Eternit faz aposta no mercado de casas e edifícios pré-fabricados para expandir atuação
Em materiais de construção, a telha de fibrocimento ainda representa mais de 90% da receita da empresa, que ficou seis anos em recuperação judicial
Após seis anos em recuperação judicial, encerrada em agosto de 2024, a Eternit vem reposicionando seus negócios. O grande baque na empresa se deu no final de 2017, com a proibição no País do uso da fibra de amianto crisotila na fabricação de telhas de fibrocimento.
De lá para cá, o grupo apostou em várias iniciativas, como as telhas fotovoltaicas. Esse negócio, porém, não resistiu à concorrência de fabricantes chineses, grandes exportadores de painéis solares a baixos preços. O plano mais recente, da construção industrializada, de 2023, visou usar a expertise de décadas na indústria de materiais de construção e, nesse caminho, avançar além do telhado.
O objetivo é se tornar um grande fornecedora de produtos modulares ? como placas cimentícias e outros ? para preenchimento e revestimento de paredes internas e externas de casas ou edifícios pré-fabricados.
"Esse mercado avança a passos largos", diz Rodrigo Inácio, CEO da Eternit. O executivo está na empresa desde 2017 e ocupa a presidência há um ano. No primeiro trimestre deste ano, segundo balanço do grupo, houve avanço de 17,7% na receita do segmento de construção industrializada em relação a igual período de 2025, atingindo quase R$ 15 milhões. "O segmento será um dos principais vetores de inovação e crescimento da Eternit", destacou.
É um mercado a ser mais desbravado pela companhia, fundada em 1940 e listada na Bolsa de Valores oito anos depois. O produto carro-chefe da Eternit são as tradicionais telhas de fibrocimento, que respondem por quase dois terços da receita líquida total da empresa, de R$ 1,15 bilhão em 2025. Uma fatia importante, em torno de 30%, ainda vem da exportação de fibra de amianto crisotila extraído em Goiás.
A construção industrializada representou cerca de 5%, com valor de R$ 52 milhões em 2025. "Neste ano temos expectativa de que essa nova área responda por 15% da receita gerada no segmento de materiais para a construção (telhas de fibrocimento e produtos para construção industrializada)", diz Inácio. Ou seja, mais que dobrar em relação ao ano passado, quando chegou a 6,5%.
O executivo cita os sistemas construtivos steel frame e wood frame ? estruturas metálicas e de madeira ? como grandes usuários de placas moldadas em cimento, que vão no fechamento das paredes. Ele diz que foram mapeados 150 potenciais clientes para os produtos desse segmento, desenvolvido a partir de 2022.
Para avançar na construção industrializada, vista como um caminho estratégico do futuro da companhia, a Eternit vem investindo em conversão de máquinas e equipamentos das fábricas. A unidade de Colombo, no Paraná, está ganhando uma nova máquina este ano e será o centro de desenvolvimento das tecnologias desse processo industrial, inclusive formando mão de obra, explica o CEO. A próxima unidade a fazer conversões de máquinas será a de Hortolândia, em São Paulo.
O montante a ser investido não é baixo, mas é inferior ao que se gastaria para erguer uma nova fábrica dedicada - cerca de R$ 10 milhões a R$ 15 milhões cada máquina. "A base estratégica e estrutural do futuro da companhia está na construção industrializada", resume o CEO.
Reorganização de negócios
A adaptação à nova situação, após o choque da proibição do uso da fibra de amianto crisotila no processo de fabricação de telhas, obrigou a empresa a desenvolver nova matéria-prima, uma fibra de resina de polipropileno. Montou uma fábrica específica em Manaus. Essa unidade, atualmente, abastece as seis unidades fabris de telhas ? Colombo , Hortolândia, Rio de Janeiro, Goiânia, Caucaia (CE) e Simões Filho (BA).
A substituição da fibra de amianto por fibra sintética foi feita desde o início de 2018 pela unidade de Manaus. Com a recuperação judicial, a empresa vendeu ativos, como a área de louças sanitárias, e outros bens. A dívida arrolada na Justiça foi de R$ 230 milhões.
A Tégula S/A, responsável pelo negócio de telhas fotovoltaicas e de concreto, teve as operações desmobilizadas na fábrica de Atibaia (SP). Primeiro, em março de 2025, foram as linhas de telhas à base solar. A controlada foi incorporada pela Eternit alguns meses depois, em agosto.
Na época, a Eternit informou que tomou a decisão de descontinuidade das linha de produtos "após uma busca incessante por alternativas mais competitivas e inovadoras ao longo de cinco anos de investimentos". Um fator foi que, paralelamente, o mercado chinês de placas fotovoltaicas reduziu o preço de seus produtos de forma consistente, com queda pela metade nos dois anos anteriores (2023 e 2024), impactando todo o mercado fotovoltaico nacional.
Antes do fim do ano passado, em dezembro, a companhia aprovou a descontinuidade da operação de telhas de concreto. A Eternit justificou que o segmento vinha apresentando volumes de produção muito abaixo do esperado, apresentando resultados deficitários.
No movimento de reorganização feito a partir de 2024, para ganho de eficiência, a Eternit decidiu também transferir sua sede da capital paulista para o mesmo prédio da fábrica de Hortolândia, no interior de São Paulo, a Confibra. Essa unidade foi adquirida em 2021, dentro do plano de recuperação judicial, por R$ 110 milhões. A nova sede deverá receber cerca de 130 funcionários.
A empresa encerrou 2025 com lucro líquido de R$ 49 milhões, alta de 26%, e dívida líquida de R$ 111,8 milhões. A dívida subiu para R$ 124 milhões ao final do primeiro trimestre deste ano.
Futuro do amianto em Minaçu sub judice
Ainda tem peso relevante na companhia a receita gerada com a produção e exportação de fibra de amianto crisotila, extraída e processada em Minaçu (norte de Goiás). A receita gerada em 2025 atingiu R$ 373 milhões, com embarques de 169 mil toneladas de fibra, principalmente para Índia, Indonésia, Sri Lanka, Tailândia, Vietnã e outros países da Ásia. Um cliente na América do Sul é a Bolívia.
Essa atividade se mantém graças a uma lei do Estado de Goiás, de 2019, que autorizou a extração e beneficiamento do amianto crisotila em Minaçu, especificamente para exportação. O Supremo Tribunal Federal (STF) julga a legalidade dessa lei, que contrariou a proibição nacional da Corte, em 2017. A fibra, desde 2018, tem venda e uso proibidos no mercado interno.
Em agosto de 2024, foi sancionada a Lei 22.932 do Estado de Goiás que ficou prazo de cinco anos para o encerramento das atividades de extração e beneficiamento do amianto, porém contado a partir da assinatura do termo de Compromisso de Cumprimento de Obrigações, o que não se efetivou até o momento. "Estamos, a companhia e nós, todos cientes disso e preparados", diz Rodrigo Inácio.
Capital pulverizado
Listada no Novo Mercado da B3 desde 2006, a Eternit é qualificada como uma companhia corporation, ou seja, com capital pulverizado no mercado e sem controlador acionário definido.
Os principais acionistas da companhia, com participação acima de 5%, são o fundo D+1 Fundo de Investimento em Ações, com 27,19%, e o investidor Luiz Barsi Filho, com 5,02%.
A empresa praticamente divide o mercado de telhas de fibrocimento com a gigante Brasilit (grupo Saint Gobain): cada uma tem participação de 30%. Os 40% restantes são disputados por cinco empresas de controle familiar, segundo informou Inácio.
A marca Eternit foi criada a partir de tecnologias desenvolvidas pelo austríaco Ludwig Hatschek, popularizada pela empresa belga Etex, proprietária da marca. A unidade industrial mais icônica da Eternit operou na Itália de 1906 a 1986 em Casale Monferrato, uma região rica em calcário, usado na indústria do cimento.
No Brasil, a empresa foi constituída em 1940, trazida pela Eternit A.G., da Suíça, e por investidores belgas, e adotou o nome de Eternit do Brasil Cimento Amianto S/A. Instalou a primeira fábrica em Osasco (SP), na época um bairro de São Paulo. Começou a operar em 1941, fabricando chapas lisas, telhas de fibrocimento e caixas-d'água à base de amianto.
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