcaro responde agradecido: “Meu amigo tudo bem? Lembrança nao, presentao! Muito obrigado”
O arquivo do celular do banqueiro registra uma sequência de mensagens enviadas por Fred Kachar que ficaram sem resposta de Vorcaro. Ele insistia em encontrar pessoalmente com o banqueiro. Mas em boa parte das tentativas, Vorcaro demorava a responder.
Kachar também indica que estava interessado em ter o Master vinculado a projetos de divulgação do Grupo Globo. Ainda em dezembro de 2023, procura Vorcaro com uma proposta: “Só pra organizar os próximos passos, vc me manda o contato do Marcelo da befly? Na veste vamos procurar o outro Marcelo diretamente, ok? A ideia eh soltar essas pautas em janeiro. Sobre as ideias pro baile e carnaval, dado que vc está fora em janeiro, sugere q a gente apresente pra alguém da sua equipe? Ou tentamos uma vídeo na primeira semana do ano? Já vou trabalhar nas ideias pro banco de varejo (master), pro novo (de investimento) e pro will. Abração”.
Como Vorcaro não respondeu, Kachar insistiu: “Caríssimo, não esquece de mim?! Só me dá essas orientações, pls Abração”. A Befly citada pelo CEO do Globo é um conglomerado que atua na área de turismo e que buscou recursos do Master para ampliar suas atividades depois da pandemia comprando outra empresa do setor, a Flytour. Já a Veste, antiga Retoque, é dona de marcas como Le Lis e Dudalina, e ficou associada ao banqueiro por meio da gestora WNT Central, que adquiriu o controle da varejista em 2022.
O baile que Kachar negociava patrocínio é promovido pela revista Vogue, o “Baile da Vogue” que na edição de 2024 foi realizado no hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. O então CEO da Editora Globo queria o patrocínio do Master ou de outras empresas vinculadas ao banqueiro também para o Carnaval. No início daquele ano, enviou para ele uma proposta de parceria para divulgar o Master na Globo.
Atrizes e modelos 'disponíveis'
No dia 4 de fevereiro de 2024, Kachar lamenta que Vorcaro não foi na festa. Na conversa, ele fala de atrizes e modelos que estavam presentes e “disponíveis”. Os dois trocam risadas e encerram confirmando negócios de patrocínio.
“Débora secco tava pra jogo. Sabrina tb. Aniversário dela. Soltinha”, comentou Kachar. Vorcaro reagiu fazendo piada da fantasia usada pela atriz Débora Secco no evento. Ela estava pintada de verde e fantasiada de extraterrestre. “Mas tava muito feia kkk”. Kachar retrucou: “Eu só olhava pra bunda dela rs. Mas concordo q a fantasia era broxante”.
Vorcaro encerra a conversa indicando que tinha aprovado patrocínio para evento no carnaval. “Aqui, ta fechado a proposta carnaval. Ja falei com todos”.
Os registros também mencionam a interlocução de Vorcaro com outras figuras ligadas à emissora. Em 3 de maio de 2024, ao recusar um convite de Kachar para o show da cantora Madonna, o banqueiro pede que ele envie um abraço a um “Roberto” (possivelmente em referência ao executivo do grupo, Roberto Marinho Neto) e acrescenta: “Luciano huck ficou de marcar novo encontro com ele!”.
A proximidade citada na mensagem converge com outra frente da investigação da Polícia Federal, revelada pela revista Veja, que mostrou que o apresentador e o dono do Banco Master mantinham uma relação de amizade e negócios. De acordo com as mensagens interceptadas pela PF citadas na reportagem, as tratativas de patrocínio do Will Bank ao programa dominical envolveram R$ 83 milhões em mídia para a emissora e renderam um “contrato pessoal” de R$ 26 milhões de reais ao próprio apresentador. Os diálogos de Huck com Vorcaro englobavam ainda a sociedade em um jato executivo, empréstimos de aeronaves e conselhos diretos sobre o gerenciamento da imagem do banqueiro na imprensa.
A partir de meados de 2024, o tom das conversas muda. É Vorcaro quem passa a procurar Kachar. E reclama de noticiário contra seu banco.
Irritado com jornalista
Em abril, Vorcaro manda cópia de um texto postado no X pela jornalista Malu Gaspar sobre o patrocínio não declarado do Master a evento no exterior que contou com participação de ministros do STF
Irritado, o banqueiro insinua que pode cancelar um patrocínio a evento do jornal Valor Econômico em maio na cidade de Nova York já que o jornal estava noticiando haver impropriedade no patrocínio. Até então cordiais, Kachar e Vorcaro têm troca de mensagens áspera. Mas que é concluída com Kachar dando razão ao banqueiro e dizendo que iria falar com a jornalista por considerar que ela não teria agido como ele considerava que deveria ser.
“Loucura a Malu embarcar nisso. Chega a ser inacreditável. Tanto o Poder 360 quanto o Globo, quanto a propria Globo possuem ações e fazem eventos que contam com pessoas do judiciário. O Banco participou do evento patrocinando a palestra do Tony Blair, com quem fiz um debate de altíssimo nível. Entendo o sensacionalismo que cria evento com ministros, mas colocar o banco dessa forma , é hipocrisia e covardia. Pois nesse caso, temos inclusive que abortar o evento com o Valor. No dia teremos membros do congresso e governo, que o banco e outros patrocinadores tem interesse em projetos de lei, etc. Se formos pra esse lado, a conversa vai ficar bem ruim. Como ela vai dar nota de todos os patrocinadores e seus problemas e interesses nos participantes? Ou ela vai atacar somente o Banco Master?”
Diante da longa mensagem, Kachar responde também com um longo texto: “Bom dia, meu caro. Não estou entendendo esse seu tom comigo. Sempre tivemos uma relação de harmonia e respeito. Se tiver algum erro na coluna da Malu, peço a correção imediata. Esse post não saiu no jornal, mas no perfil dela. Estou sabendo por vc. Está repercutindo o poder 360 e as ilações feitas lá. Não posso censurar um colunista e seus perfis. A apuração da coluna sobre o fórum já saiu e está no site do Globo. Há uma diferença bem grande entre nosso evento e esse fórum de Londres. Primeiro, não gira em torno de ministros de tribunais superiores. Teremos 20 painelistas e um, se confirmado, seria um ministro do stf num contexto de os três poderes debaterem a segurança jurídica do Brasil para investidores americanos, que estarão na plateia. Segundo, e mais importante, todos os patrocinadores são públicos e estão sendo comunicados nas dezenas de peças que já saíram. Se entendi direito o site mencionado pela Malu, o ponto está na falta de transparência sobre patrocinadores e custeio das passagens. Se vc quiser cancelar sua participação no evento, não tem problema. Só te peço que me aguarde chegar no Brasil, na quarta”.
Vorcaro diz que não ameaçou cancelar o patrocínio do evento do Valor, mas se sentiu injustiçado por ser só ele o citado pela jornalista. “Eu não gosto do que ela postou, por isso reforcei q a cobertura do globo eh a que está no site, onde não há essas ilações”, justificou Kachar.
'Festa privê'
Depois desse episódio, Kachar volta a procurar o banqueiro no mês seguinte. Oferece ingressos de cortesia para a filha dele ir ao show da Madonna. Também diz ter ingressos para a Copa do Mundo e oferece também a Vorcaro. O banqueiro era um dos principais patrocinadores do Summit Valor Econômico Brazil - USA. O vídeo do evento mostra Kachar logo no início fazendo um breve discurso. O primeiro convidado a falar na sequência é justamente Daniel Vorcaro.
No evento, o banqueiro fala que as discussões sobre o Brasil merecem mostrar coisas boas como a democracia do País, as instituições fortes nos três poderes e a segurança jurídica.
Durante a estadia em Nova York, Kachar marca encontro com o banqueiro, que o convida para uma festa privê “sem celular”. O banqueiro tem registros em seu celular de tratativas para festas com garotas de programa estrangeiras. Contudo, pelas mensagens trocadas, não é possível afirmar que houvesse a presença de garotas de programa neste evento específico promovido em Nova York.
A troca de mensagens demonstra como funcionavam os convites para o ‘after’ restrito. No dia 15 de maio, data do Summit do Valor, Kachar pergunta se Vorcaro iria passar mais tarde no evento da Câmara de Comércio Brasil/Estados Unidos chamado Person Of The Year, no que o banqueiro avisa que mais tarde, depois, iria “para a guerra”.
“Vai ao POY a noite?”, pergunta Kachar. “Vou passar la e depois ir pra guerra. Se voce animar. Hoje tem”, diz o banqueiro, ouvindo a seguinte resposta : “Hahahaha. Aonde? Tem essa coisa da Forbes. Vc vai?” “Vou nada. La nao ea nem pra olhar pro lado. Fechei um lugar. Sem celular. E sem risco. Pra verdadeira festa rsrs”, diz Vorcaro. Kachar então se oferece para ir no evento privê do Master: “Eh nessa q eu vou! Posso, né?” “Óbvio. Convidado de honra”, diz o banqueiro. “Merci”, agradece Kachar. Mas Vorcaro se apressa para explicar, fazendo referência a eventos parceiros que promoveu no Brasil: “Nao è tao bom quanto o do Brasil. Pq aqui contatos sao diferentes. Mas sera legal”. Kachar completa: “Não tenho dúvidas.”
Em julho, o banqueiro manda mensagem reforçar o laço de amizade com o ex-CEO do Globo. “Acho que precisamos falar ne? Temos uma amizade que supera negócios”. Kachar responde: “Claro, vamos sim. Como estão seus horários hoje? Final da tarde no horário daqui eh bom?”. Eles acabam combinando uma ligação que, segundo registros do celular durou 14 minutos.
No dia 15 daquele mês, Vorcaro manda uma mensagem depois da meia-noite para Kachar para falar de texto publicado pela jornalista Malu Gaspar e indaga que O Globo estava fazendo uma campanha contra ele.
“Desculpe a hora meu amigo, mas depois da uma olhada na diferença de narrativa. Malu (Gaspar) certamente ta com algo contra mim, que temos que resolver". À 0h44, Kachar responde: ”Fala meu amigo. Acabei de ler agora. Vamos marcar o seu encontro com ela na semana que vem. Até o último parágrafo são apenas fatos. No final tem opinião. Me lembro de vc dizer que esse tarso não te preocupava tb.Podemos falar amanhã, se vc quiserAbs". Vorcaro contesta: “Nao me preocupa a matéria. Mas o tom da Malu. E nao estou entendendo o motivo”.
Às 8h, Vorcaro manda nova mensagem. De novo para falar de textos jornalísticos do Globo. “Fred bom dia. Preciso entender se é uma campanha corporativa contra mim. De verdade amigo. Passou dos limites isso. Lauro (Jardim) acabou de soltar uma informação falsa. Nao comprei esse apartamento. Isso é muito serio o que está acontecendo”. Kachar responde cinco minutos depois: “Bom dia. Não estou sabendo de nada. Onde está essa nota? Não tem campanha alguma, claro. Olhei o blog e não achei. Vorcaro dá a entender que acabou falando diretamente com o jornalista: ”Resolvido com ele. Pode deixar. Assunto morreu".
Reclamações
O desconforto de Vorcaro, no entanto, não se limitava a queixas pontuais. Os registros do celular, que abrangem conversas trocadas entre o final de 2023 e meados de 2025, revelam uma verdadeira blitz de reclamações do banqueiro direcionadas a Fred Kachar a respeito da cobertura editorial de O Globo e do Valor Econômico.
Embora o então CEO da Editora Globo adotasse um tom de parceria comercial na maior parte do tempo, a relação era testada quando o noticiário contrariava o dono do Banco Master. Nesses momentos, Kachar alternava entre tentar apaziguar o parceiro e não ceder à pressão, recusando-se a interferir no conteúdo.
A proximidade entre os dois também se refletia na forma como Kachar aconselhava Vorcaro a lidar com a imprensa fora dos domínios do Grupo Globo. Em outro trecho das conversas, o então CEO comenta uma longa reportagem da revista piauí, assinada pela jornalista Consuelo Dieguez, que esmiuçava os negócios e a ascensão do Banco Master. Na troca de mensagens, Kachar desqualifica a publicação, afirmando que a revista teria se tornado “denuncista”, e orienta o banqueiro a se posicionar publicamente para se defender.
Em abril de 2025, Vorcaro acionou o publicitário Thiago Miranda para promover uma verdadeira devassa na vida pessoal de Malu Gaspar. Mensagens interceptadas pela PF mostram o banqueiro ordenando: “Vamos ter que pegar algo dessa mulher no pessoal”. Miranda prometeu “revirar a vida dela”, mas a busca foi frustrada. “Nem multa na CNH dela encontrei”, disse o publicitário.
Sem material para chantagem, a dupla tentou outra tática: oferecer um contrato milionário na empresa de Miranda (com luvas de R$ 1,5 milhão e R$ 120 mil mensais) para cooptar e silenciar a jornalista.
Em julho, Vorcaro volta a procurar Kachar de madrugada para reclamar de Malu Gaspar, insinuando que O Globo estaria promovendo uma “campanha corporativa” contra ele. Na mesma manhã, às 8h, ele incluiu Lauro Jardim no alvo de suas cobranças a Kachar, em razão de notas sobre o seu patrimônio — à época, o colunista revelou negócios imobiliários do banqueiro envolvendo um apartamento de luxo.
“Fred bom dia. Preciso entender se é uma campanha corporativa contra mim. De verdade amigo. Passou dos limites isso. Lauro (Jardim) acabou de soltar uma informação falsa. Nao comprei esse apartamento. Isso é muito serio o que está acontecendo”, escreveu o banqueiro.
Kachar novamente rechaçou a pressão institucional: “Não tem campanha alguma, claro”. Minutos depois, Vorcaro dá a entender que usou outro caminho para resolver a situação: “Resolvido com ele. Pode deixar. Assunto morreu”.
Mensagens com Thiago Miranda na mesma época mostraram Vorcaro enfurecido porque Lauro e Malu “vieram com mais fúria após a abordagem”. E a solução cogitada, segundo as apurações da PF, era um plano para simular um assalto e agredir Lauro Jardim fisicamente.
(Com Estadão Conteúdo)
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