Caso Estrela: digital é risco no setor de brinquedos, mas não é 'caminho sem volta', dizem analistas
Estrela e Xalingo citaram concorrência com alternativas digitais de entretenimento entre as razões para pedido de recuperação judicial; especialistas dizem ser necessário acompanhar novas demandas
A exposição crescente das crianças ao entretenimento digital deixou de ser uma pauta apenas do campo da saúde e da educação e foi parar na pressão sobre a indústria dos brinquedos físicos. Segundo especialistas ouvidos pelo Estadão, os recentes pedidos de recuperação judicial de duas gigantes do segmento, Estrela e Xalingo, sinalizam que o tema da digitalização infantil já está sendo fator de risco para o setor, exigindo que esse mercado se atente a frentes mais amplas de atuação para se manter em plena operação.
A concorrência com as telas foi um dos motivos alegados pela Estrela para o pedido de recuperação judicial na quarta-feira, 20, na Comarca de Três Pontas (MG). Em fato relevante enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a empresa afirmou que a decisão veio da necessidade de reestruturação financeira, em um contexto de pressões econômicas e setoriais, como aumento do custo de capital, restrição de crédito e mudanças no comportamento de consumo, diante da maior competição com alternativas digitais. A empresa está prestes a completar 89 anos.
"Se as empresas continuarem na inércia e não terem uma área dedicada a gerenciamento de riscos, para mitigação, com plano de ação e, mais do que isso, sem trazer esses indicadores para os tomadores de decisão, vamos ver (recuperações judiciais) acontecer com mais assiduidade."
Já para a especialista em mídias e letramentos digitais Priscila Mendes, pesquisadora na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), é "evidente" que a forma como as crianças interagem com o mundo mudou significativamente, muito influenciada pelo que chamou de "atravessamentos do digital". O movimento, segundo ela, tem causado impacto na indústria de brinquedos tradicionais, mas não é um "caminho sem volta", se houver colaboração educacional para um equilíbrio.
"Hoje, há uma busca maior por interatividade, dinamismo e estímulos constantes, o que impacta diretamente a relação (das crianças) com os brinquedos tradicionais. No entanto, não considero esse um caminho sem volta no sentido de substituição total."
Para Mendes, o que se desenha é a necessidade de convivência e equilíbrio entre o digital e o físico. "As telas e as tecnologias digitais passam a fazer parte da experiência, mas não anulam o valor do brincar concreto, especialmente no desenvolvimento infantil."
Nem alta nem baixa nos números
Os dados da indústria de brinquedos no Brasil mostram certa estagnação no mercado, com ligeira baixa de faturamento no recorte nacional no pós-pandemia. Segundo informações da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), o faturamento do setor referente ao mercado nacional quase dobrou entre 2019 e 2020, chegando a pouco mais de R$ 6 bilhões. A partir de 2021, a cifra caiu para a casa dos R$ 5 bilhões, permanecendo com poucas oscilações até 2025.
No ano passado, 40% dos fabricantes de brinquedos no País relataram vendas como boas, 40% como regulares e 20%, ruins. Do ponto de vista da rentabilidade, 43% consideraram como regular, enquanto 29% julgaram como ruim. A rentabilidade foi considerada boa para 28%.
No entanto, o mercado mostra que continua apostando no segmento. A entidade indica que o Brasil deve lançar 1.740 novos produtos, um recorde frente à série histórica considerando o ano de 2017, quando foram lançados 1.309 produtos. As projeções para vendas e rentabilidade também são melhores.
Ao Estadão, o presidente da Abrinq, Synésio da Costa, afirma que apesar de estar havendo avanço do digital mudando o comportamento da criança, não há conflito entre a questão do uso das telas pelas crianças e o mercado de brinquedos. Segundo o gestor, as fábricas estão se adaptando para alcançar a velocidade que as crianças estão demandando, e o caso da recuperação judicial da Estrela já estava previsto.
"Estamos encontrando caminhos para adaptação, e eu acho que isso vai sair muito bem. O episódio com a Estrela já estava previsto. Então, estou tranquilo com a recuperação, e estou tranquilo com a nossa capacidade de oferecer brinquedo", diz Costa. "É claro que o avanço do digital muda o comportamento de consumo da criança, mas o brinquedo é genético, brincar é genético."
Para o gestor, há outros fatores que preocupam mais o setor, como o fim da taxa das blusinhas, que derrubou a tributação em produtos importados de baixo valor. "É claro que estamos tomando uma espécie de 'tapa na cara' agora, mas é muito mais por causa dos (fabricantes) chineses, da importação ilegal", diz. "A taxa de juro, o prazo de venda e o contrabando são os responsáveis por tudo isso. Só temos que reconstruir o jogo considerando essas variáveis novas."
Acompanhar os novos tempos é a chave
De acordo com a especialista em varejo Patrícia Cotti, diretora de pesquisas do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar), a digitalização é fator de mudança de mercado e comportamento de consumo, por isso, insistir em não acompanhar as novas demandas é não se reinventar é o maior risco.
Mas esse risco pode ser evitado, comenta a analista, com a adesão à linguagem híbrida entre digital e físico. Há marcas no segmento de brinquedos, como Lego e Barbie, por exemplo, que têm ampliado diálogos com produtos audiovisuais, impulsionando o desejo pelos brinquedos físicos.
"O mercado muda e as empresas têm de mudar com ele. Existem formatos de híbrido e de aproveitamento de ambos os mercados de forma a somar. (São) iniciativas como a criação de brinquedos físicos baseados em jogos, videogames, animes, influenciadores, com a tangibilização física do ambiente online. O erro e o risco estão em achar que se pode fazer a mesma coisa para todo o sempre", avalia.
A adequação às novas demandas também deve estar no radar de quem atende o consumidor final, e o mercado está se movimentando nesse sentido. A rede de lojas de brinquedos Ri Happy, que tem quase 300 unidades no Brasil, informou ao Estadão que tem previsão de iniciar em breve uma ampliação de interação com o público alinhado ao digital.
O CEO Grupo Ri Happy, Thiago Rebello, não antecipou todos os detalhes do formato à reportagem, mas explica que vê as transformações de consumo como um "convite para ir além do varejo tradicional".
"Entendemos as transformações de consumo como um convite para ir além do varejo tradicional. Hoje, nossa estratégia une a ultraconveniência na jornada digital, impulsionada por nossa capilaridade, ao entretenimento nas lojas físicas."
A proposta é que a brincadeira presencial também possa continuar. "Transformamos nossos pontos de venda em espaços de convivência e lazer, com áreas dedicadas ao brincar livre, como nossas brinquedotecas e ativações de experimentação. Ao integrar facilidade de compra e momentos reais de diversão, garantimos que o brincar presencial continue presente e relevante."
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.